• Bruno Pernambuco

Circunspecções da Ilha

\\ CINEMA

A obra de Rossellini é regida sobretudo por uma permanência da memória que nunca se desvela completamente

Por Bruno Pernambuco

Cena de Stromboli, de Roberto Rosselini (Imagem/ Reprodução).

[Aviso: a crítica abaixo contém spoilers]


A obra de Rossellini é regida por elipses temporais, fragmentos que são apenas parcialmente explicados no discurso, e sobretudo por uma permanência da memória que nunca se desvela completamente, mas que determina irremediavelmente o destino de seus dois personagens principais. Stromboli, filme clássico do neo-realismo italiano, contrapõe, à primeira vista, uma força elaborada, racional, reflexiva e metafísica a uma força bruta, agressiva e primitiva. Esse ataque ingênuo e troglodita, contudo, se mostra ser apenas a parte menor, e menos consciente, da permanência de um passado, que tem na manutenção dos costumes antigos a retificação da vida absolutamente pobre, em que as relações de poder não tem qualquer elaboração, a imagem religiosa se antepõe à realidade de uma forma literal e os castigos divinos estão abertamente apresentados.


Aí se explica uma diferença entre Karen e seu marido: a memória do pescador é simples, rudimentar, e no mais absoluto explícita e literal, traduzida no apego a uma terra parada no tempo enquanto a dela é críptica, sinuosa e reflexiva - e, afinal, nunca é conhecida com a certeza da veracidade. Não à toa, olhando para as construções iniciais do filme, no campo das prisioneiras, ou no interior da casa na ilha, ou pelas lajes da arquitetura mediterrânea, se percebe como Karen está sempre passando por espaços labirínticos, fechados, direcionados, o que se tornará um contraste ainda maior com a vida e com o trabalho de seu marido, ligado àquela parte masculina do mar, e ao desespero existencial do pescador. Antonio, porém, tem um reflexo oco, quando seu rosto se reflete na água, e por fim seu único traço é a manutenção do passado, da estrutura tradicional do casamento, pois é como se manda, da devoção literal à mãe como Nossa Senhora e do elogio ridículo da terra, incapaz diante do confronto com um inimigo divino. Seria um pobre coitado, um bobo humilhado e ridículo. Quando tudo está feito, contudo, Karen consegue escapar, e a tragédia de seu destino envolve o confronto com o próprio impasse, enquanto ao marido é impossível deixar a ilha, mesmo que dela se saia. As viagens forçadas pelas campanhas do exército, e a experiência da paixão, de tal forma que jamais se pode fazer naquela vida desolada, não são suficientes para humanizar o homem, e para trabalhar uma força que se apresenta numa forma tão primitiva e rudimentar.

A força epifânica, simbólica e literal, do vulcão se mantém até o último momento do filme apenas como ameaça, como permanente magma, sugerindo ocasionalmente o fim apoteótico, que define os movimentos da terra; como olhar rigoroso sobre a ilha ameaçando a punição. A imagem agridoce do nascimento anunciado depois da eclosão já traz em si, de fato, a verdade sobre o pecado imperdoável: é certo que o bebê não nascerá na ilha; por conta de quem o carrega, o destino já está traçado- é impossível que aquela vida animalesca se retifique por mais uma geração. O impasse final, e o grito desesperado perante Deus são a manifestação imagética de uma vida absolutamente desamparada e, simultaneamente, tão atormentada pela própria memória, pela criação, pela força, pela criatividade e pela cultura que é incapaz de se diminuir à salvação que lhe foi atirada.


Esse retrato, contudo, é absolutamente multifacetado. A resolução trágica de Stromboli é, afinal um retrato de uma civilização, e de uma cultura burguesa liberal, aparentemente seguras, arrasadas com a violência da guerra de rapina, e assim enterradas por uma mudança histórica. A imagem é claríssima, ao mostrar que quem pode sobreviver nos destroços é aquele povo a quem a liberdade, o iluminismo, a cultura, nunca realmente chegaram- é quem tem sua forma de vida estruturada a partir da ruína, do desastre, cuja vida não tem separação desse dado imediato da terra e da segurança pobre que o terreno oferece, e cujo destino está inteiramente atrelado à sorte da ação divina, (da qual a ameaça apenas aprofunda a repressão do catolicismo mais primitivo e menos elaborado quanto às dimensões da alma). Rossellini apresenta um dos primeiros retratos da retomada dessa civilização passada, através de um inconformismo visceral e instintivo frente a essa administração dos escombros. Com a perda do amparo de Deus, no entanto, essa luz da cultura não tem para onde se mover, nem clareza quanto ao quê construir. Num grito final não lhe resta mais que remoer o próprio passado, enquanto o futuro já está forçosamente anunciado em si.


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[Assista aqui a Stromboli, de Roberto Rossellini]

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