• Giovana Proença

Autora de 'Controle', Natalia Borges Polesso celebra literatura inclusiva abordando amores LGBTs

\\ ENTRELINHAS

"É importante que tenhamos diversidade em termos de autoria, pra que possamos ler sobre diferentes perspectivas com diferentes personagens"

Por Giovana Proença


A escritora Natalia Borges Polesso - Laine Barcarol/Divulgação


A literatura brasileira ganha novos ares de representatividade com Natalia Borges Polesso. O Frentes Versos recebeu as respostas da autora – que aceitou o diálogo virtual com nossa redação - um dia após o anuncio de Controle como Melhor Obra Literária no Prêmio Vivita Cartier, do Concurso Anual Literário da Prefeitura de Caxias do Sul. A escritora gaúcha, que estreou em 2013 com Recortes para álbum de fotografia sem gente, está em ascensão literária, seu primeiro livro venceu o Prêmio Açorianos e Amora (2016) adicionou a conquista do Jabuti, maior premiação do país, no currículo de Natália.

Amora proseia em torno dos relacionamentos lésbicos. Mais do que abordar a homossexualidade feminina, os contos são sobre mulheres diversas em suas vivências sentimentais, transitando entre o amor e seu feminino. A temática se repete em Controle. Em seu primeiro romance, Natalia Borges Polesso nos entrega uma protagonista epilética. Sentindo-se retirada do controle da própria vida, Nanda passa seus anos de formação em meio a proteção exacerbada e na iminência das crises e da ansiedade, encontrando amparo na amiga Joana. Por trás, esconde uma paixão mal delineada simultânea ao afeto que escorre incontido.

Natália define Nanda como principal elemento da narrativa, “a história é muito mais sobre saber de si. Nanda precisa saber dela, do que ela gosta, o que ela pode fazer, o que ela quer fazer e de quem ela quer gostar.” Conhecemos a trama pelo olhar fragmentado da personagem, que vive suas lacunas, arquitetadas com a perícia e a sutileza da narração da autora, que compara o ritmo de escrita a um passeio de bicicleta.

Natália vê a representatividade LGBT na literatura como uma oportunidade de novas perspectivas e identificações. Ela é categórica, a sexualidade de Nanda é um aspecto que se integra a descoberta de todo um mundo em desenvolvimento. “Acho que a Nanda vive sua sexualidade da forma que pode, da forma que consegue, isso também é viver totalmente. Temos que pensar em como o mundo é formatado para aceitar restritas formas de experiência ou elas não são válidas. Essa é a grande questão do livro.”

Controle é o retrato de uma busca por experiências e pela própria interioridade. O prodigioso êxito narrativo de Natalia Borges Polesso triunfa por apresentar vivências que passam despercebidas em mundos que se mantém fechados para a pluralidade. Com o controle do livro em mãos, dosa com equilíbrio a costura de temáticas como a sexualidade, a epilepsia, o afeto e acima de tudo; a construção da identidade.


Frentes Versos : Em Controle, vamos uma personagem retirada do controle da própria vida. Como foi escrever isso?


Natália Borges Polesso: A Nanda é o elemento principal da narrativa. Tudo é sobre ela e o livro é em primeira pessoa. Então, precisei pensar muito bem na linguagem e em como ela vai mudando no decorrer do livro, afinal, começamos com uma Nanda de 13 anos e terminamos com uma Nanda de 34 anos. Precisei sempre medir a autoconsciência da personagem, pensar em metáforas para descrever algumas sensações e sentimentos. Foi muito bom pensar nesses termos, um exercício bem interessante de controle, pra mim, como escritora.

FV : Como foi a pesquisa para representar uma personagem com uma condição como a epilepsia?

NBP : Primeiro eu li muitos artigos, busquei definições da OMS, conversei com amigos e amigas médicas, tentei buscar também artigos antigos sobre epilepsia, como era vista e tratada, afinal o livro vai dos anos 1990 aos 2014 e, sabemos muito bem que a ciência é dinâmica. Comecei a seguir páginas como a Epilepsy Foundation e outras fundações e grupos e isso me levou ao segundo passo, que foi começar a seguir pessoas com epilepsia, participar de fóruns, seguir canais de youtube. Foi tudo muito rico, especialmente ouvir os depoimentos. Porque a primeira parte da pesquisa me deu ótimos recursos de base, mas quem narra a história é a Nanda, e a Nanda vai aprendendo a lidar com tudo muito lentamente.

FV : A questão da saúde mental está muito presente, como foi a construção da ansiedade dentro do livro?

