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[ENTREVISTA] Aos 50 anos de carreira, escritora Ruth Rocha relembra trajetória

\\ ESPECIAIS


Ruth Rocha abriu as portas de seu apartamento ao Frente & Versos, em São Paulo.


Por Laura Ré e Giovana Proença


São Paulo – “Todo escritor é uma mudança”, desta frase com força de expressão vem o legado da escritora Ruth Rocha, paulistana, hoje com 88 anos, que completa 50 anos de atividade em 2019, como um dos grandes ícones da literatura infantil. Autora de títulos que marcaram a infância e a pré-adolescência de pequenos leitores, como O Reizinho Mandão (1973) e Marcelo, Marmelo, Martelo (1976), seu best-seller até hoje, Ruth foi uma das homenageadas, conjuntamente com Ana Maria Machado na 19ª Bienal do Rio de Janeiro; recém-chegada da capital fluminense, a escritora concedeu entrevista intimista aos repórteres da Frente & Versos. Dia de sol, quarta-feira, 15h, em um apartamento adornado por estantes com inúmeros livros e ilustrações (feitas por seu marido), no bairro dos Jardins, Ruth Rocha abriu seu universo particular à reportagem, com o mesmo sorriso das fotos que acompanham esta matéria.

A escritora vive em um território repleto de jogos com a linguagem, sua matéria-prima para a construção de histórias sensíveis, açucaradas pelo olhar adulto-infantil da autora e completadas com admiração por olhinhos de jabuticaba: objetos adquirem novos significados, palavras difíceis são remodelas, sentimentos fortes são explicados com gestos simples e desenhos coloridos. Empolgada para mostrar ao neto (que acompanhava a entrevista) o resultado de seu mapeamento de ancestralidade, “I’m British” brincava Ruth, que na procura da origem de seus ancestrais, faz uma reverência ao passado, dando ali às repórteres uma invenção lúdica da re(criação) do universo infantil em suas histórias. Durante a entrevista, a escritora relembra sua trajetória contando sobre os personagens reais e imaginários que marcaram não só sua formação literária, mas humana.

“Eu sou uma pessoa engraçada” define Ruth, de modo que se seu universo é lúdico, suas opiniões são lúcidas. Ao questionada sobre a polêmica ocorrida na Bienal, Ruth defende que não vê porque esconder a homossexualidade das crianças, uma vez que esse universo pode, algum dia, tornar-se seu. Brinca que o único impasse de saber se alguém é homossexual ou não, é caso queira se casar com a pessoa.

Sua maior defesa, como criadora de tantos heróis para os pequenos, é uso da linguagem e a educação. Para Ruth, o cosmo da criança já nasce assim que ela vê a luz pela primeira vez e, por isso, já precisa de conversa. A língua será o seu melhor mecanismo de expansão e aprendizado. A vida tem os doces sabores e cores do universo infantil com a educação, e Ruth não admite que o mundo, concreto ou inventado, seja privado de um instrumento essencial à formação. Ruth pede com todo ar de seus pulmões: educação, educação, educação!

Ilustração “Mundo da Infância”, em comemoração aos 50 anos de carreira de Ruth Rocha, por Olga Carolina Rodrigues/Frente & Versos

Frente & Versos: O que e quem te influenciou a escrever literatura infantil?


Ruth Rocha: Eu acho que sou escritora porque eu tive muita influência na minha infância de literatura infantil, de histórias infantis, de histórias folclóricas. Meu avô sabia todas as histórias do mundo! Ele me contava Grimm, Perrault, Andersen, histórias folclóricas… Histórias de macaco, de tartaruga, de coelho, de onça. E contava muito bem, ele sabia contar e editar a história. Por outro lado, minha mãe lia para nós desde pequenos. Ela comprava livros e lia, ela descobriu Monteiro Lobato e leu para nós. Muito, até que nós aprendemos a ler e líamos sozinhos. Lobato foi uma grande influência para mim, eu acho que alguns traços da minha literatura vêm de Lobato, o humor por exemplo foi algo que aprendi com Lobato. Eu sou engraçada, sabe?! (risos). Aprendi muito com Lobato a fazer humor na literatura, a valorizar a criança, a tratar criança como gente esperta, que faz coisas engraçadas. Tive influência também do meu pai, que contava duas histórias para nós de vez em quando, ele só sabia essas duas, mas a gente adorava! E eu tive uma vó que me ensinava a cantar e “marchinhas imperiais”.


