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Coletânea de contos de Ray Bradbury ganha nova edição no país

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A faísca inicial é a materialização do processo de alienação do povo. Presenciamos o incêndio que precedeu todos os outros e somos testemunhas oculares da ascensão violenta da ignorância.

Por Laura Pilan, colaboração para Frentes Versos


Ray Bradbury em seu escritório em Beverly Hills em 1986 (Fotografia: Doug Pizac/ AP)

Como se fosse um princípio inquestionável, Ray Bradbury inicia Fahrenheit 451 afirmando: “Queimar era um prazer”. A obra introduz um futuro assustador – e terrivelmente próximo da realidade – em que os livros são proibidos e os bombeiros são os encarregados de extingui-los. A coleção de contos Prazer em Queimar: Histórias de Fahrenheit 451 nos proporciona um reencontro com Montag, Clarisse, Mildred e Beatty. Mais do que isso, retrata o momento em que o primeiro fósforo foi riscado.


A faísca inicial é a materialização do processo de alienação do povo. Presenciamos o incêndio que precedeu todos os outros e somos testemunhas oculares da ascensão violenta da ignorância. Se a destruição dos livros parece uma perspectiva catastroficamente imediata, somos bruscamente arremessados para contextos inesperados – a primeira expedição bem-sucedida para Marte, por exemplo. Enquanto esses episódios arriscam e suspendem os limites do possível, a ruptura mais repentina se dá com a descoberta de que os mortos retornam ao mundo dos vivos – impacientes para solucionar as pendências que deixaram para trás.


Os elementos extraordinários são responsáveis pelo desvelamento de questões fundamentais para Bradbury. A convicção de que um cadáver pode retornar à vida é a única condição necessária para que ele ressuscite. O simples ato de acreditar é valioso e poderoso. A memória é um aspecto tão essencial quanto. Diante da perda inestimável dos livros, decorar e armazenar textos é uma habilidade preciosa – reconhecida como tal desde a Antiguidade Clássica e substituída pela escrita. Uma vez que os homens estão prestes a esquecer de grandes nomes – como Edgar Allan Poe e William Shakespeare –, seus legados serão igualmente apagados em uma perda incalculável. A chance de viajar no tempo, palpável para os protagonistas de algumas das narrativas, é a evidência latente da indispensabilidade de conhecer a História.


A ausência de memória, o apagamento do passado e o incentivo ao pensamento único não são características exclusivas de um governo autoritário em um universo fictício e distópico: são os pilares de um regime totalitário. Ray Bradbury não apenas reconhece esse fato como também rejeita qualquer forma de censura e limitação da liberdade.


A sociedade de Prazer em Queimar: Histórias de Fahrenheit 451 opera através da cópia e repetição do raciocínio partilhado pela comunidade sem reflexão, distante do método crítico ou mediação equilibrada entre pares. Caso haja um erro na premissa, ela será replicada e transmitida indefinitivamente. O que o autor busca demonstrar é que qualquer comportamento baseado na reprodução sem critérios está condenado ao fracasso. As atitudes revolucionárias são dignas de nota porque aceitar a lei é, acima de tudo, uma admissão da falta de humanidade.


Ray Bradbury se dedicou a escrever obras que seriam inquestionavelmente queimadas se existissem no universo criado por ele próprio. Ao retratar a destruição dos livros e todas as perdas que derivam dela, a antologia seria destruída por seu potencial altamente subversivo. Prazer em Queimar: Histórias de Fahrenheit 451 se transforma em um antilivro que condena a si próprio.


O conjunto de contos enfatiza as ações presente neste cosmos autoritário – os incêndios, as incursões, as fugas e as viagens no tempo –, mas prioriza as ideias. Os personagens representam valores morais que precisam ser recuperados e crenças que deveriam ser descartadas. Esse contato – e confronto – evidencia as contraposições e as contradições humanas, de modo a pintar uma representação bastante fiel à vida como a conhecemos.


Não há mais assassinos ou mentirosos no universo construído – ou aniquilado – pela extinção das artes. O conforto proporcionado pelas circunstâncias nada mais é do que uma ilusão: a obediência, o medo e a privação de liberdade – intelectual e física – são preços dolorosamente altos. O espetáculo do fogo, a fumaça densa e a expectativa da punição ao próximo entorpecem a população, mas não há maior esperança do que a persistência de mentes lúcidas. O mesmo vale para o aqui e o agora. Ao apresentar a possibilidade assustadora da destruição absoluta da literatura escrita, Ray Bradbury se certifica de que estejamos gratos por poder fechar esse livro e partir, ansiosamente, para o próximo.


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TÍTULO: Prazer em Queimar: Histórias de Fahrenheit 451

AUTOR: Ray Bradbury

EDITORA: Biblioteca Azul

ANO DE EDIÇÃO: 2019






(Os textos de colaboração não expressam necessariamente a opinião da FV)

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