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Academia Brasileira de Letras, a que(m) será que se destina?

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Aos 71 anos de idade, tendo optado por uma espécie de anticandidatura e dispensando a bajulação típica dos candidatos à ABL para angariar uma vaga em meio aos imortais que frequentam o “clube de amigos”

Por Rafael Balseiro Zin*, Colaboração para Frente & Versos

(Imagem/reprodução)

O premiado cineasta Carlos José Fontes Diegues, mais conhecido como Cacá Diegues, é o mais novo imortal a ocupar a cadeira de nº 7 da Academia Brasileira de Letras (ABL). Em eleição realizada em 30 de agosto de 2018, o então candidato superou nomes como o da escritora Conceição Evaristo e o do escritor e historiador de arte Pedro Corrêa do Lago. A cadeira de nº 7, cujo Patrono é o poeta baiano Castro Alves (1847-1871), já foi ocupada por Antônio Valentim da Costa Magalhães (1859-1903), um dos fundadores da ABL; pelo escritor Euclides da Cunha (1866-1909); pelo crítico literário Afrânio Peixoto (1876-1947), entre outras personalidades ilustres. A vaga estava em aberto desde abril desse ano, em decorrência da morte do também cineasta Nelson Pereira dos Santos (1928-2018).


Apesar da forte mobilização ocorrida nas redes sociais nos últimos meses, considerada a maior campanha popular da história da ABL e que contou com participação massiva do público-leitor em torno da candidatura de Conceição Evaristo, já era sabido que Cacá Diegues dividia o favoritismo com Pedro Corrêa do Lago. Vale lembrar que o diretor de Xica da Silva (1976) e de Bye Bye Brasil (1980) era amigo íntimo de Nelson Pereira dos Santos e que foi convencido por um grupo de imortais a participar do pleito, logo após o escritor Alberto Mussa ter declinado de sua candidatura. Não deu outra.


Evidentemente, a obra de Cacá Diegues possui muitos méritos e isso não está em discussão. No entanto, mais uma vez, desde a sua fundação, ocorrida em 20 de julho de 1897, a ABL segue à risca o seu posicionamento contrário a presença de mulheres, de negros e de indígenas em seus quadros internos. Para quem não se recorda, a primeira escritora a ocupar uma cadeira por lá foi a Rachel de Queiroz, em 1977, ou seja, 80 anos depois de sua criação. Desde então, mais sete mulheres, apenas, ingressaram na instituição, sendo que nenhuma delas é negra ou indígena. São oito, ao todo, em pouco mais de 120 anos de história.


Em 1980, foi a vez de Dinah Silveira de Queiroz, que já tinha sido candidata anteriormente. Depois dela, a terceira mulher a se tornar membra da Academia foi a escritora Lygia Fagundes Telles, em 1985. Na sequência, Nélida Piñon, em 1989; Zélia Gattai, em 2001; Ana Maria Machado, em 2003; Cleonice Berardinelli, em 2009; e, finalmente, Rosiska Darcy, em 2013. Caso fosse eleita, Conceição Evaristo teria sido a nona mulher a ocupar uma cadeira na instituição, sendo a primeira negra entre as demais.


Enquanto a ABL se apequena ao decidir que “não se renderá às pressões externas”, ou seja, ao desejo do público que se manifestou enfaticamente com relação ao ingresso da escritora mineira nos quadros da instituição, Conceição Evaristo se agiganta, atraindo a cada dia novos e entusiasmados leitores, repercutindo suas ideias pelos quatro cantos do Brasil e do mundo. Aos 71 anos de idade, tendo optado por uma espécie de anticandidatura e dispensando a bajulação típica dos candidatos à ABL para angariar uma vaga em meio aos imortais que frequentam o “clube de amigos”, Conceição Evaristo sai mais que vitoriosa desse processo, justamente por ter exposto, mais uma vez, a centenária falta de representatividade negra e feminina na também centenária Academia Brasileira de Letras.


Por fim, brincando com a letra de Cajuína (1968), do músico e compositor Caetano Veloso, eu diria que:

ABL, a que(m) será que se destina?

Pois quando tu me deste esta notícia pequenina

Vi que são homens feios e que se acaso a sina

Uns “menino infeliz” que não se nos iluminam

Viva Conceição Evaristo!


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* Rafael Balseiro Zin é sociólogo e pesquisador do Núcleo de Estudos em Arte, Mídia e Política da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (Neamp/PUC-SP). Contato: rafaelbzin@hotmail.com.

(Os textos de colaboração não expressam necessariamente a opinião da F&V)

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