• Lia Petrelli

CASA = ESCRITÓRIO

\\ ALEXITIMIA [quarentena]


Tenho notado, com cuidado, como estão se desfazendo as relações – não sei se devastando será a palavra correta.

A linha reta ainda não foi traçada, ela deve vir sozinha.


Todos os nossos pensamentos estão embaralhados, né?

Aqui vão os meus:


Esse texto é sobre o tempo. Sobre a delicadeza do que se construiu enquanto sociedade. Sobre a dificuldade de unir a casa ao trabalho. Sobre a mudança do conteúdo que deve ser debatido. Sobre as inúmeras possibilidades que emergem de nossas vontades, desejos, que não podem ser saciadas, por hora.


As próprias relações que habitam o mesmo ambiente têm tocado em assuntos demasiado importantes e cada vez mais debatíveis... A comunicação tem sido elaborada, os assuntos-difíceis-demais finalmente fazem parte do vocabulário anatômico das-conversas-diárias. Mesmo assim não é suficiente para que nossas próprias vontades sejam sanadas.


É preciso compreender: a diferença dos momentos que existiam lá fora e que não podem deixar de existir aqui dentro. O tempo de descanso do outro precisa existir para que seja, ao menos, tolerável a convivência.


De repente o espaço ficou pouco. Alguns barulhos que existem não podem ser alcançados na presença de outros tantos pavores que habitam o agora, a realidade. Os números não vão parar de subir, mas os olhares podem deixar de vê-los. Não vai fazer com que seja menos verdade, nem menos assustador, menos caótico.

Nada será menos.


O isolamento – que acarinhei de “recolhimento” (por causa de uma professora querida) – precisa do emocional estruturado. Como fazer isso? Temos empregos e horas para cumprir. Temos prazos e disciplinas importantes para continuar esmiuçando o que, deveria, ser insaciável: conhecimento. O complicado é unir tudo num só ambiente.

Né? É.


Meu escritório é o meu quarto de dormir. O meu quarto de dormir é o meu descanso, é minha hora de assistir série boba pra re-la-xar. Agora são os dois.

É o escritório-quarto-de-descanso-e-de-trabalho.

Não vou mentir: tenho facilidade em unir tudo numa coisa só.

O mercado que me acolheu disse isso em claro e bom tom: "não dá pra ter só um trabalho, tem que ter um milhão."

De segunda é pintura, de terça é leitura, quarta-feira é psicanálise, na quinta eu cuido da direção de arte, na sexta até que vai uma bebida para acalmar os nervos enquanto o desing é feito e a música toca alto. Sábado-Domingo até podem ser lazer, mas também são trabalho: o show do fim de semana vai dar material para a escrita.

De todos os entre-tempos, escrevo.

Durmo colada ao caderno.

Foi assim que aprendi a trabalhar.


Mas hora ou outra vejo minha mãe – amarrada a mim 24 horas por dia, como há muito não fazíamos –, lutando infinitamente para unir o escritório a casa. É complicado.

Aí que entram as conversas: cada vez mais profundamente esquisitas. Nunca pensei em conversar com a minha mãe sobre os comportamentos tóxicos que são reproduzidos. Nunca pensei em mim como uma pessoa difícil. Claramente somos. As duas. Completamente incompatíveis.

E agora?


Sábado-Domingo virou o meu recolhimento dentro do isolamento. Apostei comigo mesma que durante duas semanas vou pintar um quadro por dia. Tenho medo, mas sei que preciso.

Além de todo trabalho já feito.


-Não posso conversar com você enquanto tenho tintas nas minhas mãos, Mãe. (E ela sai do ateliê, cabisbaixa)


Por duas semanas não entrei no ateliê. Era difícil demais me encarar ali dentro. É difícil entrar no espaço do pensar sabendo que existem monstrinhos prontos para me devorar por completo.

Mas, ei, é necessário. Se você passar o tempo inteirinho se preocupando com o lá fora, quando é que vai arrumar a casa, dentro? Não vai. Não cabe.


O café da manhã, sagrado, ainda precisa ser. O se trancar no quarto e pensar, chorar, gritar, esmurrar o colchão, é precioso.


Quais são as coisas que você sempre fez para ex-tra-va-sar?

Não pode não fazer!

É um crime contra você!


Chega de internet. Eu sei que é bom.

Eu também perco horas no instagram.

Mas ainda faz mal. Ainda existe o não-virtual.


Semana que vem eu ligo para os meus amigos

(não dá para sobreviver só. O ser humano não é assim, ermitão).

Mas essa semana eu preciso de mim.


(Imagem de capa: Recorte de caderno pessoal, Lia Petrelli, 2020)

©2019 por Frente & Versos. Criado com Wix.com