• Giovana Proença

Armando

\\ CONTOS

Faço novas experimentações artísticas. Nas telas, aquarelas esfumaçadas por meus dedos carimbados de tinta. Desenho faces irreconhecíveis de pessoas que nunca conhecerei.

Por Giovana Proença


A separação (1896), de Edward Munch.

A notícia de sua doença chegou por um telefonema, não era algo que imaginavam que me passaria ileso. Senti a urgência consumida de vê-lo imediatamente. O clamor fora entretanto calado pelo senso de receio: poderia ele querer me ver? Desistindo do impulso, resignei a partir para casa, na onde o silêncio das horas e a fadiga dos sobressaltos colocou-me em minhas antigas inquietações. Às vezes, penso que deveria simplesmente ter ido, uma simples mudança de rota. Muitas vezes naquelas semanas ensaiei visitações. Nos encararíamos e tudo estava perdoado. Sem necessidade de palavras, como fora o silêncio da ruptura, em lados opostos da mesa. Agora o movimento seria de aproximação. Nada seria dito sobre a noite em que taças levaram aos lábios, sobre quantas vezes poderíamos ter nos possuído em mais do que mesa; em cama e banho, se mais um rompante de coragem nos atingisse.

Digo que sou uma dessas pessoas movida pelos finais. Como muitos, começo meus afazeres práticos apenas quando o prazo se aproxima firme e veloz para me atropelar. Frequentemente também esqueço que deixei algo no fogo e preciso me contentar com minhas constantes refeições temperadas com uma pitada de queimado. Meus escritos só deslancham nas derradeiras últimas linhas, e após saborear o vinho, viro de forma ávida e brusca o que do púrpura resta no fundo do vidro. Não o suficiente, sempre acontece de me precipitar ao entrar nos vagões: os trens nos quais embarco sempre estão prestes a partir.

As circunstâncias que me levaram a constatação, embora tenham começado muito antes de minha mudança, alcançaram naqueles poucos metros quadrados - que eu estava na iminência de abandonar – o ponto culminante. Revisitando uma gaveta esquecida, do armário que passei anos reclamando da madeira sem brilho, encontrei os cartões postais que escrevi ao meu amigo Armando.

Atingida por um estupor surdo, apanhei o conjunto, estampado com as imagens dos principais pontos turísticos paulistanos, sentindo que segurava mais do que o peso de todos os monumentos, o presente e o passado, suspensos.

Armando,

[A maldade do tempo fez eu me afastar de você, e quando chega a noite e eu não consigo dormir. Meu coração acelera e eu sozinha aqui...]

Caminho pelas ruas do centro, vejo o Vale do Anhangabaú e penso em todas as xícaras que tomamos nos cafés espalhados por esses endereços. Abandonei a cafeína, embora você não possa saber disso. Considero quase uma lástima que você desconheça as canecas amarelas que uso, goles de Earl Grey pela noite, sentindo o chá morno aquentar meu corpo, enquanto leio poesias diversas. Considero quase uma lástima que você ainda esteja nas entrelinhas de cada página.

Recordei a caminhada que levara ao registro da confissão escrita, dois anos atrás. Quantas vezes pensei em enviá-lo, as palavras gravadas no envelope nunca comprado como flutuavam em recanto de memórias que eu empenhava em adormecer. Mas a coragem esvaía com os grãos da ampulheta, e com as viradas do tempo, os cartões postais escritos em desabafo tornaram-se minha reclusão clandestina.

Armando, cantei a reflexão. Mais amigo do que amante, quantas vezes estivemos em lados opostos de tantas mesas. Compartilhávamos a excitação da intimidade das revelações e os olhares de declarações. Até que um dia, não sei origem do desejo, misturada força de metade de uma garrafa de vinho, explodiu. O olhar se delonga e desagua na boca?

[É isso aí, os passos vão pelas ruas, ninguém reparou na Lua, a vida sempre continua. Eu não sei parar de te olhar]

Passo pela Estação Liberdade, saindo da aula de yoga que passei a frequentar. Você se lembra de quando tudo que queríamos era conhecer esses restaurantes? Uma pena... Mas eu aprendi o poder da meditação: inspira, expira. Em busca do que? De uma grande verdade que desconheço. OM MANI PADME HUM. Agradecer, exercitar o perdão, coisas assim. Ainda não sei bem porque.

