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4 poemas de Francisco Gomes

\\ POEMÁRIO


Por Francisco Gomes*, colaboração para Frentes Versos

"Nature morte au crane" (1898), de Paul Cezanne.


INSUSTENTÁVEL


É insustentável

acompanhar o ritmo das marés

e perseguir o silêncio

em noites de prévias aventuras.

Seguir quilômetros e quilômetros

de areia

— púrpura ventania

soprando o pó dos desencantos

nas doidas e doídas têmporas

do teu passado...

... tão presente

, de desventuras...

É insustentável

colher a lua

após o pôr do sol de domingo

quando os olhos já não lambem o céu

& as cicatrizes tornam-se feridas.

É insustentável...

Insustentável dar o próximo passo

diante de anjos de sal

que são diluídos

entregues à fluidez límpida

na sede

que cede

ao delirante

desejo líquido...



MEUS OLHOS ÁCIDOS NÃO MENTEM


Meus olhos ácidos não mentem.

As flores sempre perdem

a força bruta da beleza.

A suavidade agridoce

, nas coisas

, há tempos me abandonou.

Agora sou

fruto da escassez

, ciente dos experimentos ocres

das ilusões.

Meus olhos ácidos não mentem.

Nossas vozes distantes

impregnam o ar de lamurialâminas.

A volúvel geometria

, das coisas

, já não perpassa meu olhar alquímico.

Agora sou

caçador de mitos

, desfibrando o inaudível dos abismos...



HÁ UMA FLORESTA EM MIM


Há uma floresta em mim.

Sim

, há uma floresta em mim

, plantada em meu peito

, bem no fundo

, no fundo mais negro.

Há uma floresta

, densa

, fechada

, úmida e inóspita

no que resta de mim

, onde mariposas em arroubos loucos

pousam e acinzentam

os astros incógnitos da infância.

Há uma floresta em mim

de fria folhagem-faca

, que corta a manhã da saudade...



O CICLO DO VENTO AO CONTEMPLAR AS ESTAÇÕES


I

Cíclico é o distanciamento

entre marés, sereias e marinheiros

: o encantamento com a imensidão

do nunca atingido.

II

Cíclico é aproximar-se

do precipício; sentir o hospício

no sal do venerado cio do instinto

: propulsão do corpo em direção ao vício.

III

Cíclico é abster-se de si

dentro de si na frieza dos dias quentes

sem aparentes desastres

: frágeis limitações do ser.

IV

Cíclico é o além do inabitável sopro do vento

: quando as folhas caem...

Restam outonais abismos

ou silenciosos sussurros

que nos (a)traem?


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*Francisco Gomes (Campo Maior–PI, 1982). Vive em Teresina–PI. É poeta e músico. Autor do CD “Diafragma – Poemas em áudio” (formato físico, 2018; formato digital, 2020). Além de obras inéditas e em construção, publicou 4 livros, entre eles: Poemas Cuaze Sobre Poezias (FCMC, 2011) — 1º lugar na categoria Poesia do Concurso

Literário Novos Autores/2008, através da Prefeitura de Teresina — e O Despertar Selvagem do Azul Cavalo Domesticado (Multifoco, 2018). Edita o blog Pulso Poesia. Tem poemas em revistas, antologias, sites etc. Dedica-se cotidiana e arduamente à poesia, num trabalho de pesquisa, leitura, contemplação e escrita.

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