• Matheus Lopes Quirino

Beiramar

\\ ENTREVERES

Ele pensa mais um pouco e se repreende. Dá um passo em direção à janela, vê um farol bicolor em cima do rochedo da praia.

Por Mathues Lopes Quirino

Imagem Da serie fotográfica Valparaíso, de Sergio Larrain

-- O que poderia uma criatura, entre tantas criaturas?

Toca o telefone. Ele está sentado em sua cadeira de balanço, naquele apartamento espaçoso, no bairro de Ipanema. Seus olhos tristes miram as estrelas. Ele para um instante e, com um nó na garganta, finge não saber da existência da lágrima que percorre sua calva cachola – mas na verdade, era apenas uma gota de suor. Ele pensa mais um pouco e se repreende. Dá um passo em direção à janela, vê um farol bicolor em cima do rochedo da praia. As ondas quebram ali, como as lágrimas quebram nos cílios do poeta.


O farol, confessa, é invenção. Coisa de sua cabeça que maquina e projeta coisas ali de cima do castelo. Longe das ondas e dos perigos do mar, cujo cântico das serias o levariam a um destino nefasto, repleto de desgraças submarinas, ou um encontro com o próprio Tritão, a transformá-lo no mais frágil dos crustáceos, desses meio cegos que fogem na horizontal. Com medo, eles buscam refúgio contra as mãos gigantescas de predadores e humanos.

Cavouca a areia da praia em uma manhã bonita. Cavouca por não ter nada para fazer por ali. É tão, tão de manhã. Nem os vendedores de coco abriram ainda. E mais, naquele quadrante: não há um vendedor de coco, se quer uma edificação, uma faixa de pedestres. Nada, absolutamente nada. Ele apanha o sirizinho que, trêmulo a mexer as patas, parece se entregar com facilidade à marola da beira-mar. Seria o mar uma criatura mais piedosa que o próprio humano? Pensou.

Ele tinha medo daquela vastidão toda. Tinha medo de se deixar levar pelas águas do equívoco e, num passo falso, verter à loucura. Delirar num rodamoinho. Ser fisgado por tritão, estendido em um coral para que fosse dado a moreias e serias. Detestava a ideia de seu maior temor ser, também, a vista mais bonita de toda sua vida. E ele a fitava pela janela do apartamento. Aquela criatura, entre tantas criaturas...

Estava vestido de branco. Calça e uma camiseta simples, que realçava os contornos gregorianos. Era uma pedra de sal esculpida pelo próprio deus. A carregar com expressão séria as sacas de café até o navio. Ele estava lá, queimado do sol, fazendo seu trabalho sem reparar naquele campo fúnebre que era tapete de seu cais flutuante.

Porque os meninos não param um instante para ver: os barcos partem intransigentes. Seus marinheiros acenam para as mulheres. Há milhares de mulheres no píer. Todas com lenços balançando como se ali fosse o último adeus. E ao menos em uma delas, para reconciliar o adeus com a certeza, repousa um grão de girassol a florescer depois de alguma boa primavera.

E entre tantas criaturas, tenho medo de seus lenços e obrigações. Tenho medo da champanhe que explode no casco, dos cacos que ficam nos corações daquelas pobres coitadas que suspiram a entregar para o mar seus amigos, pais, amantes, filhos. Mas não só elas, daqui do meu alto partilho minha piedade, mais inútil do que todas as minhas forças escritas.

Passam-se as estações e os dias nascem cada vez mais preguiçosos. As praias estão vazias. Exceto pelos milhares, se não milhões, de caranguejos que se refugiaram debaixo das pedras à mostra, no balneário. Apenas vermelhos caranguejos. Todos alucinadamente adestrados para ficar onde estão.

O tempo para os caranguejos parou. Andam somente de lado e, sendo assim, impedidos de seguir em frentes, tornam-se verdadeiros observadores do presente. Ao ter ciência disso, desci as escadas do prédio na beira da praia e, certo de que desvendaria todos os segredos do universo, com um balde fui catando vários deles. De diversos tamanhos, cores, expressões.

Deveria coloca-los em um aquário ou fervê-los? Arrancar-lhes as carapaças ou tratar de chamar manicure e pedicure? Insensato desejo de os tirar do balde, quando consumado, daí o apartamento se viu infestado daqueles bichos. E todas as minhas forças não foram suficientes para os colocar novamente no balde de lata.

Sinceramente, estava certo de que estava confuso. E já não lembrava mais da teoria da sensatez dos crustáceos, ou porque eles estavam perambulando pela minha sala. Pensava somente em outra criatura, essa com uma casca duplamente mais dura do que a de qualquer vermelho que ali estava. Pensei em seus braços queimados de sal e sol do oceano. E quantas sacas de café carregava dia sim, dia sim, para o porão dos navios.

Já não ligava mais os pontos de toda aquela algazarra, desejando somente encontrar uma praia vazia no dia seguinte. Mesmo que fosse necessário recolher todos os caranguejos daquele lugar. Os dias passaram e não saí de casa. O mar estava agitado. O café perfumava a cozinha, ainda mais quando, por descuido, a a´gua fervia na chaleira.

Me livrei de todos os caranguejos e continuei espiando os marinheiros de meu apartamento. E reparando na quantidade de donzelas da cidade que lá estavam para molhar de sal o sol do corpo. Não reparava em coisa alguma, algum tempo depois. Exceto numa silhueta que se confundia com a luminosidade das estralas no mar durante à noite.

Ele estava sentado antes do amanhecer na beira daquela praia. Completamente vazio. Esperando alguém, certamente. Mas sem dizer ou alguém chegar. De repente, já o vejo içado junto à vela do barco, ou cavando sua própria cova antes que o mar engolisse a todos. Ele queria terra firme. Estava preso ao mar.

Nesse exato momento, algo pinica o dedo dianteiro do pé. Grito ardidamente: é um crustáceo. Provavelmente o último sobrevivente ali. Devia estar escondido em alguma caixa de sapato, ou até mesmo sapatos. Levantei-me da escrivaninha e o atirei longe pela janela. Em direção ao mar. Ali ia o último desejo em queda livre à escuridão, ao profundo, àquilo que trazia dúvida logo no começo da manhã, como uma marola, o que pode uma criatura, entre tantas criaturas, se não, a mar?

E assim dei-me por vencido. Fechei as cortinas no dia seguinte. Tomei antialérgico, água com gás. Fechei os olhos na cama para tornar a adormecer. Os dedos não pinicavam mais do que uma manhã escura na orla, ou como quando admirava o poeta em seu eterno bronze na praia de Copacabana.

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