• Lia Petrelli

Autoras Contemporâneas para Acompanharmos de Perto [indicações a partir de Layla Loli]

\\ ANTENA


A partir de indicações de Layla Loli, autora de A História do Gozo, selecionamos autoras contemporâneas para acompanharmos de perto.


Por Lia Petrelli



O poema que introduz esse texto você pode escutar clicando aqui!


A História do Gozo e Outros Canibalismos, publicado pela Mocho Edições no final de 2019, é um desvendamento de lugares incômodos da sociedade. Layla Loli, autora do livro, me concedeu uma entrevista recheada de percepções em estado de troca, no último carnaval, e fala delicadamente sobre assuntos nem tão delicados assim.


Na edição Erótica, de outono, você confere a entrevista na íntegra!


A voz que você escuta no áudio é o corpo privado de uma mulher que se dispõe a abordar questões sobre o avesso dos corpos: o corpo público, político e social que entrelaça os tantos fazeres artístico que cabem dentro dela mesma.


Quem acredita que a arte nasce por nascer, se faz como se quer, vem sem ser chamada, pode ser que tenha se esquecido das delicadezas da comunicação.


Layla é mulher artista, dramaturga, poeta, atriz, produtora cultural e mais tanto, que me parece bobagem procurar palavras para descrever a arte que se faz a partir de suas percepções poéticas.


A Flor, por Layla Loli

A História do Gozo e Outros Canibalismos é recheado por facetas do multigênero.


Escrever sobre o feminino, o corpo fêmea, o abortamento, as políticas públicas, a psicanálise, e ainda entrepassear por paisagens visíveis e tocáveis pode ser extremamente difícil. Ler sobre tais assuntos, também; por isso a deglutição, gestação e amadurecimento do próprio Ser que os lê faz parte da construção proposta por Layla.


A expressão política que arredonda as arestas, por vezes violentas, da forma escrita não é impensada.



Layla nos conduz com sua durante a entrevista para entendimentos internos que resvalam sobre o fazer artístico em um cenário conturbado, talvez perigoso o bastante.


É justamente isso que Layla nos apresenta quando fala sobre intimidades subjetivas que passam a comunicar inquietações sobre o espaço público.


O que restaria de nós, enquanto sociedade, sem a coragem feroz de quem observa o mundo, se indigna e apresenta vozes que o contestam? Qual seria a sensação de externalizar poeticamente todos os lugares que parecem estar ausentes no social?


Em algum momento da entrevista, perguntei à Layla quais eram suas inquietações literárias, ao que me foi dito:


“Em relação às minhas referências”, Lyla nos conta, “acredito que desde que passei a me levar a sério como escritora, passei a quase que exclusivamente consumir produções de mulheres.”

Dentre Sylvia Plath, Diane di Prima, Anne Sexton, Ana Cristina César, Virginia Wolf, a Hilda Hist, a artista também menciona escritoras contemporâneas que fazem parte do seu repertório de inquietações literárias, por isso no gancho da conversa iniciada por Lyla, hoje a Antena apresenta escritoras contemporâneas que precisamos conhecer mais de perto:



Natasha Felix


poeta, escritora e educadora, lançou Use o Alicate Agora (Macondo, 2018), dividido em quatro seções, o livro de estreia da poeta santista faz uma leitura ao mesmo tempo incisiva e delicada de questões ligadas ao corpo, desejo e violência. Dentre suas publicações, destaca-se o livro 9 poemas (Las Hortensias, Argentina) e a coletânea de poetas negras contemporâneas, Nossos Poemas Conjuram e Gritam (Ed. Quelônio).



A artista desenvolve trabalhos de performance e já participou de projetos como o Instrumental Poesia (Sesc Paulista), Black Poetry (Sesc Ipiranga), Trovadores do Miocárdio (Balsa), “Macrofonia” (Casa das Luz) e Expresso Poesia (Casa das Rosas).


A pesquisa de Natasha explora as relações entre a poesia falada e as experimentações corporais e sonoras, em entrevista ao site Mulheres Que Escrevem, contou um pouco sobre sua realação com o processo criativo:

“O processo é me perder nos processos, sou bem desorganizada. Começo novos cadernos e estou sempre os abandonando. Não tenho um horário específico para escrever. Mas, para mim, começar os rascunhos no papel faz com que os textos ganhem uma visualidade única, é importante. [...] Ah, também estou sempre falando em voz alta enquanto escrevo. Sempre.”

