• Giovana Proença

Dialogando diretamente com a literatura, Caco Galhardo transita entre o humor e a crítica

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Em conversa, cartunista exalta o momento ridículo que a humanidade vive na pandemia e alerta: "vai dar merda".

Por Giovana Proença


(Foto: Kraw Penas/SECC).

“Quanto mais destrambelhada a política de um país, melhores são os chargistas. Por isso o Brasil tem tão bons chargistas.”, Caco sintetiza o caráter fundamental de sua produção: a mescla magistral entre o humor e a crítica, a essência do cartum. O cotidiano, incluso as decisões moldadas por mãos políticas, é a matéria-prima da percepção sarcástica de Galhardo. As pequenas catástrofes sociais rotineiras são o conteúdo da produção do cartunista, que sabe espremer bem a tal limonada dos limões que têm sido lançados aos brasileiros quase diariamente. “No dia que tivermos bons políticos, não teremos mais tão bons chargistas.”, prevê.


Criador da célebre tira Os pescoçudos, publicada na Folha de S. Paulo por mais de dez anos, Galhardo adentrou o mercado editorial. Em 2019, ele publicou Cinco mil anos – E (quase) todas as tiras pela Companhia das Letras, um compilado de sua extensa produção de mais de vinte anos como quadrinista. Leitor, Caco defende a Literatura e a identificação com o livro, “Você jamais pode perder tempo com um livro que você não está afim de ler, porque tem muito livro bom.”. Graças às suas hábeis mãos, o cânone ganhou espaço na banda desenhada, Galhardo adaptou o clássico Don Quixote, de Cervantes, para os quadrinhos, e defende o contato com a essência de livros considerados complexos para o público jovem e escolar.


Nesta conversa curta com a Frentes Versos, feita a distância, Caco Galhardo enaltece a tradição brasileira dentro dos cartuns e sua evolução. Lista o valor do humor no pioneiro O Pasquim, em Ziraldo e Millôr e posteriormente em Angeli e Laerte. O mercado está em ascensão. Nosso cenário é um prato cheio para o valor crítico das charges: “Em toda sua história, a humanidade nunca foi tão ridícula”, afirma o cartunista, arrematando que estamos repetindo história. Quando questionado sobre a mensagem que quer passar com seu trabalho, a mira é certeira: Arrependei-vos!


(Imagem/reprodução: acervo virtual do cartunista).

Frentes Versos: O que você pensa sobre o mercado editorial dos quadrinhos e do movimento de integração com a Literatura?


Caco Galhardo: A gente sempre torce para que os quadrinhos tenham uma penetração legal no mercado, que a gente tenha mais pessoas lendo quadrinhos. É uma paixão, somos movidos pela paixão. Começou essa coisa de desenhar clássicos, adaptar clássicos para quadrinhos e a gente viu que isso era muito bom pra escola, pra molecada.


FV: Qual a sua relação com a Literatura?


Caco: Eu amo a literatura, eu sou uma pessoa que lê muito. Existem tantos livros escritos no mundo, temos tanto acesso. Se você quiser saber quem é o escritor holandês mais legal, você descobre, vai atrás. Cada país tem alguma coisa muito legal para você ler.


FV: O que você pensa da fuga da literatura clássica? Você acha que os quadrinhos colaboram para isso?


Caco: Você jamais pode perder tempo com um livro que você não está afim de ler, porque tem muito livro bom. Eu gosto de ler aqueles casos que eu chamo de livros irmãos, eu falo “Isso dialoga muito comigo, ele é meu irmão”, eu me sinto como se fosse irmão dele. É uma delícia quando se chega nisso. Quadrinho é outra coisa, você também vai encontrar os autores com quem você se identifica. No final, tudo se resume a essa identificação, aquilo bate, você fala:

"Que incrível!". Eu acho que os dois são legais, os quadrinhos e a literatura, e cada um te dá alguma coisa diferente.


FV: Você já adaptou Don Quixote para os quadrinhos, como você vê a adaptação de clássicos?


Caco: Às vezes que você lê o Don Quixote inteiro, você é muito novo e vai estragar sua leitura. Você não tá na idade de ler Machado de Assis, Homero ou Cervantes, um quadrinho de quarenta páginas é uma redução, mas também é um portal. Todo mundo conhece Don Quixote mas

poucas pessoas leram, e é genial. Essa adaptação que eu fiz é um portal, você pode entrar em contato com a essência do livro e conhecer um pouco mais e é muito válido esse contato.


(Imagem/reprodução: acervo virtual do cartunista).

FV: Qual é o lugar da tradição brasileira dentro dos quadrinhos?


Caco: O Brasil sempre teve a tradição de bons quadrinistas. Começou lá atrás com O Pasquim, cartunistas de humor, a gente tinha essa tradição, o Ziraldo, o Millôr, depois teve Angeli e Laerte. Hoje a gente tem uma geração não mais ligada ao humor, e que faz as graphic novels, traduzindo e exportando, a gente sempre tem uma tradição rica de quadrinho no Brasil.


FV: O que você pensa sobre o caráter político dos quadrinhos?


Caco: Quanto mais destrambelhada a política de um país, melhores são os chargistas. Por isso o Brasil tem tão bons chargistas. Desde antes da genial geração do Pasquim, somos bons nisso. Mesmo que a gente não queira falar em política, os políticos não deixam, diariamente nos esfregam na cara um vasto conteúdo para expormos o absurdo de suas ações. A charge política mostra a verdade de maneira clara e rápida. No dia que tivermos bons políticos, não teremos mais tão bons chargistas.


(Imagem/reprodução: acervo virtual do cartunista).

FV: Você tem usado o Instagram para postar quadrinhos sobre a condição caótica do mundo e do Brasil, como você pensa essas críticas?


Caco: Em toda sua história, a humanidade nunca foi tão ridícula. Perdemos o senso do ridículo, o que por um lado é até bom, mas por outro, chega a ser deprimente. Vivemos uma época de grande transformação, em que a tentativa de evoluir está tendo uma resposta feroz dos setores conservadores, que tentam a todo custo brecar essa evolução, liderados pela extrema direita. Vai dar merda. No século passado, deu na segunda guerra mundial e a evolução, a grande transformação social, se deu só nos anos 60. Estamos repetindo a história, mas com um agravante, no século passado eles não tinham a crise climática com a demanda de uma mudança no sistema econômico. E nem o Instagram e o TikTok.


FV: Para você, qual é o lugar das redes sociais em relação aos quadrinhos?


Caco: Sobre redes sociais, é o meio de comunicação mais abrangente. Cartuns funcionam muito bem no Instagram e todos os cartunistas estão lá, colocando seus trabalhos. Charges e cartuns são muito melhores do que selfies e fotos de pratos de comida.


FV: Qual a principal mensagem que você quer passar com seu trabalho hoje?


Caco: Arrependei-vos!

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