• Giovana Proença

Autora de 'Bigornas', Yasmin Nigri versa a renovação da poesia

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Com a consciência sólida e voadora de uma bigorna, Yasmin se alcunha “Retomar a tradição com o objetivo de traduzir o presente é algo muito recorrente na minha poesia.”

Por Giovana Proença

A poeta Yasmin Nigri (Foto: Mariana Botelho).

“A poesia já passou por uma fase áurea e vem se ressignificando”, a afirmação de Yasmin Nigri toma forma em Bigornas, seu livro de estreia, publicado pela Editora 34. Para a poeta carioca, a poesia e a bigorna, outrora fundamentais para a humanidade, chagaram ao posto de ‘inutensílios’, necessitando assim de novos significados. As bigornas encontraram o seu nos cartoons – quem não se lembra do célebre Tom & Jerry? – e a poesia parece deixar novas marcas na poética contemporânea forjada por Yasmin. 


Bigornas engloba temas múltiplos dentro da poesia renovadora de Yasmin Nigri: o memorialismo, os rastros “estamos pisando sobre os restos/única maneira de não esquecer”, cenas cotidianas, o humor da vivência, as influências fundamentais para a construção da voz poética da autora e o feminino. Esse último merece destaque: Bigornas é dedicado para todas as mulheres e versa sobre múltiplas questões do gênero, desde o machismo até romances homoafetivos. Através da forma poética, Yasmin diz ter elaborado a revelação de violências antes naturalizadas. 


A renovação é o rastro deixado pela poética de Yasmin Nigri. A poeta vê a importância da atualização do fazer criativo e incorpora o humor aos versos, “Me convidar para um ménage/ recusar por medo de decepcionar/ Duas ou mais pessoas de uma vez”; “hoje é possível incorporar um tweet a um poema, assim como foi possível trocar corcel por cavalo há algumas décadas”, defende. Com a consciência sólida e voadora de uma bigorna, Yasmin alcunha “Retomar a tradição com o objetivo de traduzir o presente é algo muito recorrente na minha poesia”. Sobre nossos tempos, e o lugar do isolamento, finaliza: “A distância entre um verso e outro”. 


A fim de compreender todas essas temáticas que permeiam a pujança da obra de Yasmin, conversamos via e-mail - como as restrições sanitárias pedem - com a autora e falamos sobre seu trabalho poético, suas atividades na pandemia e a importância do movimento feminista em sua obra.


Confira os melhores trechos da entrevista a seguir,


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Frentes Versos: Yasmin, seu primeiro livro, publicado pela Editora 34, se chama “Bigornas”. A bigorna é um instrumento sobre o qual se malha o ferro, é usada para moldar. Você vê a poesia como uma bigorna ?


Yasmin Nigri: O que aproxima a bigorna da poesia, a meu ver, é que a bigorna teve uma função central no desenvolvimento da humanidade, mas como tudo que está em movimento na história acabou se degenerando e virou um inutensílio, assim como a poesia.


A poética perpassa o livro. Em “Poemas como bigornas”, está escrito “fracassar eu fracassei/ mas antes arremessei/ poemas/ como bigornas". A poesia, principalmente a contemporânea, é na sua visão um peso sólido arremessado ao leitor?


A bigorna tem o peso do inutensílio, já teve sua fase áurea e depois caiu no desuso, sendo ressignificada nos cartoons . A poesia também já passou por sua fase áurea e vem se ressignificando.


Na primeira parte do livro “Rua de ontem”, tem um humor ácido muito presente. Um exemplo são os versos “Me convidar para um ménage/ Recusar o convite por medo de decepcionar/ Duas ou mais pessoas de uma vez”. Como você vê esse humor incorporado a poesia?


Faz parte do processo contínuo de atualização de um fazer criativo, hoje é possível incorporar um tweet a um poema, assim como foi possível trocar corcel por cavalo há algumas décadas.


Em muitos poemas há um certo memorialismo de uma relação inexistente. Como é essa retomada sentimental do passado dentro da poesia? Seria isso o “estamos pisando sobre os restos/ única maneira de não esquecer” que você escreve em “Tchekhov?


Retomar a tradição com o objetivo de traduzir o presente é algo muito recorrente na minha poesia, é uma forma de transcriação das minhas influências, especialmente aquelas que atravessaram a formação da minha voz poética.


As coisas que a gente não esquece voltam para a poesia como ficção ou como modo de retratação?


Voltam de várias formas, porém melhor elaboradas, esse é o caráter terapêutico da escrita poética pra mim, poder dar forma aos meus fantasmas.


Os autores que você cita em “Recibos” são suas leituras, suas inspiração poéticas?



Sim, não apenas inspirações poéticas como também influências fundamentais na construção da minha voz.



Bigornas é dedicado para todas as mulheres. Como foi a construção dessa poética que discute facetas da violência que permeia a vivência feminina?


O período de escrita do livro coincidiu com a [minha] descoberta da teoria feminista e de experiências de troca com mulheres fantásticas. A revelação das múltiplas violências antes naturalizadas por mim e pelas minhas amigas culminou na elaboração dessas múltiplas opressões através da forma poética.


Dentro desse universo feminino temos poemas com romances entre mulheres, que parecem ser muito mais intimistas como interlocutoras. Há um companheirismo maior nesse “passo que vai junto/ silencioso”?


Certamente, não a ponto de ocultar a solidão, mas de possibilitar o estar junto das solidões.


Quais são seus planos para novos trabalhos? O que você tem feito durante o isolamento?


Tenho trabalhado na minha tese de doutorado principalmente. Estou também montando outro livro de poesia, mas por enquanto ainda está em processo, não tenho pressa em terminar projetos de livro, ao contrário da academia, os livros não tem prazo.


Qual é o lugar do isolamento na sua poesia?


Yasmin: A distância entre um verso e outro.


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