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As nossas causas secretas

\\ ESPECIAIS

Quais seriam as paixões às quais estamos tão fortemente ligados que nos permitem ignorar e até defender a barbárie? O Machado, como sempre, não tem a resposta, mas nos deixa a pergunta. E aí?  

Por Thaís Travassos*, especial para Frentes Versos

Imagem: reprodução

Machado de Assis escreveu no século XIX, mas muitas das coisas que ele percebeu lá atrás continuam pertinentes para refletirmos em um momento tão crucial como o que vivemos. A primeira delas é a clareza com que o autor percebe como a figura do altruísta é boa para esconder as intenções reais dos indivíduos. Na história A causa secreta, Garcia nota que Fortunato tem alguma coisa estranha por detrás da fachada de bom médico: assiste somente ao momento de morte da peça de teatro, nega o agradecimento do homem que ajuda na rua, tem uma mulher que parece assustada e oprimida, e, mais ao fim da história, com a desculpa do estudo da anatomia, passa a envenenar gatos e cães.


Só depois de abrir com o médico uma casa de saúde e conviver por alguns anos é que ele finalmente desvenda a face sombria do amigo. Descobrimos juntos que “Dr.” Fortunato, casado, reconhecido na sua comunidade como um homem bom que oferece seus serviços de maneira gratuita aos pobres, que ajuda anônimos feridos na rua sem querer nem ao menos agradecimentos em troca, é um sádico. O desfecho, que revela seu prazer diante do sofrimento do amigo e da mulher moribunda, consegue ser ainda mais terrível do que o momento em que Garcia e Maria Luiza descobrem o personagem torturando um pobre rato, que gritava sobre o fogo enquanto tinha seus membros lentamente cortados. Haja crueldade!


Podemos supor que Garcia era um ingênuo, muito preso a sua curiosidade e admiração para compreender as dicas dessa atitude final, mas o conto – viva a maestria narrativa! – não permite que sejamos tão prontos em dar essa resposta. Será que o motivo por não ter percebido o problema com o amigo não seria a crença tão fiel nessa máscara social de médico e homem bom de família? Talvez. E é aí que as nossas figuras públicas e a maneira como nos posicionamos diante de suas ações entram na equação.


Por que, como sociedade, aceitamos, impassíveis, tamanho horror? Seria pela inocência endêmica da nação? Seria pela máscara usada por Bolsonaros, delegados de Polícia, de defensores da família, da segurança, da justiça, da liberdade de propriedade? Estaríamos tão cegos para não notar o sadismo muito maior que a máscara conseguiria esconder ou há aí alguma culpa nossa, algum desejo sádico que nós, como sociedade, também mascaramos?


Vale perguntar: quais são nossas causas secretas? No conto, Garcia, o amigo, apaixona-se pela mulher de Fortunato, e mantém as visitas à casa, as vistas grossas aos desmandos do médico, a parceria na casa de saúde. Tudo para estar perto de Maria Luiza. Garcia também tinha seu segredo e sua máscara. Quais seriam as paixões às quais estamos tão fortemente ligados que nos permitem ignorar e até defender a barbárie? O Machado, como sempre, não tem a resposta, mas nos deixa a pergunta. E aí?  


*Thais Travassos é professora de literatura brasileira, mestre pela USP, na Universidade de Taubaté

(Os textos de colaboração não expressam necessariamente a opinião da Frentes Versos)

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