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A última cena de Fassbinder: realizador e obra numa única tela.

\\ CINEMA


Em seu último longa, Querelle(1982) Rainer Werner Fassbinder propõe discussão que ainda se faz presente


Nathan Maciel*, colaboração para Frentes Versos


MARINHEIRO. Querelle, o protagonista em cene. Reprodução/MUBI.

Foi meu interesse pelo New Queer Cinema que me fez descobrir este filme durante a empreitada de assistir algumas das obras que influenciaram o movimento. Tanto Fassbinder quanto Genet são considerados fortes referências para essas novas formas de representar os desvios à heteronormatividade que surgiam no cinema independente na década de 1990. À altura, Fassbinder era um daqueles cineastas dos quais já tinha ouvido falar, mas do qual não poderia citar mais que um ou dois filmes. Porém, seu nome figura como um dos maiores representantes do Cinema Novo Alemão e sua filmografia impressiona: em menos de vinte anos de atividade, ele escreveu cinquenta títulos entre longas, curtas e séries; dirigiu e atuou em mais de quarenta filmes, além de, em alguns, ter sido montador, fotógrafo e produtor.


Fassbinder era especialmente conhecido por misturar sua vida pessoal com seu ofício. Parceiros e amantes, além de seus amigos e família frequentemente atuavam, ou ao menos apareciam, em seus filmes. Abertamente homossexual (talvez se assumisse como bissexual na sensibilidade contemporânea), o diretor mantinha relacionamentos não só com homens, mas também com mulheres, com as quais tinha suas relações mais "estáveis" e duradouras. Inclusive, a montadora de Querelle, Juliane Lorenz, era sua esposa à época de sua morte, ainda que não oficialmente.


Assim como Fassbinder, Genet também tinha sua vida privada bastante imbuída em seu trabalho como artista. Filho de uma prostituta, mas criado por pais adotivos, o escritor conta em alguns de seus textos, em especial no romance Journal du Voleur, que já teria trabalhado como michê e cometido alguns pequenos delitos, que inclusive o levaram para a cadeia em diversas vezes. Suas memórias da prisão inspiraram outra importante obra para o New Queer Cinema, o curta Canção de Amor (1949). Dirigido por Genet, o filme versa sobre o desejo entre prisioneiros e o encontro de violência e fetiche na relação com um carcereiro. No romance Querelle de Brest, o autor também se inspira em suas próprias vivências: sua estadia em Brest, no noroeste da França, e no ambiente de crime e prostituição que ele viveu em sua juventude.


Segundo o biógrafo de Genet, Fassbinder só teria sido contratado para dirigir Querelle após o fracasso do produtor Dieter Schidor em conseguir financiamento com outros nomes à frente do projeto. Já que não acredito mesmo haver, naquele momento, nome mais apropriado que Fassbinder para o trabalho, podemos estar diante de um raro caso de "sabedoria estética" daqueles que controlam o capital.


TENSÃO. No filme, o homoerotismo se impõe do começo ao fim (Reprodução).

Nasce então o longa, uma produção alemã com atores anglófonos. Em tese, uma adaptação de um romance francês, que na realidade, como nos informa os letreiros iniciais, acaba sendo um filme sobre o livro. O diretor, que também assina o roteiro, parece querer se livrar das amarras de espaço e tempo da obra para situar-nos em um lugar anacrônico, onde o sol sempre está se pondo e onde as mais sórdidas fantasias sexuais podem se realizar.


Logo na primeira cena, Lysiane, a dona do bordel de Brest, abre as cartas de tarô para Robert, irmão de Querelle, e nos conta a moral do filme: Querelle corre um grande perigo, "o perigo de se encontrar". O navio no qual ele é tripulante havia acabado de aportar na cidade. Vemos então lugar escolhido para a jornada de autoconhecimento do protagonista mais parece uma miragem suja e mal acabada, sonhada por aqueles que há muito tempo no mar, estão desesperados para dar vazão a sua represada libido. As colunas que compõem aquela decadente paisagem têm um nítido formato de pênis, inclusive com os testículos em relevo.


A disposição das personagens, a iluminação, o cenário - tudo ali soa falso e revela facilmente o artifício do estúdio. Por ter começado no teatro, esta foi sempre uma influência no trabalho de Fassbinder, e em Querelle o diretor parece traduzir no cinema o efeito de distanciamento elaborado com profundidade no teatro épico de Brecht, com o qual tinha grande familiaridade. Não só os elementos espaciais do filme geram estranhamento, mas também a presença constante de um narrador, a inserção de intertítulos e o uso da dublagem colaboram para um olhar mais afastado da obra. Olhar menos empático e mais analítico, transparecendo não só o aparato cinematográfico, mas também as próprias intenções do autor.


Nesse apreço pelo falso e pelo "acima do tom", tratando-os não como qualidades negativas, mas como virtudes, Querelle se associa também à sensibilidade Camp. Em Notas sobre o Camp, Susan Sontag associa o "gosto" camp, entre outras coisas, à homossexualidade, gerando ainda mais um ponto de diálogo com o filme, feito há mais de uma década depois do texto, e provavelmente influenciado por ele. Para ela, "os homossexuais atribuem sua integração na sociedade à promoção do senso estético", e neste sentido, o Camp é um "solvente da moralidade", "neutralizando a indignação moral, patrocinando a jocosidade".


Portanto é necessário alertar que o filme pode ferir algumas moralidades. Apesar de não ter conteúdo sexual explícito, alguns diálogos muito lembram aqueles que abrem filmes pornográficos, traço que se potencializa na atuação de Brad Davis, que dá vida a Querelle. Envolvido com o tráfico de ópio, o personagem tenta usar de seu provativo charme para abrir caminhos nos "negócios". Aliás, é seu próprio sex appeal o grande motor da história, motivando as ações dos donos do bordel, do inspetor/policial da cidade, do capitão do navio...


Ainda hoje, o filme mantém seu teor revolucionário. Sua visão despudorada e crua parece alienígena num período de crescimento do conservadorismo e da caretice. À época de seu lançamento, como já se pode supor, Querelle não foi recebido com muito entusiasmo, nem pela crítica, nem pelo público. Nem mesmo Genet, ainda vivo na ocasião, quis assisti-lo, mas por um motivo um tanto inusitado: ser proibido de fumar nas salas de cinema. Sua importância só foi, portanto, celebrada anos depois, sendo redescoberto por aqueles, que como eu, queriam saber um pouco mais de sua história.


*Nathan Maciel é roteirista.


(Os textos de colaboração não expressam necessariamente a opinião da FV)

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