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[Resenha] Clássico da literatura norte-americana, Mulherzinhas é adaptado para o cinema e reeditado

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Para grandes debates, obra é um tratado da vida interior da mulher do séc. XIX


Por Giovana Proença


Cena do filme Mulherzinhas (Little Women, 2019), de Greta Gerwing


Com traços autobiográficos, a mais célebre obra da escritora norte-americana Louisa May Alcott, Mulherzinhas chegou ao público brasileiro em nova edição com tradução de Julia Romeu (Penguin), concomitantemente à estreia do filme homônimo, com direção de Greta Gerwig, que concorreu pelas principais categorias no Oscar 2020, entre elas Melhor Filme e Melhor Roteiro Adaptado, saindo com a vitória em Melhor Figurino.

A narrativa tem como contexto histórico a Guerra Civil Americana, e mostra de forma sutil as consequências dessa para as famílias. O livro acompanha os anos de crescimento das quatro irmãs March: Jo, Meg, Amy e Beth e seu charmoso vizinho Laurie. A narrativa leve e fácil surpreende para uma obra do século XIX e é justificada pelo público-alvo de Alcott ser as jovens mulheres da época.

Se a linguagem fluida possibilitada pela tradução torna o enredo divertido na exposição das contradições, os laços das quatro jovens são trunfos para o leitor do século XXI que refrescam o moralizante da narrativa, o que pode tornar tediosa a leitura de Mulherzinhas.

Entretanto, a obra norte-americana destaca-se positivamente em apresentar quatro irmãs com personalidades distintas, colocando em evidência uma das mais adoradas personagens da literatura em língua inglesa: a independente e travessa Jo March, dotada de língua ferina e pensamentos avançados para as moças de sua época. A lenda do rock, Patti Smith chega a afirmar no prefácio do livro e no seu próprio Só Garotos que a leitura de Mulherzinhas e a força na rebeldia de Jo deram-lhe coragem para quebrar padrões estabelecidos de feminilidade, para sentir-se uma garota livre.

Mulherzinhas foi escrito por Alcott em duas partes, e em sua transposição para o cinema, Gerwig utilizou do recurso do flahsback (e, também, cenas paralelas) para expor as distinções entre a alegria irradiante na casa dos March no passado e o clima sombrio trazido pela doença da pequena Beth e da falta de Amy, Meg e Laurie e para a agora solitária Jo. O primoroso trabalho feito com a iluminação e uso das cores na criação das duas atmosferas opostas, além da belíssima trilha sonora instrumental são pontos altos do filme, que também conta com atuações de Saoirse Ronan e Florence Pugh, indicadas ao Oscar por seus trabalhos.

Louisa May Alcott criou uma obra que funciona como entretenimento para o leitor atual, amenizando a moralização que era pretendida na educação das moças do século XIX, ao usar uma figura com a força e independência feminina em Jo March, e colocando como destaque o vínculo indissolúvel que unia as quatro jovens, mesmo com concepções distintas sobre casamento, amor e sobre o papel feminino na sociedade, deixando uma reflexão que ainda habita os círculos feministas e sociais até hoje.


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MULHERZINHAS

Autora: Louisa May Alcott

Tradução: Julia Romeu

Penguin/Companhia das Letras

Páginas: 592

R$ 59,90/E-book 39,90







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