• Lia Petrelli

Cartas de Amor Não se Devolvem

\\ ALEXITIMIA

Das coisas que sobram, a falsa compreensão é que grita, esperando que outro possa entender tudo que veio antes

Por Lia Petrelli





Ciclos que se completam soam como ritual sagrado, desses que não podem se materializar noutra coisa que não textos.

A palavra só é concreta no papel.


Não passa nada que duas emoções convivam harmoniosamente passeando pelos órgãos. O que passa e faz mal é engolir o que tá quente e queima a língua, a boca do estômago, mesmo.


A imagem são dois corpos que, acorrentados num caminhão de carga pesada, berram para o motorista: “Pisa fundo!”.

Imagine! Saindo das próprias bocas comando e desejo de desastre, pelo puro prazer de verem, eles mesmos, o dilacerar no asfalto.


É simples e triste – por mais que não precise, necessariamente, dessa última parte – o que acontece: um não sabe o que é amor e outro não sabe nem o que é.


Perambulam pela vida como desinteressados exatos no que os compõe.

Mas não deve haver hipocrisia: a escolha de um parte justamente do princípio de outro não se conhecer, de não se interessar.

E é assim: já que outro não sabe o que é, como pode enxergar o um?

Num quase-sonho lúcido, se trucidaram, acreditando que o amor é só o que enclausura o corpo-cárcere. Das coisas que sobram, a falsa compreensão é que grita, esperando que outro possa entender tudo que veio antes.


Ninguém quer saber do agora.

É a estória que conta.

Sim e não.


Quando o todo é natural, a coisa é genuína, até vá lá…

O impositivo aparece para não deixar que nada reste além do amor morto e frio. Projetando inseguranças que não têm como participar da relação, o caminho segue impensado.


Inventaram a liberdade infundada – justamente porque faltaram no momento de conhecer a pessoal: queriam engolir e só.

A multiplicidade foi cortada e como um num nó, não multiplicaram nada.

A crueldade toda vem do medo de ficarem sozinhos (e ninguém soube falar disso).

Um trancafiou a voz e as mãos numa caixa de pandora, no desespero de libertar o corpo móvel. Assim procuraram, em par, o abismo.


É bem difícil escrever sobre o que já não se sente, como se os anos passados não fossem nada além de um delírio arquitetado: já não lembram de ter amado porque o amor é, hoje, um lugar esquisito e diferente.


Nada há com corpos carentes de contato e carinho. Não. Só com coisas boas que nascem e continuam crescendo longe da gente.

Tento não usar palavras já escritas por outros poetas, mas cabe tão bem o que Caju canta: “Obrigado por não ter voltado pra buscar as coisas que se acabaram e, também, por não ter dito obrigado, ter levado a ingratidão bem guardada.”

Percebe: está tudo muito bem amarrado.

A vida segue linhas interessantes e parece mesmo que o universo confluí na união do todo.


Um sente tanto que esse amor inventado não tenha podido marcar a vida como deveria; o morno-quase-frio do que tiveram é bege-gelo, cor de nada.


As memórias que sobram de um são de uma pessoa-passado obcecada, que agora já não há e o pensamento vem da calma, do pensar lúcido e alto.


Nada mais retorna par’quela coisa que martelava os dias inteiros: não ser bom o suficiente porque outro não fez questão que fosse. Preferiu deixar que um comesse a pele inteirinha, abstendo-se de todas as coisas que é.

Sim, todas as coisas que implodem o fígado e acabam explodindo na calmaria das orlas do ar de conhecer a si mesmo.


No fim não resta nem sequer amizade, pelo desinteresse das partes.

Por perceber aquele outro estranho como comum e medroso: do tipo que tem medo do espelho, mas não da imagem que inventa pros desconhecidos verem pela telinha do celular.


É mais fácil, claro, fingir o que se é, ao invés de ser.

Concretizadas, as palavras no papel ditam bem a diferença que nunca pôde unir nada: um não quer que o corpo continue carregando as marcas do asfalto que ralou tudo até sobrar nada, sabendo que as cicatrizes demoram a sumir; outro não consegue se dar conta dessas marcas já que se apavora com ideia de ter encarar o reflexo, em qualquer vidro que seja.

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