• Bruno Pernambuco

De onde não há mais volta

\\ TEATRO

Um espetáculo que, assim como seus personagens, está ligado ao espaço que lhe provêm vida, 45 Graus é um presente, uma (re)interpretação cheia de energia e que faz dela bom uso, dos detalhes das ações de seus personagens à grandiosidade de seus jogos de luzes e múltiplos palcos.

Por Bruno Pernambuco

Imagem: divulgação do Portal O Beijo


As lembranças verdadeiras são aquelas que existem sem justificativa para existir. É esse o rastro deixado após assistir 45 Graus, espetáculo cuja emoção persiste no público de forma retalhada e cíclica, mimicando a própria estrutura da montagem.

A introdução com a qual 45 Graus convida o espectador para seu universo é belíssima e emocionante. A recepção preparada antes do início da peça, elaborada em perfeito encontro com o espaço do sesc Av. Paulista, já começa a enfiar, pouco a pouco, no público a faca- naquele ângulo de 45 graus do qual não há mais volta. Nesse sentido, pouco importa que alguns dos elementos colocados nessa introdução- por meio de fotos e retalhos textuais- pudessem ser melhor trabalhados na dramaturgia.

O espetáculo acerta ao convidar a noite para dentro de sua própria matéria, e a vista longínqua do chamado coração de São Paulo coberto por um véu de tranquilidade suspeita e de solitude é tanto personagem de 45 Graus quanto os seres que habitam apenas os confins do palco. Sua música vibra por toda a apresentação, e (combinada com o excelente trabalho de iluminação) confere uma expressão particular àqueles habitantes.

Se a luz das cinco horas da tarde, como disse Da Vinci, empresta gentileza ao rosto dos homens, em 45 Graus as as caras estão todas tingidas da angústia e do contraditório vigor do fim de noite de terça-feira, quando já se sabe de antemão que o fim da história não é bom. A naturalidade com que o grupo Màli Teatro se apropria de A Dócil, novela de Dostoiévski que serve de inspiração para o projeto, trazendo-lhe para junto de uma história original e presente, demonstra o quanto a relação do grupo com a obra e com o autor é uma de amor e de um encontro criativo, e não de um falso respeito que, como se vê muitas vezes, apenas mascara um medo de agir de forma autoral sobre uma obra literária monolítica.

Dos cortes temporais feitos pela dramaturgia surgem histórias de personagens verdadeiros, de gente real, tomada pelo amor, se acotovelando na busca por um lugar na existência. O excelente trabalho se revela na naturalidade das cenas do casal de protagonistas, e na forma como seu mosaico de cenas compartimentadas, unido em torno do acontecimento principal da novela, cria uma história mais impactante e verossímil do que seria uma mera sequência temporalmente encadeada.

A trama, contudo, não aceita girar exclusivamente em torno dessa história- e aí se pode ver a ação do grupo, enquanto florescem outras vidas que, se de acordo com a época não teriam lugar na história de Dostoiévski, quando unidas sob um mesmo espaço, então mostram que seu peso dramático é tão denso quanto o dos personagens que preexistiam à peça. Se cabe aí uma crítica, é que a justificativa apresentada na dramaturgia para a existência de uma temporalidade que não é contínua é desnecessária, e acaba sendo um barulho incômodo na peça, que já se sustenta na força das atuações e das simbologias presentes em seu figurino, cenário e iluminação (a cena que inaugura o segundo ato do espetáculo, talvez o momento em que todos esses elementos melhor se juntam, é uma das coisas mais emocionantes que tive a chance de testemunhar recentemente, em qualquer forma de apresentação.).

Um espetáculo que, assim como seus personagens, está ligado ao espaço que lhe provêm vida, 45 Graus é um presente, uma (re)interpretação cheia de energia e que faz dela bom uso, dos detalhes das ações de seus personagens à grandiosidade de seus jogos de luzes e múltiplos palcos. Com todos os seus elementos, é tecido um mundo que o público se sente convidado a explorar, e que gera uma memória que não vai embora- nem que seja na forma de um grito que não deixa de ecoar.


***

SERVIÇO

Local Sesc Avenida Paulista – Av. Paulista, 119 – Bela Vista – São Paulo.

Temporada Até 4/12. Terça e quarta, 21h.

Ingressos R$ 30,00 (inteira), R$ 15,00 (meia-entrada) e R$ 9,00 (credencial plena Sesc)

Classificação: 14 anos

©2019 por Frente & Versos. Criado com Wix.com