• André Vieira

À beira do penhasco

\\ CINEMA


Documentário-fixação de Shane Salerno desnuda a vida íntima de um maiores escritores norte-americanos do século passado


Por André Vieira


Cartaz do filme "Memórias de Salinger" (Divulgação / The Weinstein Company).

Para muitos a pergunta “você conhece Salinger” ou “você já leu J.D. Salinger” soará estranha se não vier acompanha das palavras “apanhador” ou “centeio” junto à questão inicial. Talvez seja essa a principal premissa para entender a importância do escritor por essas bandas; embora possuía obra de grande renome na esfera crítica e no imaginário cultural do estadunidense — livros como Franny & Zoey e Hapworth 16, 1924 quem o digam — quando falamos de Salinger e quando tocamos no seu estrondoso legado literário, principalmente no Brasil, nos referimos a Holden Caulfield, a uma Nova Iorque sob a neve dos anos 1940 e ao sentimento de inocência se esvaziando de um corpo adolescente em transformação, na obra transgeracional o Apanhador no Campo de Centeio.


Contudo, desde as primeiras imagens do documentário Memórias de Salinger (2014) percebemos que nossas primeiras impressões sobre o autor do Apanhador se mantêm quase inabaladas. “Em 2000, em publicação a mando de uma revista de literatura, fiquei três dias atrás de uma foto de Salinger em sua casa em Nova Hampshire”, diz o fotógrafo que dá os primeiros contornos à narrativa, que constrói de maneira bem fundamentada os principais fatos da vida solitária do escritor norte-americano, desde suas origens abastadas como filho de um empresário do ramo de laticínios até o autoisolamento imposto do meio ao fim da vida na colina Cornish a fim de se concretar na produção de suas obras.


Em um documentário que reúne mais de nove anos de pesquisas do diretor Shane Salerno, entre documentos de época, filmagens contemporâneas — como o testemunho de Mark David Chapman, assassino de John Lennon com uma cópia de o Apanhador no bolso — e relatos de amigos, jornalistas, críticos e familiares de Salinger, o longa se concentra em duas frentes para melhor entender a história do autor: a primeira hora se destina a esmiuçar a vida escritor antes do sucesso astronômico; já os 70 minutos restantes se concentram a entender o legado deixado por sua obra-prima tanto no imaginário popular, assim como na própria forma do romancista tomar as decisões de sua carreira, de abdicar qualquer contato além da solitude de seu banker e de mandar cartas a jovens, entre a idade de 17 a 19 anos, as convidando a fazer parte da sua “terra do nunca”.


Se por um lado o documentário triunfa a trazer informações cativantes, que vibram as letras das páginas do Apanhador e dão um entendimento mais profundo a obra e vida de Salinger — sobretudo ao leitor brasileiro que teve pouco acesso às discussões que perambularam durante a trajetória do escritor —, por outro há por vezes um enfoque dispensável em dar atenção às desilusões sociais, ou quem sabe amorosas, de entrevistadas que tiveram contato mais íntimo com o escritor — caso de Joyce Mayrand e Jean Miller. O descompasso narrativo se torna mais aparente quando dramatizações do escritor, por meio de um homem que bate ferozmente à máquina, e a trilha sonora que ajuda a contar a história se tornam a tônica para recontar um thriller a partir vida do autor, como se o próprio drama de um homem que vive uma experiência pós-traumática por décadas, em decorrência da guerra, não fosse por si só um leitmotiv suficiente para contar a epopeia singular da família Salinger e de todas as outras de J.D criou a si em vida.


O “golpe fatal” da trama é destinado aos últimos minutos do longa. Após um depoimento esclarecedor da jornalista Betty Epps sobre a conversa que tivera com o escritor, Salinger teria declarado que “o único tipo de publicação válida era aquela destinada ao próprio escritor” em contraposição ao trabalho da jornalista que era publicar a vários públicos; o documentário avança aos "finalmente" e destoa do ritmo até então linear para mostrar várias telas com rumores e especulações rumorosas sobre a obra do escritor. Confirmadas por meio de fontes anônimas dentro da J.D. Salinger Trust, os próximos quatro a cinco minutos de tela se destinam a vaticinar quais serão as próximas publicações programadas pelos detentores de seus direitos autorais, dando, inclusive os temas e temáticas desses livros e cravando, com certeza que essas obras sairiam entre 2015 e 2020 — e como belo drama que se preze, esses informes são obviamente acompanhados por uma trilha misteriosa que condessa ainda mais o clima de tensão esperado pelo espectador-leitor.


A priori soaria estranho que um documentário fizesse um trabalho de jornalístico de furo, sobretudo quando o produto de um longa desse tipo não se preza a buscar a efemeridade nos atos ou na bibliografia de Salinger, mas sim de os analisar à luz do impacto da sua literatura e da figura emblemática que foi J.D. Por outro lado, essa procura pelo “novo” nas velhas páginas do Apanhador parece revelar um lado mais fanático do diretor Shane Salerno, que não satisfeito com a minuciosa pesquisa — cuja própria natureza do investigado descambaria, naturalmente, para “becos sem saída” —, apostou em criar uma redenção à sua própria história e à biografia de Salinger, ao invés de apenas aquiescer que algumas pessoas e alguns temas simplesmente não precisam ser entendidos em sua totalidade, que sua potência e beleza jazem justapostos à sua compreensão.


Trocando por miúdos, na vida de abismos que viveu Salinger e sua obra, sempre correndo às margens para evitar ser glorificado por algo além da sua obra, Salerno justificaria essa solicita solitude de J.D por meio de sua própria interpretação do abismo em que o autor historicamente se coloca, apontando para as novas obras e novos temas dentro do seu documentário como a forma do escritor fazer as pazes com sua biografia e com seu público, ao mesmo tempo que, despontaria o próprio longa de Salerno como precursor dessa redenção social-histórica. — O que Holden diria sobre isso, hein?

Em resumo: Memórias de Salinger serve como ótima introdução à vida tortuosa que viveu o escritor, sobretudo para aqueles que têm como referência o clássico, o Apanhador no Campo de Centeio; contudo não o longa deve ser levado a ferro e a fogo como uma obra definitiva da vida do apanhador. Entre um fanatismo exacerbado e uma saída furtiva que realçaria a importância do escritor e do realizador, o documentário não se propõe, como Bruce Handy brilhantemente sublinhou, de forma a cativar os leitores a conhecer mais da obra de Salinger; ao contrário, dá vontade de nunca ter que pensá-lo nele novamente.

Caso queira assistir ao documentário, ele está disponível em plataformas do HBO norte-americana ou a partir do link.


Boa sessão!

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