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[Resenha] 2018: 80 anos do olhar de Veríssimo sobre os lírios do campo

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Tendo como plano de fundo mais do que o campo de lírios, mas também a forma urbana em sua expansão e o Estado Novo e suas repressões

Por Giovana Proença


Em 1938, pela primeira vez, o Doutor Eugênio corria contra o tempo em uma viagem, também compreendida como sentimental e memorialista, na tentativa de reparar seu principal equívoco – que definiria sua trajetória de formação. Desde então, o contínuo sucesso e a permanência na atualidade dos comportamentos expostos e criticados por Érico Veríssimo em sua obra mais lida, Olhai os lírios do campo (1938), ao longo de seus oitenta anos de publicação completos nesse ano, comprova o caráter clássico que é conferido à produção do autor no cenário literário brasileiro, emergindo o surgimento do romance social e épico sulista, arquitetado por Veríssimo.

Olhai os lírios do campo surgiu no cenário de profusão do engajamento da literatura, no recrudescimento do realismo brasileiro. Assim, em meio às retratações do Nordeste e suas mazelas, a publicação desse e de Caminhos Cruzados na década de 30 levantou atenção para o Sul do Brasil, pouco retratado no cânone literário, tendo como plano de fundo mais do que o campo de lírios, mas também a forma urbana em sua expansão e o Estado Novo e suas repressões.

Enquanto Caminhos Cruzados apresenta uma crítica clara aos padrões da burguesia em uma série de histórias que se entrecruzam envolvendo as classes sociais, mas aproximando os sentimentos mais intrínsecos à humanidade. O conflito que abala a beleza dos lírios do campo é ainda mais profundo. Tendo como título a famosa passagem da bíblia que prega a priorização da simplicidade e a felicidade que essa propicia, o romance acompanha o jovem Eugênio, que deixa levar-se pela ambição em detrimento de seus valores, justificando-se pela não resignação a uma vida marcada de pobrezas, como sua infância.

A trajetória de Eugênio tem influência direta da Servidão Humana de Maughan, o romance de formação de um jovem médico tal qual o protagonista dos Lírios do Campo. O interesse de Veríssimo na literatura inglesa, tendo inclusive traduzido algumas obras, impactou diretamente na expressão literária do escritor e em sua produção. Teria vindo da leitura de Katherine Mansfield a maior preocupação com a verossimilhança afetiva das personagens, presente nos Lírios e nas personalidades de inúmeras personagens femininas e em Um certo capitão Rodrigo, da obra de dimensões épicas que declarou Veríssimo como responsável por pintar o retrato do Rio Grande do Sul, O Tempo e o Vento.

Os elos entre as críticas presentes nas encruzilhadas dos Caminhos Cruzados, a vastidão sentimental em meio ao ‘olhar’ os lírios do campo e a força pela qual resistem os elementos das obras de Veríssimo nas intempérie do Tempo e o Vento, revelam a magnitude da corrente de um compositor de imagens desconhecidas do Sul brasileiro, o qual foi denotado nas palavras: a forma que Érico Veríssimo encontrou de revelar esse universo paradoxalmente próximo e distante, atirando-se no atento olhar de seus campos de lírios florescentes e secos.


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