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Ambientado no pico da AIDS, experiências de homem gay são tema de livro de memórias

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Por John Williams*, The New York Times


Imagem/reprodução - Paul Lisicky na juventude


O livro de memórias do romancista Paul Lisicky diz que "versões" de suas experiências em Provincetown, Massachussets - a comunidade de Cape Cod conhecida como uma colônia de arte e um lar próspero para os L.G.B.T.Q. -- são reflexos de seu trabalho anterior. Em seu novo livro, “Mais tarde: minha vida à beira do mundo”, relata íntima e extensivamente o tempo que passou lá no início dos anos 1990, conhecendo a si próprio, sexualmente e emocionalmente, em uma comunidade que luta contra a epidemia da Aids. Em uma página, Lisicky lembra-se de ter perguntado: “Como poderei abandonar esse refúgio, tão longe da repressão e punições da vida adulta? Estou preso em doçura agora?". E logo depois, ele descreve os homens que vieram para Provincetown para viver seus últimos dias. "Uma comunidade de aposentados", ele chama a cidade.

Abaixo, Lisicky fala sobre os falsos começos do projeto, aprendendo a não reprimir a raiva, seu amor de longa data pela música de Joni Mitchell e muito mais.


Quando você teve a idéia de escrever este livro?

Comecei uma versão em 1997. Naquele momento, me senti compelido a escrever sobre a comunidade de Provincetown e não sabia muito bem como fazê-lo. A primeira versão do livro era um romance, e eu escrevi talvez 75 páginas. Não foi tão multifacetado emocionalmente quanto precisava ser. Parecia um pouco arrumado e organizado, e as duas pessoas que o viram, educadamente, disseram "Não". E fiquei um pouco arrasado, mas deixei de lado.

Em 2015, meu pai ficou doente de pneumonia, e a sequência de sua doença me pareceu realmente familiar desde tempos antigos, apesar de ele ter 91 anos e não ser HIV positivo. Muita energia foi gasta pela minha confusão em torno da morte do meu pai.

Qual foi a coisa mais surpreendente que você aprendeu enquanto escrevia?

Eu tentei me surpreender com cada frase. Eu não queria que fosse simplesmente uma escavação de tudo o que eu já sabia. Eu estava tentando me inclinar para o inesperado, parágrafo por parágrafo. Eu sabia que, se não encontrasse essa energia, eu perderia o interesse e o leitor também.

Ocorreu-me que grande parte do meu trabalho anterior foi investido no manejo do sentimento, e se a versão sobre a qual eu estava escrevendo era confusa ou cheia de raiva, encontraria uma maneira de transformar essa emoção em algo mais palatável. Este livro, em um certo nível, tratava da tensão entre uma emoção performativa e um sentimento bruto. Acabei me dando permissão para colocar mais caos na página do que nunca. Muitas pessoas queer são instruídas a se animar, engolir seus sentimentos, se comportar. E penso muito sobre o custo disso. Suprimindo a mágoa e a raiva - essas são ferramentas sociais importantes, e, no entanto, se nos tornarmos campeões nessas ferramentas sociais, tudo isso pode voltar e nos machucar e ter um custo em como amamos, como nos conectamos com nossos amigos e parceiros.

De que maneira o livro que você escreveu é diferente do livro que você se propõe a escrever?

A certa altura, a energia acabou e o que quer que eu estivesse fazendo não parecia autêntico à altura. Acabei deixando de lado por alguns meses. Voltei a ele, o desmontei um pouco e escrevi algo mais imediato. Coloquei-o no presente e apresentei algumas seções fragmentárias que podem funcionar na página como poemas em prosa. Parecia que o livro que acabei escrevendo poderia ser um recipiente para irreverência, pavor, alegria e raiva.

Eu não posso escrever nenhum livro de memórias sem imaginar o "eu" como algo construído. Minha educação era como escritor de ficção, e comecei a escrever ficção porque queria me escapar, queria ser outra pessoa. Comecei a escrever não-ficção quando ficou claro para mim que essa voz também é uma coisa feita e, de alguma forma, tem alguma correlação com o narrador na ficção. O "eu" de um livro deve ser um "eu" diferente do que em outro livro.

Quem é uma pessoa criativa (não um escritor) que influenciou você e seu trabalho?

Ouvi a música de Joni Mitchell pela primeira vez quando eu tinha 10 anos e pensei: quem é? O que é isso? Não era necessariamente o som da voz dela - que parecia distinto -, mas eu sabia que havia algo único sobre como as músicas dela se moviam. Meu senso, mesmo que eu não tivesse as ferramentas musicais para articulá-lo, era que ela estava inventando música em seus próprios termos. Continuo amando o trabalho dela. É a meticulosidade disso, a lealdade à idiossincrasia, o respeito pela complexidade emocional, a recusa em repetir as próprias regras ou hábitos. Ela quer ser amadora em cada álbum e tentar fazer algo novo. Ela provavelmente mudou minha vida como nenhum outro artista, e eu penso nela o tempo todo. Há acenos para ela em todos os meus livros - não apenas nos títulos das seções, mas em trechos de imagens coladas por toda a parte que apenas os fãs podiam captar.

Convença alguém a ler seu livro em 50 palavras ou menos.

[A história] Trata-se de sobreviver no nível do dia-a-dia durante um período de emergência, e como uma comunidade age quando a continuidade de seu funcionamento não era garantido. É um livro de risadas, emoções, fala do cuidado com o outro, às vezes falhando nisso, mas estando acordado e aberto para a próxima experiência.


*TRADUÇÃO DE AFFONSO DUPRAT

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