NBP : Essa é uma questão muito cara pra mim, acho que essa é a parte do livro com a qual eu, Natalia, me relaciono mais diretamente. Eu fui uma adolescente que sofreu de ansiedade e síndrome do pânico, que passou algum tempo com medicações erradas e se sentindo super estranha dentro da própria pele. Então, nessa parte, eu mergulhei muito na minha vida, no meu passado adolescente. Eu e Nanda nos aproximamos nisso, mas nos afastamos bastante em como lidamos com tudo. Eu sempre fui muito sociável e tive que fazer um esforço imenso pra não perder o ano letivo. Uma coisa muito legal, foi que, no meu caso, a escola se envolveu e criou até horários especiais para eu chegar e sair sem precisar passar por todes alunes juntes.

FV : Você pensou no ritmo de escrita de “Controle” para combinar com a temática da tensão iminente dento do livro?

NBP : Demais! O livro, no primeiro capítulo, é um redemoinho, uma bagunça! Depois, os leitores e leitoras começam a pedalar numa reta, mais ou menos conhecendo o caminho. Então vem uma subida leve e logo uma subida intensa, até que estamos lá em cima de um morro. Aí é só soltar os freios e descer tudo.

FV : Como você pensou as relações que se estabelecem entre Nanda e as outras personagens para ambientar essa falta de controle?

NBP : Numa espécie de “estou aqui por inércia”, não que eu queira.

FV : A música tem um papel muito importante dentro do livro. O que isso representa?

NBP : Esse livro era uma encomenda de outra editora e eu escrevi ele em 2015. A proposta era uma coleção de música e narrativa longa. Então, a música vem daí, dessa ideia, que no fim não foi adiante. Mas eu fiquei ali com a Nanda na gaveta. O livro não era o mesmo que está publicado hoje. Era menor e bem menos interior. A proposta editorial era outra. O que eu tentei fazer com a música ali foi criar uma camada para Nanda, uma interface entre as coisas que ela sentia e teve que ir aprendendo a dizer e o que chega aos leitores e leitoras.

FV : Como você pensou as lacunas dentro da história Nanda?

NBP : Propositalmente. Tanto as lacunas de quando ela tem as convulsões, porque o livro é em primeira pessoa e ela não poderia se narrar inconsciente quanto as lacunas de tempo, porque sua vida é permeada desses grandes borrões, os quais ela não lembra ou não tem muita certeza sobre. É pras leitoras e leitores terem as sensações junto com ela, inclusive desses apagamentos.

FV : Qual a importância da literatura LGBT e da representatividade?

NBP : É importante que tenhamos diversidade em termos de autoria, pra que possamos ler sobre diferentes perspectivas com diferentes personagens, e também é importante que possamos nos identificar com as personagens apresentadas nos livros. Essa ausência e silêncio é muito triste. Então, quanto mais literatura LGBT tivermos, mais representatividade, mais chances de narrativas plurais.

FV : Como foi a construção dessa sexualidade que não é vivida totalmente pelas limitações do mundo da Nanda?

NBP : A questão da sexualidade é um dos aspectos da personagem, e a ideia foi explorá-la junto desse mundo interno em desenvolvimento. Acho que a Nanda vive sua sexualidade da forma que pode, da forma que consegue, isso também é viver totalmente. Temos que pensar em como o mundo é formatado para aceitar restritas formas de experiência ou elas não são válidas. Essa é a grande questão do livro. A Nanda quer viver e ela descobre que vive, ela faz todo esse percurso de memória para escolher registrá-lo nessa perspectiva. Evidente que há uma crítica sobre como ela se escondeu, como ela se protegeu e tentou lidar com suas questões todas, mas isso não invalida suas vivências. São experiências importantes que aconteceram como poderiam acontecer e isso também é válido.

FV : Qual você acha que é a principal mensagem desse afeto contido por tantos anos entre a Nanda e a Joana?

NBP : Bem, tem várias camadas aí. Em termos de amizade, não há nada contido. Elas sempre estiveram uma na vida da outra, com todos os seus dramas. Eu, pessoalmente, acho que a Nanda e Joana nunca ficariam juntas. Joana nunca soube que Nanda seria apaixonada por ela, nem Nanda sabe disso direito, ela não elabora isso. É uma aposta dos leitores e leitoras. Ela não fala isso pra ninguém. Ela diz alguma coisa pra umas desconhecidas. A história é muito mais sobre saber de si. Nanda precisa saber dela, do que ela gosta, o que ela pode fazer, o que ela quer fazer e de quem ela quer gostar.

©2021 por Frente & Versos. Criado por Vicxorea