Se apoiando em outras linguagens artísticas, Natasha explora os lugares de sua escrita atravessada pelo hip-hop, pela dança, pelo corpo. Em É sobre fazer o poema rebolar, a artista dá notas sobre como a performance se emaranha ao seu trabalho.


Através de dispositivos outros, a escritora se lança ao objeto com desejo de encontrar novos modos para uma mesma comunicação:

“O que me interessa é a função da mentira dentro da linguagem, essa apropriação do blefe, da especulação. O flerte mesmo, a sedução do texto, da palavra. Escrever é o que precisa ser feito para além de tudo. É o desejo, a pulsão de morte, tesão, tudo junto.”, afirma.




Capa de Alga Viva

Júlia Vita


artista e poeta formada em Artes pela UFF, lançou seu primeiro livro de poemas Alga Viva (Editora Córrego), em 2019. Coautora do grupo de produção poética Laboriosa, gravou o disco Arthus Fochi e os Botos da Guanabara. Entre videoarte, performances, artes visuais e instalações, a artista constrói o projeto Trabalho Doméstico – exposto em 2020 no CMAHO (RJ) – e trabalha em obras de cunho político-ambiental, como Floral de Baque (2019), exposto no Espaço Apis (RJ) e no Centro de Artes UFF (RJ).



Suas poesias, publicadas pela revista mexicana La Crítica, pelo site Ruído Manifesto, pela revista digital Germiniana, e também podem ser lidos através de seu site.


As poesias de Julia falam sobre políticas afetivas, sobre os tênues avanços de sentimentos que transpassam os corpos que sentem – até sem querer, a autora escolheu como desbravadora de suas poéticas “uma perspectiva aquosa, que tem ritmo; da planta sem raiz, que dribla e nos ensina suas táticas; das coisas que se degradam e levam consigo a variedade do mundo - e dos pensamentos e gestos sobre o mundo.”


Relançado através de financiamento coletivo, Alga Viva renasceu nas redes sociais, com pré-lançamento dia 12 de setembro 2020, através do edital do Estado do Rio de Janeiro, contou com sorteios, leitura e bate-papo que você pode conferir acessando o instagram da artista. O livro, atualmente em sua 2º Edição, pode ser adquirido diretamente com a autora através do mesmo link.



Além disso, com a proposta do grupo Laboriosa, os poemas serão trabalhados musicalmente em uma pequena produção de 4 a 5 faixas de poemas gravados.






Sílvia Barros



é formada em letras, mestra e doutora em literatura brasileira pela UFRJ. Atualmente coordena o projeto Oficina mulheres negras e literatura, onde leciona como professora de português e literatura.


As escritas de Sílvia integram algumas coletâneas como Cadernos Negros [volumes 41 e 42], Negras Crônicas (Editora Villardo), 2019 e As Coisas que as Mulheres Escrevem (Editora Desdêmona), 2019, organizada por Luciana Lhullie.




Além de ávida pesquisadora na área de autoria feminina e autoria negra, desdobra seus estudos com artigos publicados em revistas, periódicos e livros que passeiam entre literatura e educação tanto em formatos físicos quanto digitais.


Sua tese de doutorado deu origem a O belo trágico na literatura brasileira contemporânea (Letramento Editora), 2019, fruto da pesquisa que envolve a beleza como elemento central nas vivências e socializações de mulheres. O signo, tido como trágico, é atravessado por questões de raça, classe e idade, mostrando como a construção narrativa de cada personagem em seus caminhos depende da descrição de aparências. A publicação contempla quatro obras de autoras brasileiras: Ponciá Vicêncio, de Conceição Evaristo; Sinfonia em branco, de Adriana Lisboa; Antonio, de Beatriz Bracher e Joias de família, de Zulmira Ribeiro Tavares.




Letícia Bassit


atriz, performer e escritora, formada pela Escola de Arte Dramática da Universidade de São Paulo e graduada em Comunicação Social pela Fundação Cásper Líbero, integra o Núcleo Feminino Abjeto dirigido por Janaína Leite, do Grupo XIX de Teatro, como performer e criadora, lançou seu primeiro livro Mãe ou Eu também não gozei, (Editora Patuá) em julho de 2019.


Atravessadas pelo teatro, pela dança, música e performance suas criações ganham desdobramento em colaboração com diversos artistas.




Em 2018 dá luz a Pedro, e desde então desenvolve uma pesquisa que revela o fazer-ser-artístico em seu primeiro livro que também se desdobra em apresentações teatrais.


A peça Eu Também Não Gozei, esteve em cartaz em São Paulo e segue sendo desdobrada através do tempo: o enredo da trama é baseado em fatos reais, que aconteceram com ela, tema que também compõe o livro.

