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Clássico do modernismo europeu, “O Homem Sem Qualidades” ganha novo volume nos Estados Unidos

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Num mundo à beira de uma guerra cataclísmica, resoluções definitivas são difíceis de encontrar. Só a morte representa um término.

Por Lisa Appignanesi*; Tradução Bruno Pernambuco.

Reprodução: Adam Maida


Havia um Robert Musil engenheiro mecânico que inventou um Chroma Meter, aparelho usado para avaliar a temperatura das cores. Havia, também, um Musil investigador filosófico, interessado em Teoria da Probabilidade e no positivismo lógico, assim como nos funcionamentos mais internos da alma e do intelecto. Nenhum dos dois pareceria um candidato especialmente bom para o papel de novelista, mesmo na efervescência de modernismo que eram os anos derradeiros do império austro-húngaro e sua atmosfera liberal. Ainda assim, foi esse homem que acabou por escrever “O Homem sem Qualidades”, obra que o ergueu a um patamar similar a Proust e Joyce.


Poderia muito bem ser de outra forma, ponderaria Ulrich, o anti-heroico protagonista de Musil. Trata-se de um personagem tão irônico, tão aberto à possibilidade, que nenhum atributo nele firma-se- certamente, ao menos, não o suficiente para que nele cresça o tipo de convicção apaixonada que, como Musil deixa bastante claro, é marca dos piores daquele tempo.


A formação científica de Musil é sem dúvida aquilo que dá à sua grande comédia humana um aspecto singular. Cheio de incisivas digressões ensaísticas, explorações de caminhos, acidentes de tráfego, patologia, probabilidade e o clima, e também de personagens extravagantes, encontros sexuais picarescos e um questionamento rebelioso do amor, do gênero e da moralidade num mundo recém-abandonado por Deus, “O Homem sem Qualidades”, que se passa em 1913 e alcança quase 2.000 páginas, tem um sabor contemporâneo. Reflexões epigramáticas emanam das páginas: “A obrigação ideal de amar ao próximo é obedecida em duas partes, a primeira consistindo em detestar a raça humana, e a segunda em compensar esse fato tendo relações sexuais com uma metade dela”. Ulrich tem esse pensamento enquanto desiludidamente vagueia pelas ruas de Viena, fitando uma mulher.


O romance é conhecidamente inacabado: Num mundo à beira de uma guerra cataclísmica, resoluções definitivas são difíceis de encontrar. Só a morte representa um término. Musil começou a escrever a obra em 1921, publicou, com algum sucesso, em 1930 o primeiro volume, e em 1933, enquanto os nazistas ascendiam ao poder, o segundo. Morreu de um derrame em 1942, em exílio na Suíça. Sua esposa o encontrou na banheira, pouco depois dele haver completado a última versão de um capítulo muitas vezes retrabalhado, “Suspiros de um Dia de Verão”, no qual Ulrich e sua irmã, Agatha, num estado de encantamento contemplativo, veem botões de flor deslizando “como a neve pela luz do sol” em seu jardim.


Essa cena é o final de Agatha, ou a Irmã Esquecida, novo volume lançado nos Estados Unidos pela New York Review Books, que reúne materiais retirados de edições anteriores de O Homem sem Qualidades, assim como do arquivo pessoal do autor, que pela primeira pela primeira vez aparecem traduzidos para o inglês. A ideia foi de criar uma narrativa concentrada nos dois irmãos, e no que Agatha chama, ao mesmo tempo sarcástica e verdadeiramente, de “a última história possível de amor”. Não estão aqui as invencionices cômicas da Campanha Paralela, o comitê de excepcionais que procura uma grande ideia para celebrar o septuagésimo aniversário do imperador (Talvez transas melhores para as mulheres?, sugere Diotima, a bela líder do comitê, em um capítulo não incluído no volume). Não está aqui Mossbrugger, o assassino com cara de santo e uma patológica compulsão sexual, agora internado num manicômio e esperando julgamento. Também não está presente a histérica Clarisse, que acredita que pode ser também homem, e que está apaixonada tanto por Ulrich quanto por um autodeclarado profeta, que se assemelha a Hitler.


