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Atemporal, Jane Austen retrata sua época e se mantém atual na cultura pop

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As heroínas impetuosas e seus interesses amorosos extremamente apaixonantes são somente a superfície do retrato social profundo que a autora estava preocupada em elaborar.

Por Laura Pilan, colaboração para Frentes Versos


Retrato de Jane Austen feito com base em uma ilustração da irmã da escritora (Foto: Wikimedia).

É uma verdade universalmente reconhecida que é impossível superar as primeiras linhas que abrem os romances de Jane Austen – e nem tenho essa pretensão. As máximas instigantes – construídas como apontamentos absolutos – introduzem quase tudo o que há de fundamental no universo que será desenvolvido nos parágrafos e páginas seguintes. Para compreender como o nome de Austen permanece sendo um dos mais significativos no cânone da literatura mundial é necessário conhecer suas minúcias e preocupações fascinantes.

Nascida em 16 de dezembro de 1775, Jane Austen foi uma das maiores romancistas da língua inglesa. Viveu em uma região rural da Inglaterra e obteve – na prática – as experiências dos círculos sociais que detalhou em seus livros. Seus pais apoiaram sua educação, provendo um espaço para que ela pudesse escrever e publicar anonimamente: algumas de suas obras eram assinadas simplesmente com “By a Lady”. Contudo, a escrita não era uma profissão lucrativa e a recepção crítica era especialmente mais difícil para o gênero feminino. Diante de tamanho empecilho, apareceu a necessidade de criar-lhe uma aparência dócil e jovem. O seu único retrato pintado foi alterado ao longo do tempo para atender à essa necessidade e a busca por essa imagem adequada culminou no incêndio de suas correspondências depois de seu falecimento em 18 de julho de 1817. Todavia, é possível encontrar elementos de suas circunstâncias em inúmeras de suas personagens: mulheres espirituosas, de personalidade pragmática e ricas em uma interioridade complexa.

Certa vez, Virginia Woolf escreveu para o jornal político “The Nation and the Athenaeum” que Austen era uma escritora difícil de apanhar em seus atos de grandeza. Isso se dá justamente porque os inúmeros traços de sua inteligência afiada penetram na narrativa com muita sutileza – sua obra exige um leitor atento e, acima de tudo, sagaz. Sobre sua figura, cria-se uma espécie de mito: uma mulher que escreve histórias românticas para outras de seu gênero – livros simples, imersos na fórmula da jovem que conhece um herói e se apaixona perdidamente. Essa imagem deve ser descartada – com urgência, se possível.

A comunidade em que Jane Austen estava inserida não incentivava a participação feminina no debate político. O romance surgiu como uma solução: o suposto caráter fictício era utilizado como justificativa para que as mulheres intervissem em temas como política, religião e moral. Austen se aproveitou disso e representou os conflitos entre classes sociais e interesses econômicos distintos com precisão. Mostrou-se extremamente capaz ao criar grandes mensagens através de um universo limitado e, partindo de apenas três ou quatro famílias, dedicou-se a revelar o mundo de uma pequena nobreza, no qual o dinheiro estava diretamente ligado à propriedade. Nesse contexto, a narrativa sarcástica e o humor de seus personagens são uma forma eficaz de expor a hipocrisia desses grupos.

Jane Austen não só enxergava a sociedade como era, mas também a retratava de maneira exímia. É impossível desassociar seus escritos da transição pela qual a população inglesa passava – do início do século XIX para a chamada Era Vitoriana. Em romances como “Razão e Sensibilidade” (1808) e “Orgulho e Preconceito” (1813), observamos de perto os diferentes destinos impostos ao gênero feminino na época – dependência e independência variavam de acordo com as classes sociais em jogo. Suas protagonistas realizam escolhas que afetam decisivamente a estabilidade financeira e romântica e superam esses obstáculos sem sacrificar o senso de humor ou seus valores. Consequentemente, os bailes e eventos sociais não são futilidades: são oportunidades para a apreensão e exercício de relevantes princípios morais – entre os quais estão a compaixão e a generosidade – e ter contato com as diferenças sociais. “Emma” (1815) e “A Abadia de Northanger” (publicação póstuma, 1818) ilustram com perfeição a distinção entre classes, mas também são espaços em que Austen defendia o ato de escrever romances, a leitura e, especialmente, a separação entre a fantasia e a realidade.

Ainda que o casamento não seja o ponto principal de suas obras, a escolha de um bom enlace não era irrelevante. A autora sabia que o marido teria direitos absolutos sobre a vida de sua esposa, de modo que a decisão resultaria em felicidade ou infelicidade. Por isso, o objetivo era escolher alguém intelectual e moralmente semelhante. O universo aparentemente banal do matrimônio torna-se algo muito complexo diante dessa ótica: em seus romances, a tensão entre a busca mítica pelo amor e os benefícios econômicos de encontrar a união certa é explorada em suas diversas facetas.

