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As pálpebras // A galope

\\ POEMÁRIO

Tudo o que quero passa rápido. Eu estrago as coisas por gostar delas demais, ou por não gostar o suficiente?

Por Gabriela Ripper Naigeborin (mira)*, colaboração para Frentes Versos

“The Horse in Motion” (1878), Eadweard Muybridge.

Os olhos nos fascinam não pela profundidade das pupilas  – dos olhos a gente só vê a superfície  –  mas pelo movimento subliminar das pálpebras. Um rosto por si só é uma coisa impávida, pedra-polida que a gente até sente gelar quando deita a mão na bochecha. São as pálpebras que salvam o rosto de virar uma máscara da morte: abrem e fecham num frenesi automático, armas que atiram sorrateiras, deixando ver o mundo por entre tiros, deixando ver os olhos enquanto atiram em quem tenta olhar no olho do canhão. Gostamos de fingir que vemos o mundo inteiro, de uma só vez, que o fluxo das imagens que a gente atravessa a cada instante é coisa contínua. Estivemos a ponto de desvendar o segredo das pálpebras quando descobrimos o cinema, mas logo veio o digital. O digital está para a mecânica do cinematógrafo como o real-falso está para o humano – porque pálpebras não medem nada mais, nada menos do que o próprio ritmo da nossa humanidade. Daí a certeza da incerteza da medida. Note como o bater das pálpebras segue o bater do coração, o bater dos pulmões, o debater da alma. Quando esta finalmente se consuma num respiro contínuo, respira até a morte, transformando o desígnio da vida em se fazer uma só numa porta para a morte, que, esta sim, será só uma - eterna. As pálpebras, não: são entrecortadas, aflitas, discretas, cansadas, presentes, corridas, envergonhadas como só nós podemos. Somente à noite cabe o ponto final. Somente aos deuses cabe um texto sem vírgulas.

Tudo o que quero passa rápido. Eu estrago as coisas por gostar delas demais, ou por não gostar o suficiente? Às vezes a gente anda olhando pro chão pra não cair e dá com a cabeça no poste. Ninguém anda olhando pro chão por temor de cair: só nós, que somos neuróticos: somos bípedes bípedes bípedes: o som de um cavalo galopando, quatro patas a todo vapor, calcando o solo como se cada casco fosse uma âncora veloz, que pega e despega do chão num átimo profundo: talvez assim que a gente deva andar: como um cavalo, que pega fundo e olha pra frente: os músculos do cavalo fazem um outro som que é abafado pelo som dos cascos: o passado do cavalo está todo nos músculos, que queimam escuro enquanto o presente, segundo por segundo sob as patas, vai sendo cavoucado e deixado para trás: quem pensa demais sai sempre perdendo: pensar no presente é como tirar uma foto de não-sei-quê porque estou com o olho apertado no buraco da câmera, e como o futuro é inimaginável, só dá para pensar no passado: o buraco da câmera é justamente isso: o túnel pelo qual abrimos mão do presente: pequena abertura para o mundo que nos faz esquecer de que somos nós mesmos: de que somos do mundo: de que estamos no mundo: de que o mundo nos cerca: porque às vezes sentimos o cerco do mundo na gente chegando tão perto, mas tão perto, que parece que nós somos a paisagem da qual o mundo está tirando uma foto, e ninguém quer virar uma foto que o mundo esqueceu no fundo da gaveta depois de voltar de viagem. Eu acho que a gente quer é participar do mundo como um cavalo: patas na terra, passado no corpo, futuro no ar que ele corta como uma flecha.

*Gabriela Ripper Naigeborin (mira) nasceu em São Paulo em 1997. Como

pesquisadora nas universidades Brown e Cambridge, estudou a estética mística de Clarice Lispector e Glauber Rocha. Atualmente integra a rede de trabalho do Instituto de Outros Estudos e publica sua poesia e prosa poética numa página pessoal.


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