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Clarice Lispector: Perto de um coração selvagem

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A miscelânea de relações íntimas da autora estará disponível ao grande público no volume que trata das correspondências da autora, uma das edições que serão divulgadas na comemoração do seu centenário

Por Giovana Proença


Clarice Lispector poderia ter sua trajetória transfigurada em livro. A sequência de fatos de sua vida se desenrolaria: o nascimento na Ucrânia, a fuga da família decorrente da perseguição aos judeus, a difícil infância no Recife, os jantares e constantes mudanças às quais estava sujeita como esposa do diplomata Maury Gurgel Valente, o incêndio que a deixou com marcas pelo corpo e a morte no Rio de Janeiro vítima de um câncer.

De fato, a ideia foi concretizada pelo escritor Benjamin Moser em “Clarice”, tentativa de desvendamento da mítica escritora, um dos maiores nomes da literatura brasileira, falecida em 10 de dezembro de 1977, um dia antes de completar 57 anos.

A escritora, que se declarava pernambucana, manteve relações com outros nomes relevantes do círculo literário contemporâneo como Fernando Sabino, Lygia Fagundes Telles, Carlos Drummond de Andrade, Rubem Braga e Lucio Cardoso.

A miscelânea de relações íntimas da autora estará disponível ao grande público no volume que trata das correspondências da autora, uma das edições que serão divulgadas na comemoração do seu centenário. Com lançamento previsto para dezembro de 2020, o compêndio das obras de Clarice ainda conta com reedições de suas principais obras e estreia da adaptação cinematográfica de A paixão segundo G.H, de Luiz Fernando Carvalho.

Dentre as raras entrevistas, vale destacar a concedida a Julio Lerner, então repórter da TV Cultura em 1977. Nesta, a mística lispectoriana reforça-se pela elegância em que a autora porta o cigarro aceso e nos enxerga intensamente, quase como questionasse a nós mesmos enquanto é entrevista. Um contraste ao tom apático, de falas curtas, e respostas lacônicas, cuja objetividade está intrínseca à subjetiva da alma da escritora. Acentua-se o fascínio do encontro, o pedido inusitado da entrevistada para que o programa fosse exibido apenas após sua morte, que ocorreria dez meses depois.

O extenso percurso literário de Clarice inicia-se com “Perto do coração selvagem” (1944), livro de estreia que segue os conflitos sentimentais da protagonista Joana e expande-se nas relações em desequilíbrio de Laços de família (1960), na mulher com seu amante do conto homônimo de Felicidade clandestina (1971), na barata e na Paixão segundo G.H (1964) e na inocência pisada e invisibilidade de Macabea, d’A Hora da estrela (1977), para citar suas principais obras.

A permanência do legado de Lispector na cultura brasileira vem destacando-se nas redes sociais, nas quais frases de efeito e reflexões filosóficas atribuídas à escritora e trechos de seus romances amplamente compartilhados demonstram a universalidade e atemporalidade de uma das maiores vozes do modernismo brasileiro. Para quem os ecos das ações reverberavam mais de que os fatos, aparentemente ordinários, cultivar o legado de Clarice é rememorar a singularidade da autora que vive dentro de todos nós.

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