• Bruno Pernambuco

Conversas com o espaço vazio

\\ TEATRO


Peça explora imaginário transfronteiriço; fica em cartaz até o fim de semana, em São Paulo


Por Bruno Pernambuco

Imagem/divulgação


Novo espetáculo da Cia. Elevador de Teatro Panorâmico, Fronteira é construído a partir de múltiplas fronteiras. Algumas são bem conhecidas e diariamente nos são lembradas através do noticiário, das redes sociais ou das conversas, como a do gênero, ou aquela que separa terminantemente os que buscam passagem de um canto de terra para outro daqueles que têm o poder de determinar a entrada e saída dessas zonas delimitadas.


Outras estão postas na base das escolhas dramatúrgicas e cênicas do espetáculo- como a fronteira que delimita a memória e a mentira, ou a que separa aquilo que a linguagem não consegue alcançar daquilo para qual sua descrição limitada cabe perfeitamente- e são, ao longo da obra, constantemente atravessadas, invertidas, transfiguradas.

É nesse contexto que somos introduzidos às duas personagens cujo encontro constitui a totalidade da ação da peça. A princípio, não existe diálogo entre a jovem migrante (Tatiana Botth) a quem faltam os documentos necessários para atravessar a fronteira para o país de sua mãe e a oficial do posto de guarda (Thaís Rossi), rígida, para quem toda a realidade pode ser contida dentro das normas procedimentais.


A transformação na relação entre as duas começa a acontecer a partir de uma memória compartilhada, nesse momento formada para o público tanto quanto é para elas, que forma novos lugares, objetos táteis, sensações e gostos capazes de preencher o não-lugar sobre o qual, essencialmente, toda a peça acontece. Essa construção afeta as personagens de maneira profunda, transformando suas posições, seus comportamentos, e sua própria relação com aquele espaço vazio de significado que compartilham.


Fronteira captura muito bem, em suas mudanças e reversões de tudo aquilo que estava posto, a natureza dessa memória que atravessa as personagens, que em nenhum momento dá uma resposta definitiva quanto a sua veracidade ou quanto a sua origem. Essa construção, que em certo momento da peça é declarada inteiramente como falsa, cria um real que não encontra correspondência na realidade (e do qual não se pode saber até que ponto é fundado em elementos dela) mas que é, em vários momentos, uma presença mais forte do que a própria efetividade daquele não-lugar que permeia de forma absoluta a vida corrente das personagens- e que no final da peça se torna literal, no encontro com uma paisagem desolada que cerca as duas e que desfaz, no presente, essa lembrança.


Assim, o encontro com a obra leva às profundezas de uma experiência contemporânea, à exploração daquilo a que é possível se prender quando o deslocamento se torna modo de vida. Fica aqui o convite para que você, leitor, se deixe passear por essa experiência, e participe também, em seu contato com Fronteira, dessa exploração.

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