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Bons verdes frutos

\\ ESPECIAIS


De setembro de 1927 a maio de 1929, circulou no país um dos mais interessantes periódicos de arte e cultura no Brasil: a Revista Verde.


Redação,Frente & Versos

(Imagem/ reprodução).

Criada por um grupo artístico mineiro chamado Movimento Verde, a revista foi editada na cidade de Cataguases, em Minas Gerais, e até hoje é lembrada como um dos marcos importantes da vanguarda literária brasileira, sendo um objeto primoroso de estudos de pesquisadores do campo das letras e da comunicação. O periódico, feito por jovens aspirantes à carreira literária, deu não só as Minas, mas à história da imprensa alternativa brasileira bons frutos, de verdes aos de madureza protagonista, tendo recebido colaboração de nomes da primeira patente da literatura brasileira.

A “Verde”, logo então já ajambrada no cenário da imprensa alternativa, circulando como podia, alçada por patrocínios locais e incentivos fraternos, atingiu bons olhos e foi ativa na solidificação do movimento modernista em termos nacionais, pois representou a conquista do interior brasileiro e rejuvenescimento do modernismo, amparada no frescor e na juventude daqueles ambiciosos garotos. Pela primeira vez, uma publicação do interior era palco do debate intelectual, concretizando uma transição de escritores mineiros que conseguiram, no entardecer dos anos 1920.

Os integrantes fixos foram Henrique de Resende (diretor), Antônio Martins Mendes e Rosário FuscoAscânio Lopes, Camilo Soares Filho, Christophoro Fonte Boa, Francisco Peixoto, Guilhermino César, Oswaldo Abritta, Martins Mendes e Renato Gama.


Imagem: PUCRS

O projeto, que teve um total de seis edições, contou com a colaboração de outros grandes nomes como Carlos Drummond de Andrade, Mário de Andrade, Anibal Machado, Sérgio Milliet, Ribeiro Couto, Prudente de Morais neto, Antonio de Alcântara Machado, João Alphonsus, Godofredo Rangel e Marques Rebelo, entre outros.

Mario de Andrade, inclusive, não poupava esforços para garantir o sucesso da revista. Pedia para seus amigos todo tipo de ajuda, desde contribuições financeiras a artigos, além de auxiliar na venda da Verde, pois sabia exatamente o valor da revista para aquele momento único do modernismo brasileiro.

Cataguazes (Ascânio Lopes)

Para Carlos Drummond de Andrade

Nem Belo Horizonte, colcha de retalhos iguais, cidade européia de ruas retas, árvores certas, casas simétricas, crepúsculos bonitos, sempre bonitos; Nem juiz de Fora. Ruído. Rumor. Apitos. Klaxons. Cidade inglesa de céu enfumaçado, cheio de chaminés negras; Nem Ouro Preto, cidade morta, Bruges sem Rodenbach, onde estudantes passadistas continuam a tradição das coisas que já esquecemos; Nem Sabará, cidade relíquia, onde não se pode tocar, para não desmanchar o passado arrumadinho; Nem Estrela do Sul, a sonhar com tesouros, tesouros nos cascalhos extintos de seu rio barrento; Nem Uberaba, nem, nem, cidades arrivistas de gente que não pretende ficar: Nã-o ! Cataguazes… Há coisa mais bela e serena oculta nos teus flancos. Nas tuas ruas brinca a inconsciência das cidades que nunca foram, que não cuidam de ser. Não sabes, não sei, ninguém compreenderá jamais o que desejas, o que serás. Não és do passado, não és do futuro; não tens idade… Só sei que és a mais mineira cidade de Minas Gerais… Nem geometria, nem estilo europeu, nem invasão americana de bangalôs derniecri. Tuas casas são largas casas mineiras feitas na previsão de muitos hóspedes. Não há em ti o terror das cidades plantadas na mata virgem. Nem o ramerrão dos bondes atrasados, cheios de gente apressada. Nem os dísticos de aqui esteve aqui aconteceu. Nem o tintim áspero dos padeiros. Nem a buzina incômoda dos tintureiros. Teus leiteiros ainda levam o leite em burricos. Os padeiros deixam o pão à janela (cidade mineira). Teu amanhecer é suave. Que alegria de só ter gente conhecida faz teu habitante voltar-se para cumprimentar todos que passam. Delícia de não encontrar estrangeiros de olhar agudo esperto mau, a suspeitar riquezas nas terras. Alegria dos fordes brincando (são dois) na praça. (Depois vão dormir juntinhas numa só garagem). Jacaré! João Arara! João Gostoso! teus tipos populares. A criançada atira-lhes pedras e eles se voltam imprecando. Rondas alegres de meninas nas ruas, às tardes, sem perigo de veículos, papagaios que se embaraçam nos fios de luz, balões que sobem, foguetes obrigatórios nas festas de chegada do chefe político. Jardins onde meninas ariscas passeiam meia hora só antes do cinema. Ar morno e sensual de voluptuosidade gostosa que vibra nas tuas tardes chuvosas, quando as goteiras pingam nos passantes e batem isócronas nos passeios furados. Há em ti a delícia da vida que passa porque vale a pena passar, que passa sem dar por isso, sem supor que se vai transformando. Em ti se dorme tranqüilo sem guardas-noturnos. Mas com o cricri dos grilos, o ranram dos sapos, o sono é tranqüilo como o de uma criança de colo. Vale a pena viver em ti. Nem inquietude, nem peso inútil de recordações Mas a confiança que nasce das coisas que não mudam bruscas, nem ficam eternas.


(Reprodução/ Gov. Minas Gerais)



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