F&V: Você canta, Ruth?


Rocha: Antigamente eu cantava muito, tinha voz. Eu fui aluna do Sérgio Buarque de Hollanda e uma vez ele nos levou para Minas e cantava com a gente, ele era engraçado, tocava piano, jogava escravos de Jó, ele fazia de tudo, era muito divertido… e ele ficava chocado com como eu sabia músicas de Carnaval, ele falava “Essas músicas são do tempo que você nem tinha nascido!” (risos). Então tudo isso influenciou, mas além disso, eu li muito, e eu acho que não há escritor se não for também leitor, é na leitura que a gente forma o estilo. Hoje eu não costumo ler muito mais porque estou com a vista ruim, leio menos, mas não dispenso.


F&V: O que mudou no cenário literário nesses 50 anos?


Rocha: Muda muita coisa porque muda a pessoa. Escritor é uma pessoa que escreve algo que ninguém escreveu, então tem que mudar. Todo escritor é uma mudança. Eu acho que houve uma mudança para a informalidade, a literatura era muito formal, palavras difíceis, ideias rebuscadas. Hoje se fala muito de coisas populares, no Brasil principalmente, livro sobre racismo, feminismo, homossexualidade, coisas que são novas, assuntos que não eram ventilados e hoje são. Mas eu não acho[que tenha mudado muito]… quando você fala cenário literário penso que é o mesmo, pessoas que se dedicam a escrever.

F&V: Como é seu processo de criação?


Rocha: O escritor é um condenado, sabe? Porque o escritor é um cara que sabe que não vai ficar rico, a posição que ele ocupa na sociedade é relativa, mas ele quer fazer isso, ele não quer fazer outra coisa, quer escrever. Essa é a personalidade do escritor. Ele tem coisas que precisa e quer contar. Então eu acho que não muda muito não, muda superficialmente… Muda a roupa… E quando perguntam de onde o escritor tira as ideias, eu sei lá! [risos]. Eu imagino que a gente tira as ideias dos livros que lê, das conversas que a gente tem, das coisas artísticas que vê, exposições de arte, de pintura, você sai diferente de como entrou. Peças de teatro, cinema. Mas eu não sei dizer exatamente como. Para escrever eu preciso de uma história, depois eu invento personagens, situações, mas eu tenho que ter a história para contar, começo, meio e fim. Às vezes mudo o meio, o fim, mas parto para escrever quando tenho uma história. Ultimamente eu não tenho tido inspiração para escrever história. Eu tenho trabalhado no almanaque do Marcelo. Eu tenho facilidade para escrever, mas não tenho muita ideia para história não, acho que já gastei. Os problemas hoje são difíceis, né? Eu tô querendo escrever uma história do “Rei que só falava besteira”, mas ainda não tenho a história, tô pensando… Já tenho o início, “Desde pequeno, ele só falava besteira…”.


F&V: Sobre os temas que você falou que estão sendo discutidos hoje em dia, para a criança, qual a importância da representatividade e da diversidade?


Rocha: Eu acho importantíssimo. Eu fiz livros sobre temas que não eram comuns. Por exemplo, eu fiz um livro, Faca sem ponta, galinha sem pé (1996), em que o menino vira menina e a menina vira menino. Isso é uma coisa ousada até hoje. Eu acho que a rigor não tem o que não sirva para criança, mas é preciso que o escritor tenha dentro dele uma história que sirva para esse assunto.

