• Bruno Pernambuco

Hamlet pós-moderno

\\ TEATRO


Em cartaz, Hamlet ex-machina traz diferentes visões sobre clássico de Shakespeare


Por Bruno Pernambuco

Imagem: https://vejasp.abril.com.br/atracao/hamlet-ex-maquina/


Problemas, numerosos problemas insolúveis e monumentais, invadem a vida e a consciência de um pobre jovem príncipe da Dinamarca. Problemas — numerosos, gigantescos, estruturais, difíceis de lidar —  envolvem a vida de um país, e de uma gente que vive nele, e dentro dessa gente, de uma outra gente cuja existência está a todo momento equilibrada sobre ponta de faca. Da reação desses dois elementos surge Hamlet Ex-Máquina, resultado que assume, em sua própria linguagem dramatúrgica, ser mais explosão que produto, mais coleção de cacos que objeto constituído.

Em adaptação a Hamlet Máquina, texto do dramaturgo alemão Heiner Müller, o espetáculo idealizado por Érika Bodstein aprofunda-se na transcriação do clássico promovida pelo autor ao colorir a cacofonia que atravessa o monólogo de Hamlet com o desejo de uma mudança política imediata e efetiva — ao apostar nisto, fazendo referências ao contexto brasileiro atual, e atualizando aquelas reflexões do protagonista que busca dizer algo de um impacto que foge à sua condição de personagem. Porém essas intervenções, no geral, ficam alheias à lógica e a coerência interna do espetáculo, e assim o “soco” não atinge o espectador com a força necessária.

Muito mais interessante é a abordagem tomada em momentos específicos, como no depoimento de uma das atrizes do espetáculo que confere uma outra materialidade à denúncia de violência contra a mulher feita em um desses momentos, e que encontra eco nos monólogos de Ofélia presentes na peça.

Na obra original, Heiner Müller leva ao extremo a velha lição de Hegel, que louva Hamlet como “momento em que o drama não está pautado pela ação, mas pelo caráter”, e assim igualmente a desfaz. Quando esse caráter já não encontra os limites com que se chocar, a indecisão do príncipe, revolucionária no momento da obra original, deixa de ser o fio condutor dos acontecimentos do espetáculo, e o contato do espectador com a obra passa a ser novamente pautado por momentos determinados de ação.                                                                    

Quando o papel do outro (aquele através de cujos olhos Hamlet julga suas próprias ações e pensamentos) é deslocado das figuras que compartilham seu universo para a plateia- presumidamente uma plateia que já conhece Hamlet, e que lida com a influência da obra na história do teatro- que tem em relação ao personagem a posição de um observador onisciente e onipotente, essa vacilação perde seu verdadeiro conteúdo, já que, instintivamente, está entendido que não há nada que Hamlet possa fazer para escapar a esse olhar, ou mesmo para alterá-lo — sua dúvida, assim, transforma-se completamente em declaração para um espectador. Essa mesma perspectiva está colocada em Hamlet Ex-Máquina, e junto com ela o pressuposto de que o personagem olha, de fora da máquina, para uma realidade cruel e injusta que é compartilhada com quem assiste a ele nesse momento, e que suas reflexões não podem estar desvinculadas de um chamado para ação, e de uma intervenção direta. “Como elaborar artisticamente essa intervenção?”, contudo, é uma pergunta para a qual Hamlet Ex-Máquina apresenta respostas díspares.

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SERVIÇO – Hamlet

Data: até 23 de outubro

Horário: terças e quartas às 20h

Preço: R$ 20

Local: Centro Cultural São Paulo – Rua Vergueiro, 1000 – Paraíso, São Paulo

Duração: 60 min

Classificação: 14 anos

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