• Giovana Proença

Andorinha

\\ CONTOS

O piar da andorinha confundido com todos os pássaros do mundo.

Por Giovana Proença

The blue Bird (1968), de Marc Chagall.

Perceberam que o gato estava morto assim que o viram estirado no meio da sala. Para piorar a situação, o menino não parava de chorar. Os soluços que só se anunciam sem pudores na infância - porque adulto tem mania de engolir as lágrimas - ressoavam em eco. A sorte de criança é que o esquecimento vem tão forte quanto a sinceridade. No outro dia o desconsolo foi substituído pelas perguntas curiosas. “Que aconteceu? Para onde foi o gato? Vamos guardar o arranhador?”. A mãe já ocupava a cabeça com assuntos mais relevantes, como redecorar a sala para que a disposição dos móveis impedisse o eco? O menino passou de ano e cresceu uns bons vinte centímetros, mas a crônica da morte não anunciada do bichano ainda pairava sobre ele como mistério. Em tentativa de acalmar as perturbações que pensava acometer a tenra mente do filho, o pai trouxe-lhe um presente. Melhor prevenir, não acreditava em terapia e sabia bem os preços dos psicólogos.


Chegou tímida, olhando inquieta e rodopiando pelo espaço limitado. O menino achou semelhança com as acrobacias do circo que assistira nas férias. Chegou mais perto. “Que faria com aquilo?” A primeira impressão não foi das melhores. Estava prestes a voltar sua atenção para tarefas mais lúdicas, o campeonato de bolinhas de gude estava chegando. Mas em rompante, a frágil companheira encolheu as asas de cetim preto. Estufou o peito branco e soltou a voz. A melodia ressoante tocou os sentidos inocentes do menino. Da onde vinha aquela voz incompreensível a mudez humana, perguntaria muitas vezes mesmo depois de tempos em que já fazia a barba todas as manhãs. Teve lições de flauta, mas nunca pôde produzir nenhum som que causasse tanto deleite, como o da máquina de algodão-doce que se prova na praça.


Em vão, a mãe mudou a disposição de todos os móveis da sala em cada combinação possível de posições. O sofá na parede, a estante perto da porta, a mesa no centro. Até na porta a mesa de madeira de demolição foi parar, deixando todo mundo com roxos espalhados pelas canelas. Inutilmente, pois o canto vindo da gaiola valsava pelos ares da casa, o eco criando um recital de pássaros. O menino amava as penas que flutuavam esparsas. Amava até as bicadas que vinham quando colocava o dedo pelas grades. O assobio acompanhava a percussão principal, orquestra que tomava contornos quando fechava os olhos e se deixava acalentar.


A andorinha amansou as noites de choro da mãe no sofá após a saída do pai, a mala em mãos para não se sabia onde. Cantarolou quando Junior, não mais menino, chegou em êxtase as duas da manhã após furtivo encontro, cheirando seu próprio casaco em busca de rastros de outro perfume. A toada da gaiola se misturou aos sons que vinham do quarto na primeira vez em que Alice passou a noite as escondidas, os dois dividindo a cama. Foi a trilha sonora, não do amor. Amor era o canto, aquilo era outra coisa. Um sentir sem nomear que se descobria imenso, livre de gaiolas. Pôde jurar que a andorinha assobiou elegia quando a moça saiu pela porta. Passos decididos que traduzem o não retorno. Assobiou alto para que seu dono não ouvisse as batidas do abandono.


Junior era agora Fernando. Homem que procura seu lugar na vida não se esconde atrás do nome de outro. Homem, se proclamou após a primeira desilusão. Não ostentava a filiação no nome com o orgulho de outrora. Era só Fernando. Planos traçados que relutavam em sair do papel. A maioridade recém atingida atropelava as distrações. A gaiola escorrendo em tempo acelerado enquanto preso, sente-se estátua. Esculpido em pedra em suspensa admiração pelas coisas em volta. “Então assim é o mundo.”, pensa nas estranhas apresentações sem cerimônia. O assombro prolongado do maravilhamento de perceber-se livre. Vestia as amarras e culpava a mãe, o pai, Alice, Deus, o Diabo e o mundo pelo aprisionamento. A andorinha tocando gaita, bem baixinho, para ele ouvir o turbilhão que trafegava.


