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As curvas de um M

\\ CRÔNICAS

Por isso, quando a linha do fruto se mistura à linha da vida, sinto tomar conta de mim uma bondade da terra.

Por Sibélia Zanon*, colaboração para Frentes Versos


Imagem: acervo da autora.

Um dia vi a linha da vida se misturando à linha do fruto. Na palma da mão, a nervura de uma pitanga globosa se localizava no espaço exato para dar continuidade à linha da vida. Naquele instante, aqueles dois corpos eram terra, semente, e direção.


Lembrei de quando eu tinha seis anos e a professora perguntou que letra tinha na palma das nossas mãos. Ela era professora de música. Se fosse a de língua portuguesa não teria perguntado porque aquilo ia contra os princípios da caligrafia. Muitas letras M tortas, impressas na pele, denunciavam a caligrafia bizarra da vida. Pernas de M rebeldes ou mesmo duplas - o que parecia bem mais arriscado - povoavam futuros infantis. Como podíamos construir um destino anárquico já tão cedo?


Pode ser que a ideia de destino já me causasse curiosidade naqueles dias porque esse é o único episódio das aulas de música daquele ano escolar de que me lembro. Talvez por isso eu ainda não tenha aprendido a tocar violão.

Músicas depois, eu consegui despistar umas ciganas que queriam ler a minha mão em Granada. Devia ter deixado. Escutar as revelações em espanhol poderia ter causado uma revolução. Provavelmente, eu embaralharia o sentido das palavras, forjando um destino mais anedótico para mim.


- Mãe, quando a gente vai chegar?


Nunca vi como criança é cheia de urgência na vida. Naquele dia, quando chegamos ao lago, os girinos já estavam nadando, tinham entrado antes de mim. Peguei um punhado da água nas mãos em forma de concha e a linha da minha vida se juntou aos contornos de um girino. Quando o devolvi ao lago, ele traçou nova rota com a urgência de quem precisa ser sapo. Cada um com as suas urgências.


Naquela época, a minha urgência era ser menina grande. Depois, a urgência era ser mulher. Queria traçar sozinha meus próprios mapas, como se a vida adulta não conhecesse obediências. Depois, descobri as burocracias, os despertadores infalíveis, as leis de trânsito e os múltiplos avisos. Sim, a vida avisa quando a gente traça rotas tortuosas demais. Aí, a gente escuta a dica ou bate o carro na próxima curva ou a cabeça na próxima árvore.


- Mãe, a gente já tá chegando?


Hoje já não quero chegar tão rápido. A minha urgência é outra. Quero sentir a natureza devagar e virar um ser orgânico, que se encaixe na noite das corujas, no dia das abelhas e nas curvas do rio. Quero equilibrar nutrientes para vicejar no quintal. Quero conhecer a nascente do lago e me juntar ao circular dos ventos.


Por isso, quando a linha do fruto se mistura à linha da vida, sinto tomar conta de mim uma bondade da terra. Gasto um tempo contemplando, e começo a entender que aquele M, mais afeito às curvas do que às retas, faz todo o sentido.


*É Jornalista e escritora, também é colunista convidada de Frentes Versos.

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