• Matheus Lopes Quirino

Baseado no trauma, filme matiza maturidade de jovem francês disperso pelos fantasmas do passado

\\ CINEMA


Em Jonas, jovens têm vida abalada em um drama rápido, mas faltam explicações

Por Matheus Lopes Quirino


Poster do filme Jonas, de Christophe Charrier

A curiosidade matou o gato. Se não, ficaram as sequelas da paulada. Parece que o jovem Nathan (Tommy Lee Baik) foi apanhado. Ele é um menino curioso e briguento, cheio de si. Ao chegar na nova escola, conta uma história cabeluda para impressionar seu companheiro de classe, o tímido Jonas (Nicolas Bauwens). A cicatriz em seu rosto é o que lhe dá personalidade, diz a mãe, enquanto termina um cigarro horas antes de parir o segundo filho.

Dezoito anos se passam do encontro inicial, o filme abre com o Jonas transtornado em uma boate gay versus o seu eu de 15 anos recatado, de camisa da banda Nirvana, All-Star descendo as escadas de sua casa no dia em que a princesa Diana e seu parceiro Dodi Al Fayed morrem em decorrência de um acidente de carro. De repente, é 2015. E é por este Jonas (Félix Maritaud) abruptamente mudado por causa do que aconteceu em 1997, que o espectador sabe aos poucos o que houve muitos verões antes, na boate Paradise Boys.

O filme engrena num estalo. Jonas é um loser, arranja brigas com os homens da boate Boys, é expulso de casa pelo namorado, não tem o ombro dos pais, está machucado, sem dinheiro, triste e abalado. Vaga pelas ruas marcando encontros com usuários do Grindr. Ele sempre volta a Boys; é como se ele ainda sentisse forte as reminiscências que dominam sua mente de traumas a ver com Nathan. Em suas palavras, ele busca algo que não existe.

A interpretação de Félix Maritaud mantém os olhos tristes da criança que sofria bullying no ginásio, somente afagado pela relação com Nathan. O garoto desperta de seu estado frígido e catártico, a lembrança desse verão fica em um Game Boy, joguinho portátil febre dos anos 1990. Antes da tragédia acometer seu amigo, Jonas ganha o brinquedo que o acompanha pela vida. É a reminiscência materializada.

Rápido, previsível e discreto, Jonas é um filme xoxo, mas não ruim. Quando se espera mais, pronto: já está dado ao espectador. A trama corre rápida, não há muito o que desvendar. No entanto, a tragédia é diferente. Ele volta ao passado, busca tentar entender o que sente, juntar os fragmentos e cacos de vidro de um porta-retratos que nunca teve de fato. É um filme repleto de tristezas, como é a vida, às vezes.

Abalado, ele segue as pistas às mesmas boates, aos mesmos lugares que lembram o antigo amigo. O protagonista cai aos prantos com sinceridade. Tem seu joguinho pifado no final do filme. Está completamente perdido. A música do filme vai bem, os olhos tristes é o que salva o filme da alegria, e ainda bem.

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