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A tentativa de reviver Woodstock fracassou

\\ ARTE

O festival previa apenas 60 mil pessoas. Erraram feio. O montante chegou a 400 mil enlouquecidos de maconha e ácido.

Por Gabriel Solti Zorzetto

Line-up do Woodstock 50, o festival mais aguardado de 2019, e cancelado semanas antes de sua realização



No último dia 30, o empresário Michael Lang anunciou o cancelamento da aguardada edição comemorativa dos 50 anos do festival de Woodstock, semanas antes de sua realização, que seria nos dias 16, 17 e 18 de agosto em Watkins Glen, NY.

E pensando bem, foi melhor assim, pois tinha tudo para dar errado. No fundo, deve ter sido um alívio até mesmo para Lang, que tinha 24 anos quando co-produziu aquele épico musical da geração paz/amor/sexo/rock’n’roll, e que hoje, aos 74, falhou ao tentar recriar a experiência em 2019:


“Reunimos tudo que precisava ser feito, e as datas em que precisávamos fazer essas coisas, e pensar que adiar mais seria muito forçado e também já estava muito em cima […]. Sofremos muita pressão”, disse à Rolling Stone.


As dicas do fracasso vinham aparecendo por conta de diversos atrasos, mudanças de local, dificuldades técnicas, desconfiança de investidores e, por fim, pela desistência de alguns dos principais artistas contratados. O primeiro a largar o barco foi John Fogerty (gênio do Creedence Clearwater Revival) e “padrinho” do festival. Depois vieram o Dead & Co. (banda de John Mayer com remanescentes do Grateful Dead), John Sebastian (do Lovin’ Spoonful) e Santana , que representariam parte do elenco da edição original. Até mesmo as apostas para atrair a nova geração, encabeçadas por Jay-Z e Miley Cyrus, desistiram do projeto.

Mas como se explica esse fracasso? Simples, não há sentido em fazer um novo Woodstock. Isso porque em 1969, o festival foi um grande ato político, de um país que levava seus jovens para morrer na Guerra do Vietnã e relutava contra as mudanças comportamentais. Assim, a promessa de três dias de paz, amor e música levou 400 mil jovens a acampar em uma fazenda no interior de Nova York, sem qualquer luxo ou segurança, para assistir nomes revolucionários da música.


Acontece que esse premeditado fracasso poderia ter sido evitado, até para preservar todas as partes envolvidas. Afinal, a ideia de comemorar a história de Woodstock já tinha sido materializada mais de uma vez: em 1994 e 1999. Entretanto, ambas as edições assinalaram uma série de problemas.


Em 1994, na comemoração de 25 anos do festival, cada pessoa teve que pagar U$ 135 para ver uma seleção que incluía Nice Inch Nails, Aerosmith, Metallica e Green Day em condições precárias, na tentativa de recriar o lamaçal de 69. Já em 1999, na festa dos 30 anos, a coisa desandou de vez.  Em meio a shows de Limp Bizkit, Insane Clown Posse e Kid Rock, foram registrados vários crimes, principalmente envolvendo violências sexuais contra mulheres. Como se isso não bastasse, focos de incêndios interromperam a apresentação do Red Hot Chili Peppers. Caos total.


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O Festival de Woodstock em 1969

É verdade que em 1969 também era pra dar tudo errado. Tudo aconteceu em uma fazenda de 245 hectares na cidade de Bethel, a cerca de 160 quilômetros de Nova York. A confusão no nome foi porque Woodstock era a cidade escolhida originalmente para abrigar os shows, o que não aconteceu. Só que para não criar confusão, o nome “Festival de Música e Artes de Woodstock” permaneceu.


Os quatro jovens (Michael LangJohn P. RobertsJoel Rosenman e Artie Kornfeld) que organizaram o evento tentaram sem sucesso levar John Lennon, The Rolling Stones, The Doors e Led Zeppelin ao palco da fazenda, mas isso não tirou o brilho do festival. Poucos artistas confiavam na organização. Ainda assim, estrelas como The Who, Creedence Clearwater Revival, Joe Cocker, Janis Joplin, Santana entre outros – aceitaram o convite e fizeram shows históricos.


O festival previa apenas 60 mil pessoas. Erraram feio. O montante chegou a 400 mil enlouquecidos de maconha e ácido. A saída foi improvisar postos de alimentação gratuitos. Cidades vizinhas ainda doaram frutas, enlatados e sanduíches.

Cerca de 100 médicos e enfermeiras fizeram um total de 6 mil atendimentos. Alguns pacientes foram levados para hospitais por helicóptero, mas “só” três morreram: um por overdose de heroína, outro por ruptura de apêndice e o terceiro, atropelado por um trator. Houve ainda dois partos.


Devido à chuva, apenas 30 mil pessoas permaneceram no local às 9 da manhã do quarto e último dia, quando a última guitarra subiu ao placo. Foi a de Jimi Hendrix.

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