F&V: Como você se transporta para o universo da criança?


Rocha: Olha… Eu, eu acho o seguinte: eu tive muito contato com criança. Eu era já mocinha, quando eu tive três irmãos pequenos, e vivi com eles muito, passei muito com eles Eu e minha irmã, que era mais velha, nós gostávamos de criança. Então nós saíamos para passear com elas, nós levávamos elas para férias, nós tivemos muito contato com elas. Quando eu conheci meu marido, eu tinha 20 anos, e meu marido adorava criança. Então… [risos] gostava dos meus filhos, dos meus irmãos, a gente saía muito por aí.

Depois eu tive sobrinhos, eu gostava muito dos meus sobrinhos. Depois, eu tive netos [risos].

Eu acho que eu me interesso por criança, eu tenho solidariedade com criança; eu acho que criança sofre muito, eu acho que criança se sente impotente, porque isso eu me sentia. Eu me sentia impotente diante do mundo...

Queria ser mais independente, eu queria fazer coisas, e eu acho que eu tenho essa solidariedade com criança… Então eu fiz um curso de psicologia muito bom. Eu converso com a criança e eu sei o que e como ela pensa. Eu sinto para que idade é aquilo. Eu falo “ah, a criança de seis anos ainda não entende isso. Isso daqui é para uma que tem uns oito. Oito entende.” Eu sinto isso, não sei.


F&V: Há relação com a criança que você foi?


Rocha: Eu fui uma criança que brincava na rua. Eu morava em uma rua que era muito democrática: tinha gente rica, tinha gente pobre, tinha gente de todo jeito. E a gente brincava na rua com todos. Nós éramos todos amigos. Então, eu tive muito convívio com criança. Eu vivi muito a infância. A minha mãe era muito acolhedora, as crianças iam lá em casa, tomavam lanche. E eu lembro que tinham umas meninas que eram muito pobrezinhas na minha rua, a gente ia ao cinema aos domingos e elas chegavam lá em casa e perguntavam para mamãe: “ah, cadê as meninas?” “elas foram ao cinema”, e elas ficavam tristes porque elas não tinham dinheiro. Minha mãe dava dinheiro para elas irem ao cinema [risos]. E elas iam também [risos]. Nossa vida foi muito boa porque minha mãe e meu pai eram muito bons. Eu gosto de gente. Então, eu acho que eu gosto de criança, e é por isso que eu entendo criança. É porque eu gosto muito.

Fotos Laura Ré/ Frente & Versos


Eu fiz um livro, Faca sem ponta, galinha sem pé (1996), em que o menino vira menina e a menina vira menino. Isso é uma coisa ousada até hoje”

F&V: Qual a importância de ler histórias para as crianças?


Rocha: Eu acho que quando a criança nasce, a gente tem que começar a conversar. Tem que falar com a criança, para a criança aprender a língua. Então precisa falar, precisa cantar, precisa deixar a criança falar, precisa escutar a criança. Precisa falar muito, conversar, ensinar versinhos, fazer tudo. Conversar com a criança porque ela projeta demais a língua. E a língua, a pessoa precisa dominar a língua. Aí, quando a criança chega na idade de alfabetização, tem que alfabetizar bem. Tem que ter escola boa, que tenha poucos alunos, alfabetizando todos e todas.

F&V: As escolas cumprem seu dever de educar?

Rocha: Tem muita escola que pega o método, que é fantástico para 80% das crianças, mas tem 20% que aquele método não é bom. A professora precisa conhecer vários métodos, porque precisa alfabetizar todos. As escolas deixam de lado a criança que não aprende, e essa é a mais necessitada de estudo. Você precisa prestar atenção em quem não aprende. Bom, orientação educacional é isso, né? A gente cuida de quem não acerta.