Imagem: Divulgação/André Cherri

O título, Letícia conta, foi inspirado na frase de um cara, com quem ela saiu uma única vez, e de quem engravidou. "Nós transamos só aquele dia e eu engravidei. Quando descobri que estava esperando um filho, o procurei e ele falou: 'Não é possível que seja meu. Eu não gozei'. Aquilo soou muito forte para mim. Pô, eu também não gozei", diz.


Sem ter planos de ser mãe, o filho de Letícia nasceu, e ela diz que a maternidade foi a melhor coisa que lhe aconteceu.


As transformações corporais foram inspirações para escrever o monólogo, misturando vida real com ficção. As peças apresentadas por Letícia se constroem com a passagem do tempo: desde grávida até o momento do nascimento, a artista ainda procura desvelar, pouco a pouco, uma história que é contínua em seu cotidiano.



Atualmente, a pesquisa de Letícia passa a denunciar leis brasileiras que impedem os homens de assumirem os seus filhos, visto que até hoje, os possíveis pais se recusam a encarar um teste de DNA. Ruim para eles: a arte nasce do desconforto e encontrar brechas para questionar parece ser um caminho muito bem delineado para o fazer contemporâneo.




Yasmin Nigri


é mestre em filosofia, artista visual, poeta, crítica de arte e editora da Revista Caliban.


Co-fundadora da coletiva de artes e poesia Disk Musa e movimentadora do canal Alokadostutoriais, onde publica seus estudos de videopoesia.


Apesar de ser inédita em livros, tem poemas publicados em diversas revistas e jornais no Brasil e em Portugal.


Bigornas é o livro de estreia da carioca Yasmin, o trabalho surpreendentemente sólido é bem mais do que uma simples coletânea de poemas.



Construído sobre a ideia de formação poética e tangencia questões como solidão, violência e fracasso o livro se divide em quatro partes: Começando pelo começo, a autora reúne alguns de seus primeiros poemas, mais distendidos e bem-humorados (Rua de Ontem), passa por uma série dedicada a artistas que influenciam seu olhar (Recibos), por um romance entre mulheres (Mulher Malevich), até chegar à última parte (Bigornas), cuja concisão e densidade lhes atribui a eficácia dos golpes bem-assestados.



Para conhecer mais o trabalho de Yasmin, vem conferir a entrevista que ela deu aqui pra gente!






Janaina Abílio


cursa Português e Literaturas na Unirio e lançou seu primeiro livro de poemas e fica um gosto de cica na boca (Garupa Edições), 2019, além de já ter tido textos publicados pelo Bando Editorial Favelofágico, na antologia de contos Grãos e Imastigáveis, 2016, e nas revistas Vacatussa e Garupa.


A escritora também atua como terapeuta energética, utilizando técnicas do Thetahealing como ferramentas para o desbloqueio emocional e autoconhecimento, o que tem tudo a ver com sua escrita, uma porta aberta ao autodescobrimento diário.



Apesar de ter se reconhecido como escritora em 2015, Janaina sempre escreveu em blogs e graças ao carinho e aos incentivos de leitores, a autora se empenhou a produção literária , coisa que continua acontecendo desde então. Em entrevista a Mulheres que Escrevem, Abílio conta:


“Então muitas questões sobre pertencimento, identidade e um processo mesmo de reivindicar esse lugar de autoria, uma busca/construção do que é ser uma mulher afrodiaspórica que escreve [...] Diria que o processo é me cuidar, estar viva e ter algo em que possa anotar por perto. [...] Se a poesia cura, eu não posso garantir. Mas para mim hoje toda cura é possível, essa é a minha premissa como terapeuta. Antes escrevia em total desesperança. Hoje gosto de escrever tendo em vista o infinito”.




Angélica Freitas

formou-se em jornalismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), trabalhou como repórter para o jornal O Estado de S. Paulo e a revista Informática Hoje, em 2006 iniciou uma série de passagens e residências temporárias em países como a Holanda, a Bolívia e a Argentina, que com certeza influenciaram seu trabalho atual.


Sua primeira coletânea de poemas aparece com o volume Rilke Shake (São Paulo: Cosac Naify, 2007), que integra a coleção de poesia contemporânea "Ás de colete", dirigida pelo poeta carioca Carlito Azevedo, mas foi na Argentina que o trabalho de Angélica ganhou corpo, escopo e trabalho.


