• André Vieira

Com a cabeça nas nuvens

\\ CRÔNICAS


Uma epopeia de família, férias frustradas pelo próprio autor, a bordo do grande Pássaro de Ferro


Por André Vieira

Imagem/divulgação


E tínhamos chegado – de novo! – àquela curiosa época de fim chuvas: as férias de inverno. Aquele momento inusitado, apregoo único, que famílias inteiras se metem em latarias ambulantes, comboios elétricos, ônibus a diesel e outros tantos modais de transporte, por horas a fio, com o objetivo de retornar à terra da infância gloriosa, desfrutar noites incrédulas em campings imundos e cachoeiras aquecidas pelo xixi alheio ou, talvez conhecer algum itinerário diferente do tradicional “kit farofeiro” de universitários paupérrimos ou de famílias paulistas sem criatividade que se vangloriam em “encharcar” a cada ida à praia, encontro com conhecidos de longa data ou por qualquer outro motivo trivial que os dê na cachola.      

                                                                                                 

E como poucos muitos, este cronista envergou pelo terceiro programa. Não que requintes dos outros itinerários não tenham sido exaltados: pra a matriarca “uma viagem barata é sempre um prato cheio”, já pro decano de calças azuis Bruskfield e sapatos pretos Mistér.Cat, um “retorno às origens” é aquilo que refresca a cuca e nos põe de volta nos trilhos — seja pra qual trem desgovernado for; já pro do meio e o caçula, aqueles que sempre têm a palavra final no lar seja o que acontecer, uma “a viagem que mira o desconhecido é aquela que levamos pra toda vida, que nos preenche e transforma conforme vivemos o trajeto e construímos ”. Aparamente, esse bê-á-bá de milenais educados à base de linhas pedagógicas construtivistas e horas intermináveis na frente do youtube, convenceu mais do que economizar uns trocados de meses de trabalho; afinal, se apenas num desvencilhar de palavras, estes novos seres, aliados a mais nova prática coach e seus derivados suigeneres, conseguem curar até a depressão mais aguda em poucas sessões de altos cifrões, qual efeito o rebuscado discurso quântico-mítico-celestial teria sobre nossas férias?   

                                                                             

Viagem na barriga do pássaro de ferro. Pra ser mais exato, por entre seus intestinos estreitos e cavidades de espuma duras e minúsculas, que mostravam, sim,  ser possível — como testemunhei com meus olhos, ouvidos e dedos do pé — uma pessoa ser constituída por três joelhos, quatro ombros e cinco braços e ainda por cima, entrecruzando os quitutes celestiais de biscoitos crackers farinhentos e cafés de bordo descafeinados (isto é quase um crime lesa-prátia, no meu código penal) conseguir ler meio capítulo de Mahabharata ou escrever algum punhado de palavras em seu caderninho encardido. Conforme o pássaro flanava, o cinto apertado no quadril era preocupação menor, à medida que a cabeça do passageiro da frente descia (len.ta.men.te) em direção ao colo do cliente de trás, a meros centímetros de receber um cafuné de cortesia em seu itinerário pelos céus de azulinos.                                                                                                           

O trajeto do enlatado, assim como toda viagem de ervilha em conserva, continuou sem alardes: turbulenciazinha aqui, um braço caído no rosto ali, e tudo musicado pela sinfonia de roncos de senhores & senhoras de idade semiacordados, uma melódia uníssona a qual mal se botava o cinto de segurança e já se ouvia a orquestra afinando os metais; isso até o que regente do passeio, o motorista da gaiola de ferro interrompesse os músicos: “Senhoras e senhoras bem-vindos ao voo GOL1234-XZY com destino a Campo Grande. Aproveitem nossos programas de blá blá blá, com benefícios para fulanos, ciclanos e ciganos. Lembrem também que nossa companhia possui um programa especial de milhas que oferece Farinha, Mandioca, Café e Arroz (todos estes produtos sem glúten, imagino) para clientes vip. Por fim, estamos a bordo de um avião B737 equipado com uma tecnologia exclusiva de wifi. Um ótimo voo a todos! Good arftermoon Ladyes n’ Gentlemans et cétera et talz”.                                                