Então é muito importante alfabetizar bem, porque se não alfabetizar bem, não lê bem. Precisa cuidar bem da saúde da criança, porque a criança que não ouve bem, que não enxerga bem, não podem ler. E aí, a importância de ler, é que ler alarga o horizonte. Ler faz a gente mudar. Ler faz a gente aumentar o vocabulário. Ler faz a gente melhorar a estética, melhorar a ética. Ler faz… [risos] Eu tenho um texto que eu falo ler faz isso, ler faz aquilo e quando depois leu bastante, podermos alçar voo. Porque ler é a base de uma… De uma vida melhor. Então é importante para a criança ler desde pequena, mas ela precisa saber ler. Precisa muito bem.

F&V: Ruth, você esteve recentemente na bienal como homenageada, evento no qual obras literárias foram censuradas, o que você achou de tudo isso?


Rocha: Ah, eu acho uma insanidade.

Eu acho que a sociedade tá cheia de problemas, tá cheia de defeitos. Mas tem coisas que vão evoluindo. Eu acho que isso é um problema que a sociedade tem com os homossexuais, transexuais, antes muito era escondido. Eu acho que é importante mostrar essas pessoas. Mostrar até para crianças. Criança precisa ver, porque se ela for, ela não fica trancada, envergonhada e culpada. Então, é preciso que o tema diversidade tenha visibilidade. Outro dia eu estava conversando com o meu dentista, e eu falei isso.


F&V: E como ele reagiu?


Rocha: Ele ficou meio assim… [risos]. Essas… festas… Como é que chamam? Paradas! É muito escandaloso, mas eu falei: é para ser mesmo! É para ver que tem mulher que gosta de mulher! Tem homem que gosta de homem! Precisa dar força! Precisa… não pode trancar, esconder e muito menos odiar, agredir… A gente precisa trabalhar para expandir a consciência, as pessoas precisam tomar consciência de tudo. Precisa ver a verdade, que não faz mal para ninguém, né.

Tem aquele Ayres Brito, que eu adoro, que foi presidente do Supremo Tribunal Federal, que ele falou: mas por que as pessoas não querem que sejam homossexuais? Que mal faz isso para eles? Né. Que mal que faz? Uma coisa que… Né? Só interessa se é homossexual ou não se você quiser casar com ele ou com ela [risos]. Agora, vou dizer uma coisa para vocês, ‘cês viram que o nosso governador… o Doria, colocou aquelas… Como é que chamava? As… [pausa] As cartilhas [ver editorial*]. É tirou, né. Mas aquela frase que ele quis censurar, eu também não acredito naquilo. Que as pessoas não nascem homem ou mulher, eu acho que nasci sim! Homem nasce homem e mulher nasce mulher. Fisicamente todo mundo tem um sexo, mas às vezes não corresponde aos sentimentos daquela pessoa; eu acho que é a discussão vai além…


F&V: Qual a mensagem que você quer deixar para o Brasil de hoje?


Rocha: Bom, eu acho que o Brasil tem vários problemas importantes. Muito importantes. Mas eu acho que os problemas mais importantes do Brasil são a educação, a educação e a educação. Então, eu não posso admitir que se diminua a educação, que se faça besteiras na educação. Esse… escola sem… Escola sem partido, essas besteiras, eu acho muito ruins. Repito: educação, educação, educação!


Cronologia da escritora

* 1931: Ruth Rocha nasce no dia 2 de março em São Paulo.

* 1967: Começa a escrever sobre educação para a Revista Claudia.

* 1976: Publica seu primeiro livro Palavras, Muitas Palavras e seu best-seller, Marcelo, Marmelo, Martelo.

* 1988: Escreveu com Otávio Roth a Declaração Universal dos Direitos Humanos para Crianças, lançado na ONU, em Nova York.

* 2002: Escrever e Criar vence o Prêmio Jabuti.

* 2008: Entra para a Academia Paulista de Letras.

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