Em 2012, nasce um útero é do tamanho de um punho, que alcançou grande sucesso de crítica:

Capa de um útero


“Queria escrever sobre algum assunto importante para mim. E a coisa da mulher sempre foi um assunto para mim, por eu ser do interior do Rio Grande do Sul, por eu ser lésbica, por eu ter consciência disso desde muito pequena e por eu nunca ter me encaixado no modelo de mulher que era esperado, sempre me senti muito esquisita e questionava isso. Será que sou menos mulher porque não uso maquiagem, por que não uso saia? Mas o que é ser mulher, afinal?”




Assim, o trabalho da autora segue levantando questionamentos inquietantes sobre o universo feminino através do humor e da ironia. Revelando constatações sobre a falta de direito sobre o corpo da mulher, Angélica passeia entre as permissões derivadas do estado e da medicina que só nos dizem sobre o mais óbvio: a autonomia corporal é inexistente.


O que acontece com a mulher essa percepção aparece?

Entre poemas musicados e outros desdobramentos, Angélica Freitas se tornou obrigatória nos vestibulares do Sul do Brasil, apesar disso, a autora não vê o posicionamento político como obrigação, para ela “cada um sabe o que consegue fazer”.


Capa de Canções de Atormentar

Além dos trabalhos citados, em março a autora lançou Canções de atormentar (São Paulo: Companhia das Letras, 2020), que com o mesmo tom de inteligência e ironia, observa a si e ao mundo: desta vez, os poemas rememoram a infância no Sul, com o pé de araçá plantado pela avó, relatando o esforço inútil de tentar compreender o Brasil de hoje, discutindo a injustiça, o machismo e a nostalgia de uma nação que não passou de projeto.






Aline Bei

Capa de O Peso do Pássaro Morto

formada em Letras pela PUC, e em artes Cênicas pelo Teatro Escola Célia Helena, depois de ganhar o Prémio Toca, escreveu O Peso do Pássaro Morto, em 2017, e com ele foi vencedora do Prêmio São Paulo de Literatura de 2018 na categoria Melhor Romance de Autor com Menos de 40 anos e do Prémio Rio de Literatura, na categoria Prosa e Ficção.


Em seu livro, Bei presenta ao leitor a história de uma mulher sem nome, narrando a sua vida desde os 8 anos até os 52, numa vida marcada pelas perdas e interrupções:



a morte de entes queridos, a violência sexual, a maternidade indesejada, o isolamento.


A autora transforma a voz da personagem a medida em que o tempo passa, indo da uma menina que sonha um dia trabalhar como aeromoça, até a mulher silenciada, devastada por um sentimento de culpa, cada vez mais resignada com o seu destino e sua solidão.


A protagonista do livro, sem nome, é uma denúncia às mulheres que convivem com a melancolia, a autora explica que

“nunca ser chamada potencializa a solidão.

depois porque a história dela

infelizmente e absurdamente ainda é a história de muitas mulheres

que se calam diante da violência e por calarem

jamais saberemos seus nomes.”


Inspirada por Elizabeth Bishop [One Art], Aline mistura elementos da prosa e da poesia, distribuindo as palavras pelas páginas como forma de conferir um ritmo próprio à narrativa pois, nascida através do teatro, a autora descreve a escrita como um exercício de entrar em cena: “o exercício é sempre se colocar dentro da situação, afinal de contas, o ato precisa do corpo, e a escrita da palavra.”


Como algumas das mulheres citadas foram mais aprofundadas devido a entrevistas concedidas a Mulheres que Escrevem, vou deixar também essa dica para continuarmos descobrindo escritoras contemporâneas incríveis.


Nascida como uma newsletter em setembro de 2015, a ideia ganhou vida em conversas entre Taís Bravo e Natasha R. Silva, quando perceberam que muitas de suas angústias e inseguranças relacionadas à escrita se davam em consequência de discursos e estruturas sociais.


O projeto tem como subtítulo “Uma conversa entre escritoras”, pois o desejo ampliou-se de trazer outras mulheres que se dedicam ao ofício da escrita para um campo de trocas e descobrimento que, sabemos, é silenciado em muitas instâncias atuais.

Assim, o espaço se criou com segurança e mobilização para debates de novas possibilidades culturais e literárias, focadas na escrita de mulheres.


Hoje o projeto caminha pelas redes sociais, tocado por Taís, Natasha, Estela Rosa, Tati Vidal e Seane Melo, mas também ultrapassa os limites virtuais através de ciclos de encontros e eventos abertos, que possibilitam o alcance de muitas mulheres que escrevem.


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