• Matheus Lopes Quirino

[Resenha] Por olhos de menino, romance reflete as intempéries dos amores avulsos de uma vida

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Tensão agridoce tempera romance que trafega entre as intermitências da morte e do amor


Por Matheus Lopes Quirino

Victor Heringer, autor de "O amor dos homens avulsos"

“Quando eu morrer, sei que alguém vai entrar aqui e enfiar tudo o que é meu numa caixa de papelão, que vai acabar numa caçamba dessas. Espero que alguém a encontre, porque dentro vão estar meus cadernos, a foto do menino avulso […]; minhas coisas têm alguma memória…”. Em O Amor dos Homens Avulsos (Cia. das Letras, 2016), o narrador Camilo, agora já com cinquenta anos, mergulha em um banho reflexivo e existencial; o livro, como uma expedição submarina ao âmago sensível do escritor Victor Heringer, morto em 2018 aos 28 anos, dá ao leitor tesouros da tênue fronteira ficcional-pessoal, com qual Heringer tratou seu Amor.


O jogo narrativo é deveras peralta, visto que o pequeno Camilo, ao dividir a narração com o já fatigado Camilo de meia idade, faz um passeio nostálgico pelas ruas do Queím, bairro ficcional do subúrbio do Rio de Janeiro. Nas vias de paralelepípedos e chão de terra batida das partidas de futebol, a narrativa pulsa os desejos, peraltices, desconfianças e os modismos da pré-adolescência no final dos anos 1970, tipificando, a pormenores, quem são os coadjuvantes da história e denotando, perfil a perfil, suas vitais importâncias na construção do próprio protagonista.


Ao mesmo tempo que o filme na infância dos “pés descalços” descortina o cenário do subúrbio, há um distanciamento entre os personagens e o protagonista – este essencialmente doce, inventivo, reflexivo, adiantado na educação sentimental em relação aos outros. Camilo que andava de sandálias — até então resguardado em seu mundo na casa mais bonita do Queím (seu pai era médico) — só se aventurou nas ruas do bairro com a chegada de Cosme, seu companheiro de aventuras e desventuras.


As aventuras dos meninos do Queím são trabalhadas detalhadamente por um jogo pueril de descobertas: hora amáveis, hora violentas. Os contrastes da inocência e do processo de amadurecimento dão-se por uma série de episódios acerca do microuniverso dos garotos, de como a infância pode ser demonstrada e posta à baila por diferentes tônicas e educações; o narrador tampouco se preocupa em questões herméticas de “certo-errado”.


Conforme a leitura engrena são desenroladas tensões sofisticadas que abordam complexidades sensíveis como o amor, a morte e suas intermitências. O misticismo é tema recorrente no livro. Seja pelas superstições fantásticas às lendas do bairro, ou pela multifacetada exploração à abóboda dos amores nutridos por cada citado, exclusivamente, pela ótica do protagonista em cada pingo de tinta deixado no escrito. Camilo amou Cosmimcomo Romeu amou Julieta, como os poetas amaram, como George amou Jim.


As intermitências do amor e da morte são presentes e recorrentes no Amor. Sutileza e profundidade fundem-se em um baque catártico e, posteriormente, reflexivo que decodifica cada papel avulso deixado por Camilo. São cento e cinquenta e cinco páginas; este foi o último livro de Victor Heringer.


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TÍTULO: O Amor dos homens avulsos

AUTOR: Victor Heringer

EDITORA: Companhia das Letras

ANO: 2016



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