• Bruno Pernambuco

À Distância das Mãos

\\ CINEMA

Tão Perto, Tão Longe, não é exatamente a obra de um destino trágico, mas é definitivamente uma que fala de uma mudança irretornável

Por Bruno Pernambuco


[Em comemoração aos 75 de Wim Wenders, o serviço Belas Artes à la Carte disponibiliza, a partir de 13 de agosto, clássicos da filmografia do diretor. Frentes Versos acompanha os lançamentos semanais do especial.]


Natassja Kinski em cena de "Tão Longe, Tão Perto".

A mais absolutamente clara e precisa poesia tem o anjo do tempo. Sua estética é aquela da pureza completa e intocada, e da sequência dos acontecimentos a partir dessa composição mais elevada do intelecto. Ele tem por seu princípio a ordenação dos elementos e dos atos, ao mesmo tempo que sua existência é tão inteiramente maleável que, ao atravessar as individualidades de forma inescapável, é alterado por cada uma delas, que deixa na sua experiência seu sinal particular. Infinitas contradições se resolvem no retrato de Willem Dafoe. O tempo afinal não é mais que infinitos retalhos, infinitos pensamentos, sensações, conceitos que foram interjeitados, postulações da realidade que se entreatravessam. O coração está inteiro, e assim se presta a andar junto de uma história que é agora engajada inteiramente no tempo e no espaço, na existência, na corporeidade e na morte. Ser indivíduo, ser este ente corpóreo, é ser uma questão irresolvível. Ser humano é criar-se sem existir nada que criar. Não é possível inventar-se, apenas descobrir-se, mas descobrir-se é cair em um abismo onde não há o que descobrir.


Cassiel é superior, muito, a todos nós, e ainda mais o é por não poder ser redimido. Sua figura de anjo transcende os valores que se pode esperar da vida. Sua existência eterna, ao lado de Raphaela, é uma imagem tão eternamente perfeita que não cabe dúvida de sua harmonia. Os conhecemos através de uma expressividade dos olhos tão grandes que claramente pertence ao mundo preto e branco. É a trajetória, verdadeiramente, de uma figura muito maior, que segue sua transformação natural, de sua vida como anjo até sua morte como anjo - mas que em sua passagem deixa alguns retratos tão precisos que revelam de forma única uma intimidade minguada do humano, nos seus rincões mais fechados. Aprender com Cassiel é aprender com essas imagens ardentes, que crescem ao revelar uma outra contraface possível de nós mesmos.

De uma forma única em Tão Perto, Tão Longe, se fecha em uma história de Berlim - e também uma história do cinema alemão, numa imagem tão tenra de Heinz Rühmann, que em seu último longa assume o papel de guardião do tempo e da memória narrativa, contrapondo-se à grandiosidade metafísica do Curt Bois homenageado aos créditos finais da obra de Wenders - que, afinal, o que pode ser uma história do muro é uma história de um tempo, e o que pode ser a história de uma guerra é uma história de toda a humanidade, e por ser a história dos destinos é uma história dos anjos, assumindo também o enrendo de cada gesto mais minuciosamente delicado de Marion, e de uma trapaça no momento exato, diante da sombra do próprio passado, e de uma explosão subterrânea. O olhar do tempo acossa, agora, muito mais firmemente os personagens e a ação, e essa é uma diferença perceptível.


Tão Perto, Tão Longe, não é exatamente a obra de um destino trágico, mas é definitivamente uma que fala de uma mudança irretornável, como foi o instante de pó na queda do Muro. É uma projeção onde se vê tocar um tempo acelerado, fugidio, perturbado, aquele em que, sob a descoberta da impiedade desse olhar neutro e onipresente clama a necessidade daquelas transformações que se tencionam na superfície, e que devem seguir seu curso para que a vida não seja uma mera liberdade hipotética, mas esse colocar-se em si próprio, essa vivência inteira dos próprios sentimentos. Num recital tão inteiramente bem orquestrado, a história de um fracasso é aquela que conta, ao fim, todos os encontros.

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