• Matheus Lopes Quirino

Como um beijo desfigura um homem; 'Matthias e Maxime' está em cartaz no MUBI

\\ CINEMA


Filme de Xavier Dolan mira nos desconfortos provocados a partir de um ínfimo afeto


Por Matheus Lopes Quirino

imagem/divulgação.

O cenário é o mais descontraído possível. Rapazes à vontade falam besteira, riem alto, brincam uns com os outros, abusando do toque e de salamaleques entre si. De vez em quando, acontece uma piadinha fálica, uma provocação ambígua, um toque nem tão fugaz, e por aí vai. Nessa reunião, em que jovens homens parecem abstrair qualquer barreira de formalidade, surgem apostas e jogos com o intuito de provação. E nesse manejo, em que o limite é posto em xeque pela brincadeira, que se provoca o desconforto.

Matthias(Gabriel D' Almeida Freitas) é um jovem advogado bem-sucedido. No escritório em que trabalha, tem as graças do chefe, vive um bom relacionamento com a namorada, tem planos para o futuro, anda de terno com um semblante plácido. Já Maxime (Xavier Dolan), seu melhor amigo, busca mudar de vida. Vive com a mãe problemática, não tem emprego estável e tem planos para virar garçom em Sydney. Eles se encontram na confraternização na casa de campo de um amigo em comum e... se beijam.


O que era um beijo cinematográfico – no filme, ambos têm que atuar em um curta experimental da irmã de um desses amigos – foge à própria tela dentro da tela. A menina enche tanto o grupo dos rapazes que eles cedem. Ali ninguém dá muita bola para a cena. O pior eco parte da cabeça de Matthias que, a partir do beijo, entra em parafuso. O filme é pautado nestes reflexos, voluntários e involuntários, que surgem a partir do beijo. A relação dos amigos ganha um especial desconforto, enquanto Matthias entra em um processo de ruminação que, pouco a pouco, caminha para a provação da sexualidade.


“Não é um filme sobre sexualidade”, afirmou Dolan, que protagoniza Maxime no longa. Prodígio no audiovisual, o preparador, ator e diretor canadense estreou aos 20 anos no festival de Cannes com o filme Eu Matei Minha Mãe, aclamado pela crítica e criticado pelo grande público, Dolan contracena com a atriz Anne Dorval, que interpreta sua mãe problemática em Matthias e Maxime. O cinema de Dolan é marcado pela árdua exploração de temas ligados à instituição família, os imbróglios maternos; questões de sexualidade e autoconhecimento são de praxe. Mas seu cinema vem se provando cada vez mais versátil à medida que, quando escolhe promover um drama do gênero, o diretor se afasta dos complexos da sexualidade para focar na fluidez dessa questão. Como é o caso da cena que embasa a relação dos protagonistas.


Partindo do impacto do beijo, essa contração delicada que surge de uma fração da paixão, de obras definitivas como Beijos Proibidos, de Truffaut, à peça O Beijo no Asfalto, de Nelson Rodrigues, é a partir dele que o cineasta canadense escolhe maximizar toda uma relação de amizade, suas turbulências e imperfeições, que resultam sim em uma forma de amor. Mesmo quando este é fadado ao insucesso, por seus personagens, e ficam os segundos enternecidos, até o beijo terminar.

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