No dia que Fernando conheceu Clara só conseguia ler nos olhos dela sua dor futura. Molhou os pés nas poças da relação com toda cautela. Mas a presença dos cabelos loiros foi se prolongando. Os pretextos para não mergulhar fundo no romance não eram fruto de receios. Simplesmente não havia trilha sonora. Cumpria as formalidades do caso que aplacava a solidão: cinema, jantar, passeios e cama. Pouco conhecia essa língua estrangeira, mas era esperto suficiente para saber que amor era outra coisa. O piar da andorinha confundido com todos os pássaros do mundo.


A notícia da morte do pai chegou pelo telefone. A madrasta, personagem que fingiam não existir, percebeu que ele estava morto assim que o viu estirado na sala. Infarto fulminante. Fernando, de camisa social e gravata, cumpriu as obrigações fúnebres. O velório e o enterro passaram como se estivesse diante de um filme preto e branco, desses que não entendia bem mas continuava assistindo. Ainda por cima mudo, uma surdez entorpecida o tomou. Observou enquanto atiravam as pás de terra, sem saber definir o sentimento. Sentindo-se livre de emoções, afinal; nomear implica no decreto, vagou entre as lápides até vestir a máscara da aceitação. Em passos tímidos, ia para o único lugar para o qual se via caminhando, a casa da mãe. Mas Clara ligou, insistia em vê-lo. Jurava tanto poder alegrá-lo, que o convenceu do encontro. Ele mal tivera tempo de se jogar no sofá, o cansaço chegando de mansinho, para ela anunciar as novas. Teriam um filho.


Fernando não acreditava em compensação, equilíbrio, e em nenhuma dessas teorias transcendentais. A barba crescida no rosto indicava os dias corridos. Digeria a ida do pai e a chegada do filho como assuntos separados. O peso somado dos colapsos, o luto como a cinza das horas. A necessidade súbita de ar o levou a cruzar a porta. Absorto ao olhar a janela, a atenção foi desviada por um chamado delicado. A andorinha, esquecida em repouso na gaiola suspensa, piava em convite de aproximação. Colocou o dedo em afago, recebendo uma bicada leve em troca. A escritora de sua prosa e compositora de sua poesia, deliciou-se com a ternura. Um ruído interrompeu a experimentação do amor. A mãe observava a cena, sorriso mal revelado. Só estava lembrando de quando o pai a trouxera, justificou encabulado. Inundado pelas lembranças, suprimiu as lágrimas, adulto tinha mania de engolir o choro.



Naquele momento, a mãe quebrou esse pacto velado. O soluço foi prenúncio da primeira lágrima, exploradora que abriu caminho para as outras tantas que inundaram o rosto. Uma reação póstuma ao abandono, agora definitivo, do marido? Talvez um tanto. Mas o anseio de resposta do filho, logo recebeu resposta. “Sua andorinha morreu, filho. Estava na hora, viveu tanto a coitadinha! Eu tive medo da sua reação, você estava tão tristinho na época. Não tive coragem de contar, seu pai saberia lidar tão melhor! Rodei as casas de ração dessa cidade atrás de uma passarinho igual o seu. Eu só não queria que você sofresse. Falando assim até parece loucura”. Estremecido pela revelação, Fernando abraçou a mãe, beijou-lhe o topo da cabeça. “Descansa”, pediu em acalento.


Estudou a andorinha por horas quando o marinho substituiu o celeste no céu. Os movimentos da plumagem, o contraste da penugem escura com o branco, o canto que um dia tirou-o dos mares da melancolia, tudo era gravado pelo exame atentivo. Música tema dos primeiros anos, da juventude explodida. Mas foram os olhos vítreos que imploraram. Olhar de súplica mais humano que o dele próprio. Tristeza velada que transparece os anos de cárcere. Ele já a perdera. Invadido novamente pelo sentimento que não sabia nomear, livrou-a das grades da proteção. A gaiola restou aberta, enquanto observava a andorinha rodopiar acrobacia, novo aprendizado de conquista do mundo. As asas abertas em triunfo, no silêncio da noite sentiu-se mais do que nunca menino, Júnior e Fernando.

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