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Chuva de lembranças

\\ CONTOS

Podíamos conversar sobre tudo enquanto eu bebia cerveja e ela Gin tônica, aí a gente ia no motel mais próximo e depois de transar a gente conversava mais. Ela nunca quis me falar o nome dela e também não deixava eu falar o meu.

Por Sara Beatriz Rodrigues, colaboração para Frentes Versos


SEM TÍTULO (Cena de Rua Baiana), João Alves, 1954. (Reprodução: Enciclopédia Itau Cultural).

Olhos próximos, caídos como a esperança que se esvai. Muitos e pequenos respingos pelo rosto. Sardas. Sempre amei. Um loiro acobreado, moldura ondulada com franja. Fino em cima um pouco largo embaixo e especialmente arrebitado: decorado com duas argolas. Um charme que eu nunca gostei. Desci o olhar. A boca sempre carregando um ar sarcástico. Pequena e grande, estreita e carnuda. Ela amava umas modificações corporais. Furos não eram comigo, mas agulhas sim. Ela não gosta de agulhas.

- Você sabe se ela já chegou? - Perguntei pro Zé.

- Qual das? - Respondeu rindo enquanto secava um copo.

- A loira com sardas e piercing.

- Ah. Ainda não.

- Hm... Me vê outra cerveja e uma porção de fritas.

Fiquei ali olhando o ambiente, um grupo de amigos conversava animadamente, umas pessoas sozinhas no balcão bebendo e assistindo à TV e outros na porta fumando. Me deu vontade de acender um também. Não sabia o nome dela. Podíamos conversar sobre tudo enquanto eu bebia cerveja e ela Gin tônica, aí a gente ia no motel mais próximo e depois de transar a gente conversava mais. Ela nunca quis me falar o nome dela e também não deixava eu falar o meu.

Lembro como se fosse ontem, eu olhando ela no balcão do bar, pensei que estava sendo discreto, mas ela levantou e no caminho pro banheiro sussurrou “até um pavão é mais discreto”. Quando ela voltou eu ofereci uma bebida e papo vai, papo vem acabamos passando a noite juntos.

- Acho que não falei, meu nome é-

- Shiiu... - Pressionou o indicador nos meus lábios.

Peguei a ultima batata e olhei pela grande janela de vidro. As árvores balançavam violentamente. Ia chover. O bar já tava mais vazio e pareceu sensato ir pra casa antes da tempestade.

- Já vai? - Com um ar de indignação pergunto o Zé.

- Ah, já. Se é pra ficar sozinho prefiro ficar em casa com meu gato.

- Boa noite então. Vai lavar a cara pra nao acabar em uma sarjeta. - Riu.

Pro Zé você podia ter bebido todas, mas se lavasse a cara já tava sóbrio. Subi o zíper do moletom ao sair e ser recebido por um beijo gelado do vento. Aquela noite estava especialmente escura, mas podia ser só minha vista já escurecida. Assim que avistei o ponto de ônibus ouvi passos rápidos e um pulo sobre minhas costas.

- Mas que merda é essa? - Esbravejei ao virar pra ver o que diabos tava acontecendo.

- Surpresaaaa. - Cantarolou alegremente com um sorriso sapeca.

- Isso são horas? - Indaguei forçando uma expressão de bravo pra pessoa que esperei a noite toda.

- Tava presa com umas coisas. Desculpa? - A desculpa com o olhar mais malicioso que alguém já viu.

A chuva caía impiedosamente lá fora. Os lençóis amarelos exalavam cheiro de amaciante e sexo. O sol devia estar pra nascer, mas o contorno do seu corpo nu ainda era acolhido pelas sombras do quarto. Não lembro como vim parar no apartamento dela. Levantei e fui explorar o ambiente, notavelmente carecido de mobília. A geladeira tinha latas e latas de energético, um saco de pão de forma pela metade, dois potinhos de iogurte de morango e manteiga. Na varanda da área de serviço acendi um cigarro enquanto varria os olhos pela cidade ensopada. Se espremesse bem os olhos dava pra ver os navios cargueiros chegando no porto pra descarregar. Apaguei o cigarro na grade molhada e entrei sendo abraçado pelo calor do apartamento. A sala tinha uma mesa de centro e umas almofadas pelo chão. Voltei pro quarto e o ranger da porta fez ela se contorcer na cama. Ainda admirando o corpo estendido sobre o colchão fui atingido pelo leve abrir de olhar e seu olhar felino.

- Bom dia... - ela desejou com um bocejo.

- Bom dia. - Respondi enquanto voltava pra cama.

Agora, nessa noite semelhante àquela de décadas atrás, no bar do Zé, sou acometido por um turbilhão de sentimentos da minha juventude quando começa a tocar Tim Maia. Não tinha como eu saber que aquela seria a última vez que a veria. Até hoje acho que foi tudo um princípio de esquizofrenia minha.

Se eu soubesse onde ela foi iria atrás, mas não sei mais.

Ela partiu, e nunca mais voltou.


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