• Matheus Lopes Quirino

Beijos proibidos

\\ ENTREVERES

O filme de Truffaut desnudou aquela figura que, mais uma vez, era retomada nas narrativas literárias, agora transposta ao cinema: o stalker

Por Matheus Lopes Quirino


Beijos, beijos e beijos. O assunto pautou o fim de semana devido à indigestão causada pelo desjejum profano do prefeito do Rio de Janeiro e seus atos censores e celibatários. Às pressas me lembrei de um filme que o Crivella não viu, chama-se Beijos Proibidos (1968), de François Truffaut.

A história se desenrola naquele outono francês quando o jovem Antoine (Jean-Pierre Léaud), recrutado para trabalhar em uma agência de detetives naquela inocência parisiense dos anos 1960/1970, por fim acaba se apaixonando pela mulher de um cliente, a também jovem Fabienne (Delphine Seyrig).

Desengonçado, Antoine começa a medir os paços da moça, acompanhando sua rotina. Marco do cinema francês naquele ano de ebulição política, leva-se muito em consideração a revolução cultural, o filme de Truffaut desnudou aquela figura que, mais uma vez, era retomada nas narrativas literárias, agora transposta ao cinema: o stalker.

O stalker, uma espécie de perseguidor obsessivo, no entanto, com o passar dos anos teve seu significado – não etimológico, mas prático – metamorfoseado. Essa semana a Vice publicou um artigo cuja (tentadora) chamada gritava: ‘hoje, somos todos stalker’.

Cuidar da vida dos outros, antes tarefa incumbida a profissionais como Antoine, hoje é feitio fácil para amadores. Basta tirar meia hora ou menos para desnudar a vida privada (em alguns casos, a ‘privada vida’) de qualquer um. Bem lembrou o colega escritor Marcelo Rubens Paiva, em sua crônica desta semana publicada no Caderno 2 do Estadão.

Ao que nos toca, o stalker, sobretudo, obtém uma seleta atração por seu objeto de busca frenética. Felizmente, a busca não ultrapassa as fronteiras virtuais na maioria das vezes. Uns expõem, outros curtem, outros odeiam. O assunto morre, exceto quando o stalker é um mandatário, por exemplo, de cidades como o Rio… e seus tantos beijos proibidos, para além dos quadrinhos – felizmente.


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