Na tradução contemporânea e sensual de John Agee, Agatha foca em uma aventura quase mística em viver e amar. A ênfase de Musil pela experiência espiritual- o que ele chama de “outra condição”- pode bem ser, em parte, uma reação ao nazismo; em face aos horrores do regime, ele, como tantos outros autores do período, se dirige à interioridade. Inicialmente, Musil brincou com a ideia de apresentar uma irmã no título do volumoso romance- um duplo para seu às vezes solitário herói. Ele próprio era assombrado por uma irmã que morrera quatro anos antes de seu nascimento.


Agatha começa com a morte do pai de Ulrich. Na provinciana casa da família, onde o corpo do pai está exibido, ele encontra pela primeira vez desde a infância sua irmã mais nova, Agatha. Ela surge trajando o mesmo pijama de pierrot que ele veste; ela se parece com ele e, como as conversas dos dois em longas caminhadas bem demonstram, é seu duplo- seu reflexo em um corpo de mulher, seu “amor-próprio perdido”. Irmão e irmã são ambos céticos daquilo que lhes é passado, insatisfeitos com suas vidas e se encontram na necessidade um do outro por algo além do que a experiência até agora lhes deu.


Agatha adultera o testamento de seu pai, para que seu marido, homem pomposo e desinteressante de quem ela quer se divorciar, não receba nada. Ela vai com Ulrich para Viena, onde passam a morar juntos. Ulrich escreveu um estudo sobre mitologia cristã, budismo e exercícios espirituais. Ele explica, de forma chauvinista, tudo isso para Agatha, que entra, muito mais rapidamente que Ulrich, em estados de contemplação. Se a ciência da alma de Musil nem sempre convence, a atmosfera entre os irmãos com certeza o faz. A carga erótica é palpável.


Quando o marido de Agatha a escreve dizendo que enxerga seu pedido de divórcio como sinal de uma mente fraca, ela se sente solapada, e considera o suicídio. “Eu sou a mulher atualizada, economicamente e intelectualmente ativa?”, ela pergunta a Ulrich. “Não. Eu sou a mulher apaixonada? Não, também não. Eu sou aquela mãe boa, harmonizante, a construtora do ninho, sempre disposta a ajudar? Isso menos do que tudo. O que é que me sobra, então? Para que é que eu estou nesse mundo?”.


Ulrich não tem resposta para essa pergunta- nem quanto a si próprio. Ele admite sentir um ódio pelas mulheres com quem dorme (que, depois, se volta para ele). Então, quando não tentado a outra coisa, ele busca a companhia da irmã. “O que nós sentimos”, ele diz a Agatha, “é a sombria duplicação da própria identidade de alguém na natureza oposta do outro. Eu sou um homem, você é uma mulher; acredita-se que cada ser humano traz dentro de si o reprimido e penumbroso oposto de cada uma das suas qualidades: De qualquer forma, cada um possui o desejo por ele, se não está delirantemente satisfeito consigo mesmo. Então meu contra-ser aqui veio à luz, derramado sobre você, e o seu sobre mim, e eles se sentem grandiosos em seus corpos transpostos, simplesmente por que não tinham muito respeito pelo ambiente interior e pela vista que dali tinham.”


Musil era fascinado pelos conceitos de androginia e bissexualidade. Ele entendia, pelo segundo, um tipo de sexualidade introjetada sobre a qual escreveram Sigmund Freud e o filósofo vienense Otto Weininger. Na visão deles, todos os gêneros contêm, em alguma medida, masculino e feminino. Em um ponto do livro, Ulrich diz a Agatha: “Eu desejaria ser uma mulher, se pelo menos as mulheres não amassem os homens.”.


Em sua graciosa geminação, os irmãos compartilham de uma infantilidade que faz com que tudo seja possível- menos a consumação do crime incestuoso. Eles vivenciam o mundo numa espécie de êxtase flutuante, apoiado na mútua companhia e contemplação. Dessa forma, são um desafio para um mundo que está à beira do desastre. Sagazes, sensuais e desejantes, mas fugindo daquilo que Ulrich chama de esforço “apetitoso”, os irmãos representam uma experiência particularmente vibrante da vida num tempo em que poucas opções como essa ainda restam.


*Originalmente publicada pelo New York Times no dia 5 de dezembro.


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TÍTULO: Agathe: Or, The Forgotten Sister

AUTOR: Robert Musil

EDITORA: NYRB Classics

ANO: 2019

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