Seria verdade? Teriam rompido a fronteira final das viagens de intermunicipais tupiniquins?  Abraçado a era das antenas voadoras dos óvinis?  Atingido o auge da tecnologia de telefonia móvel e mensageria instantânea para propagação de memes, nudes e afins de horas povoadas pelo ócio? Encontrado o elo perdido para aqueles que acordam cedo demais para as viagens de pombo-correio e se esquecem de baixar músicas, atualizar agendas, trazer carregadores e então passam a estar condenados a eternidades com a cara prostrada na mesa retrátil? A resposta não demorou a vir. “Porra, Gersel, não vou pagar 20 conto’ para usar uma internet discada. É pior do que do ver a série da Annita” — e de fato, é melhor ficar com a cara inerte na parede do que se torturar e ver aquela joça cinematográfica (a cantora que me perdoe…).                                                                              


Talvez a única desvantagem de reavermos nossos preciosos dados móveis na palma de nossas mãos seja o fim do ócio e do tédio férteis. Os mais velhos vão se recordar — e nisto incluo a mim mesmo — que desde o começo dos anos 2000 os assentos das aeronaves são equipados com telas LCD proporcionando ao passageiro uma verdadeira “incursão no lúdico”. Mas nem sempre os catálogos de películas de sucesso atraem o público de poltronas volantes, assim como ouvir repetidamente os três únicos álbuns do menu que lhe agradaram durante horas e horas intermináveis— Qualquer Coisa (Caetano), Coletânea Raça Negra II e This is it (The Strokes) — vai aos poucos minando  o brilho estonteante  daquele objeto presente nas costas do outro passageiro e crescendo — a cada novo looping de Cheia de Maneia — a vontade de estar em si. Quieto. Parado. Apenas ouvindo a recém-lançada sinfonia de cinco cordas de crianças estridentes ou se delirando numa leitura que há muito era esquecida na cabeceira ao lado do carregador do iphone XXXVIII 2.0. Ou, quem sabe, ficar apenas vendo as asas do pássaro de ferro triturarem com brio sobre as nuvens rechonchudas ou encostar — se tiver a sorte de estar na cadeira da janela — a cabeça contra o parabrisa e ver sol mudar de direção conforme a viagem continua, ambientada pelo lusco-fusco das pradarias longínquas.                                                     

      

E talvez, só talvez, deixar o laptop dentro da mochila, o relógio inteligente afundado no bolso da camisa, o celular — oh grande senhor que tudo vê e tudo ouve —, no modo avião por alguns minutos (só alguns…), enquanto desfruta a vista do mundo passado, o azul passado para anis alaranjado para então o negro absoluto no céu. Ou então para absorver o silêncio dos narizes escorrendo, dos dedos se espreguiçando no ar rarefeito, do pulso taquicardíaco que abraça as costelas encolhidas — é preciso esforço para ouvir o próprio nada. Quando o pássaro cisca na pista, os mesmo perrengues de sempre: pegar fila pra levantar, pegar fila pra pegar mochila nos pés, pegar fila pra pegar mala no “compartimento-de-bagagens-acima-das-cabeças” (calor infernal embaixo dos braços), pegar fila pra mijar, pegar fila pra sair do banheiro, pegar fila pra saber se está na fila certa, pegar a fila da primeira fila pra sair desta fila (a testa se afoga em suor), pegar fila pra sair da fila da fila da primeira fila, e finalmente (a respiração já rarefeita), já pegar a fila da fila pra sair da fila da gaiola e então deixar o ninho. E as férias?  Ora, se nem podemos mais ficar com a cabeça nas nuvens como é podemos desfrutar as férias em família?


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