Sua produção literária se destacou entre as demais justamente porque era de seu desejo produzir algo novo. A intenção não era criar personagens que fossem unicamente virtuosos, mas sim heroínas com falhas e defeitos que confirmassem a inconsistência do caráter humano. As contradições e obscuridades nas motivações de suas protagonistas eram expostas por meio de técnicas incomuns para as narrativas da época – como o uso do discurso indireto livre, por exemplo.

Uma das mais poderosas inovações da prosa de Jane Austen foi a apresentação de personagens que não tivessem conhecimento absoluto sobre suas falhas: enfatizava-se, principalmente, o processo de aprendizagem ao longo do enredo. O momento da descoberta do próprio erro é sempre emblemático e de consequências irreparáveis. Elizabeth Bennet sente intensamente os resultados de suas falhas de julgamento acerca de Mr. Darcy – mas ela não é a única: Emma Woodhouse e Catherine Morland também experimentam o impacto do autoconhecimento e do esclarecimento sobre as verdadeiras intenções de outrem. Isso é feito com habilidade extraordinária, utilizando uma apresentação sutil da interioridade dos sujeitos e um rompimento de expectativas para obter um efeito surpreendente. Austen não só revolucionou a literatura de sua época como também permanece extremamente atual. Sua prosa é atemporal e a identificação pessoal entre leitor e obra é, muitas vezes, inevitável. Isso acontece graças à verossimilhança dos personagens e seus conflitos que tornam os romances atualizáveis – eles contemplam todas as gerações, não só a de seus contemporâneos.

As heroínas impetuosas e seus interesses amorosos extremamente apaixonantes são somente a superfície do retrato social profundo que a autora estava preocupada em elaborar. A complexidade desses indivíduos mantém Jane Austen bastante popular nos palcos e telas, uma vez que suas obras são facilmente adaptáveis para as sensibilidades modernas.


Cena do filme "Orgulho e Preconceito" (2005), dirigido por Joe Wright.

Não há dúvidas que sua obra mais levada para o cinema é “Orgulho e Preconceito”. O sucesso dessas adaptações não só introduziu novos leitores ao vasto universo de Austen como também criou noções paradigmáticas entre os fãs. Após a série produzida pela BBC, a figura de Colin Firth tornou-se eternamente associada ao personagem de Mr. Darcy. As fanfictions – histórias criadas por fãs baseadas em um universo já existente – se apropriaram da aparência de Firth e incorporaram seus traços ao herói original. Keira Knightley materializa com perfeição a tenacidade de Elizabeth Bennet e é cada vez mais difícil desassociar a protagonista de “Orgulho e Preconceito” das feições da atriz que estrelou o filme de 2005.

Além das adaptações que seguem os dados históricos descritos por Jane Austen e levam para o audiovisual um quadro bastante exato da sociedade inglesa da época, há uma gama de tentativas ousadas de modernizar esses enredos tão canônicos. “As Patricinhas de Beverly Hills” é uma experiência vitoriosa: Cher, interpretada por Alicia Silverstone em 1995, personifica a determinação e teimosia de Emma e Paul Rudd encarrega-se da sensatez e sobriedade de Mr. Knightley. A película transpôs a realidade do século XIX para a contemporaneidade com êxito impressionante, de modo que muitos a conhecem antes do acesso à obra original. A versão de um clássico pela ótica tardia do século XX é tão irresistível que a popularização foi inevitável. Contudo, há opções ainda mais atrevidas e, por isso, muito mais controversas. “Orgulho e Preconceito e Zumbis” data de 2016 e buscou unir o interesse atual por mortos-vivos à relação atemporal de um dos casais mais famosos da literatura. No filme, Elizabeth procura impedir que uma praga se alastre utilizando um conhecimento em artes marciais e a companhia de Fitzwilliam Darcy. Ainda que de qualidade duvidosa, o notável esforço para renovar um livro tão profundo significa algo.

É impossível esquecer Jane Austen porque sua prosa jamais se torna antiquada. Os dilemas retratados por suas obras são tão latentes na sociedade atual quanto eram na época em que foram escritos e, mais do que nunca, é necessário conhecer uma romancista de tão vasto impacto na literatura mundial. O talento inegável de Austen foi o ponto de partida para que muitas mulheres fossem, finalmente, escutadas. Trata-se do fundamento de um legado que, continuado pelas irmãs Brontë e aprimorado por Virginia Woolf e Katherine Mansfield, demonstra que a presença feminina foi essencial para o desenvolvimento do gênero romance.


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(Os textos de colaboração não expressam necessariamente a opinião da Frentes Versos)

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