Os trechos difundiam e mesclavam-se doloridos ferroando o inventário de memórias despejadas. Nosso caso digno de MPB, título de romance, pensou. Antes fossemos cariocas ao menos teríamos tempo de caminhar pelas largas calçadas de Copacabana. Mas, como pertencíamos a terras mais frias, restou-nos não chegar ao fim da Avenida Paulista. “Paramos por aqui, sem ultrapassar”, ele disse, apenas no roteiro que criei. “Nunca dormimos juntos, todo o etéreo dos sentimentos suspensos que não se revelam teriam despencado sobre nós, enquanto restávamos indefesos”, eu declamaria em voz teatral, meu monólogo. Entretanto, na última vez que estivemos em lados opostos de uma mesa, as palavras pelas quais eu desejava traduzir-me, esvaíram em silêncio. Não sei por que razão tudo mudou assim ficaram as canções e você não ficou, a música ao vivo nunca para, meu bem.

[Eu penso nessa solidão e espalho coisas sobre o chão de giz. Há meros devaneios tolos a me torturar, fotografias recortadas em jornais de folhas amiúde. Eu vou te jogar num pano de guardar confetes]

Faço novas experimentações artísticas. Nas telas, aquarelas esfumaçadas por meus dedos carimbados de tinta. Desenho faces irreconhecíveis de pessoas que nunca conhecerei. Cores escuras respingando no fosco olhar em brasa. Mas os esboços que te mostrei, nunca converti em obra.

O fato é que não pude dormir desde que redescobri quantas são as trajetórias que tomam a rejeição. O chá não amornava mais os anseios que ressuscitam da inquietação. Passava as noites em claro, sentava em postura meditativa, assistia o trabalho artístico, as aquarelas laranjas do raiar. Com os postais, estava aberta a caixa das pulsões que agitavam contidas, agora soltas em revelação incandescente.

Eu o vira ainda uma última vez, e entrei em estado de contemplação. Vagava a Paulista, sentia salpicar-me a face, quando o vi revelar-se turvamente em minha direção. Sabia que ele saíra do cinema pelo olhar encrustado de quem contém a emoção como brisa, ainda assim, ele me viu. Consternada, senti o corpo retesar por um momento. Estáticos como num jogo de Medusa, até algum click estalado pelo turbilhão da cidade nos colocar novamente em direção a outro algo. O pressentimento do mistério que me movia, colocou-me e cruzar a rua. Um mecanismo a mais, um momento de execução e ele me perguntaria se estava tudo bem, os olhos cerrados e o toque gentil na parte interior do braço. Entretanto, por antecipação, fugimos, cada um para as próprias correntes arrastáveis.

Penso naquele dia como a última oportunidade, metamorfoseada em mais um efêmero em que obtive exultação na fuga. A presença espinhosa que promove o choro duraria dias, mas no final as lágrimas guardariam um sadismo; finalmente, diria em gozo de alívio, comprazido ao prazer solitário e insuportavelmente dolorido, afinal, uma parte comemora as despedidas enquanto a outra sangra desfalecida.

Dias assim me deixavam inquieta, preenchendo telas vazias com colorações mistas, a tinta escorria formando abstratas geometrias e eu não conseguia evitar a reflexão: o que havia escorrido pelas minhas mãos? Eu o convidava para jantar e ele esquivava. A mesa colocada, guardanapos brancos, as velas ladeando as cristaleiras. Poderia ter sido eu quem se recusara, dando as costas? Pode ter sido ele, Armando e seus jogos inúteis, peões esparsos em um tabuleiro esquecido. E eu perdia todos, perdia cada um deles no desespero das últimas jogadas. Eu perco jogos como quem ama.

Quando senti que por fim, as esperanças nas quais segurava já há muito desaguaram nos mares da indiferença, aceitei o peso da renúncia. O último cartão postal foi escrito em nosso último embate de olhares em duelo, naquele dia na Paulista. Lembro-me de segurá-lo por mais tempo do que os outros, estampava o MASP. Segui no afastamento, exilada entre minhas composições e as obrigações rotineiras que voavam com as viradas do calendário. Deixei o cabelo crescer mais do que nunca, para enfim cortá-lo mais curto do que ele jamais viu em mim. Os amigos apenas respeitavam os muros que eu construía em meu exílio.

Os cenários se diluíram em minhas fantasias, elas próprias roendo cada vez mais as possibilidades de concretização da visita. Não sentia-me pronta para desmantelar definitivamente os planos traçados em minhas realidades de papel. Assustava-me as possibilidades, precisava partir para uma demanda de desfecho garantido, assim poderia bradar “Fiz o que pude!”

Sigo o cortejo fúnebre, enquanto os pensamentos em turbilhão fundem o passado ao presente. Finalmente, aqui estou, na demanda cujo desfecho era cumprido. Armando odiaria isso, não gostava de ser o centro das atenções. Devo começar já dizendo, sou uma dessas pessoas movida por finais.

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