• Giovana Proença

Bloomsday rememora gênio literário inovador de James Joyce e sua modernidade

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Se o Ulisses da epopeia clássica enfrenta mares e criaturas mitológicas, para o herói do romance moderno, os monstros se ocultam no cotidiano das ruas

Por Giovana Proença

Espelho INFINITO. O escritor lendo um jornal da época.

16 de junho de 1904. Leopold Bloom trava andança por Dublin em paralelo à jornada de Odisseu em retorno à ilha de Ítaca. “Fala-me, Musa, do homem astuto que tanto vagueou”, canta Homero no prelúdio da Odisseia. Se o Ulisses da epopeia clássica enfrenta mares e criaturas mitológicas, para o herói do romance moderno, os monstros se ocultam no cotidiano das ruas da metrópole em ascensão, marcada pelos primórdios do século XX, com o surgimento de uma nova burguesia urbana. Uma vez revelados os empecilhos, as vagueações de Leopold, o Ulisses - essencialmente- moderno, unem-se à interioridade no cenário de Dublin.


A modernidade literária muito deve ao escritor irlandês e seu magnus opus: os fluxos de consciência e a fragmentação dentro do romance emergem como técnicas maiores pelas mãos de James Joyce. O tempo que escorre no mundo moderno também se reformula nos moldes da epopeia dissolvida em romance. Em ares aristotélicos, os anos de jornada de Odisseu são condensados no intervalo de um dia.


16 de junho: Bloomsday. Na Irlanda, Leopold Bloom é comemorado. No mundo todo, é o único dia instituído em homenagem a um personagem literário. Começamos a delinear a força de James Joyce. Seu fluxo de consciência, que encontra maior potência em Ulisses, inovou a literatura ao reverberar a interioridade de seus personagens. O autor revolucionou a estética do romance junto da contemporânea de língua inglesa, Virginia Woolf, diferenciando-se, no movimento caótico de palavras e pensamentos, de aspectos do monólogo interior usado por escritores russos como Tolstói e Dostoiévski.


James Joyce nasceu em 1882 na Irlanda. O país não foi apenas sua terra natal. As ruas de Dublin são o cenário por onde transitam suas personagens envoltas pela interioridade que paira suspensa. Não há fuga. Embora mais notado por seus romances, em Dubliners, coletânea de contos publicada no ano de eclosão da Primeira Guerra, Joyce mostra sua proeza na narrativa breve e no início de suas experimentações com o fluxo de consciência. Repleto de epifanias, o estilo dos contos do livro podem ser sintetizados ao analisar o caso “Eveline”. O enredo é centrado na jovem Eveline, que entre o passado e o presente obscuros, vislumbra um lampejo de esperança na perspectiva de fuga com o marinheiro Frank. Perdida entre as memórias suscitadas pelas cenas banais e em conflito, ela desiste do futuro sonhado. Ao permanecer em seu lugar de origem, fecha a narrativa em círculo.


Em O Retrato do artista quando jovem, seu primeiro romance, James Joyce relata os anos de formação de Stephen Dedalus, pintando um quadro da juventude e do fazer artístico. A Irlanda é recriada nos campos sentimentais do jovem protagonista, espelhado em Joyce, que assim como o escritor, deixa o país. Esculpe-se uma afinidade com Goethe e seu Wilhelm Meister, no modo de lapidar o desenvolvimento de um artista em suas primeiras fases.


A voz narrativa de James Joyce, em seus tons de inovação, ressoam na literatura mundial. Os verdes da Irlanda do autor tingem o verde da bandeira brasileira. Hilda Hilst, Lygia Fagundes Telles e Caio Fernando Abreu incorporaram o uso do fluxo de consciência em seus escritos. Clarice Lispector, dama dos momentos epifânicos, foi além. Em gesto simbólico, o título de seu primeiro romance Perto do coração selvagem foi retirado de uma frase de O Retrato do artista quando jovem, romance de estreia de Joyce.


16 de junho, Bloomsday. Normalmente, milhares de pessoas comemoram a obra de Joyce nas ruas irlandesas. No resto do mundo, além de celebrações esparsas, milhões de transeuntes enfrentam os obstáculos mitológicos do cotidiano. Em 2020, uma programação digital é a alternativa para festejar Leopold Bloom e seu criador. Façamos diferente: em tempos propícios, nos voltemos para nossa própria interioridade, ecoando o fluxo de consciência, e nos vestindo no papel de personagens das empreitadas literárias de James Joyce.


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TÍTULO: Ulysses

AUTOR: James Joyce

EDITORA: Penguin/Cia. das Letras

ANO (EDIÇÃO): 2012

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