• Matheus Lopes Quirino

Como uma concha virou pérola

\\ CADERNO DE ANOTAÇÕES

O homem de bigodes penava para abrir o casco, como se aquele animal se recusasse confessar a mentira que a própria natureza ordenou

Por Matheus Lopes Quirino



A Balsa da Medusa (1818-1819), de Théodore Géricault.

Acordou em um navio, num fuso estranho. Estava embrulhado, de barba cortada, gaivotas voavam, talvez um pelicano tivesse botado em um bolso de seu pulôver. Respirou a brisa do mar, estava atracado no meio do nada, em um rochedo de cinco metros de largura. Ilhado, infante, passava a mão pelos cabelos desgrenhados, sujos, sem ter certeza de como ali foi parar. O motivo de seu naufrágio permaneceu em segredo, até morrer engolido por uma onda gigante, que levou ao fundo do mar também a rocha.

As conchas abrem no verão. Mas naquele dia a ostra se negava a mostrar os dentes ao dentista. O homem de bigodes penava para abrir o casco, como se aquele animal se recusasse confessar a mentira que a própria natureza ordenou. Ficará guardada, é de suma importância. Cravou a maldição, Tritão, o rei do mar. Os séculos sucumbiram o próprio rei e a concha não cedeu. A espada foi arrancada da bigorna, o menino virou monarca, viu guerras serem travas. Feneceu diante da cruz, vítima de sua própria espada.

Lady Ludivina havia desembarcado no Rio de Janeiro elegante e pomposa, trajando um vestido de seda fina e camurça, chapéu com penas de pavão Roupas arrojadas, logo ela, toda burlesca, gesticulava e falava rápido o porteño. Mas havia um detalhe, dependurado em seus ouvidos: um brinquinho discreto de pérola, herança da família, uma monarquia influente, dona de vilarejos e terras além mar. A guerra veio, refugiou-se na última encosta, como se cá fosse a esperança final, o rochedo prestes a ser engolido por um maremoto.

Na noite de 3 de outubro de 1920, o detetive Affonso Duprat e Silva registrou uma ocorrência na Joalheria El Galo, no centro de Salvador. Ele saiu de Santos, no litoral de São Paulo, e se dirigiu ao estabelecimento com o objetivo de identificar e capturar um ladrão de pérolas. Ficou meses vasculhando os confins de Salvador, perdeu-se pelas mazelas e gingados, agigantou-se, salve, Orixá, desprendendo-se do objetivo e acabou por lá ficando, dando o caso por encerrado.

Correu o mundo a notícia de que minha avó morreu. Era uma pessoa fantástica, repleta de sonhos e com uma certa magia. A família se juntou para velar o corpo em uma capela perto ao porto de Santos, vieram os parentes da Espanha, do Rio, da Bahia de todos os santos. Não houve procissão, tudo foi muito discreto. Falavam na última imortal de uma dinastia, que foi engolida pela última onda, depois de estar sob o calvário dos remédios oncológicos. Mas até o último momento sorriu, sumindo em um passo de mágica.

A missa de sétimo dia passou, a do mês. O retrato ficou na parede, em óleo turvo, marcas do tempo inquestionáveis. Como um mapa que mostra aos que não querem ver sua memória. Não era ela ali, sim a moça elegante de maiô em uma praia no Arraial do Cabo, em 1950, com óculos clubmaster e lenço no pescoço. Não demorou para a toalha de bolinhas preencher a mesa, e nela começar o inventário.

A herança estava em um baú. Coisa daquele tempo, seus pais eram joalheiros, esperava-se ouro, diamantes, prata e pérolas. Abrir o tal baú foi um desafio. Chamaram gente do exterior, com os últimos modelos de maçarico. Tentaram explodir. Era impenetrável Só a chave rodaria a trava com a alavanca. A arca estava sob uma espécie de feitiço e assim ficou esquecida.

A criança brinca no sótão da casa dos avós, se vê perdida em uma escuridão com cheiro de magia. A família está na cozinha e, na companhia de um gato, quebra as regras e vai explorar aquela ilha desconhecida. Reizinho, seu apelido, aproxima-se com a lanterna de uma velha arca. Surpreende-se, nunca havia visto. De repente, em seu bolso, brota uma chave no lugar da concha das ostras – aperitivo da noite, carcaça vinda da cozinha.

Ouro, muito ouro e diamantes. O menino se surpreende e volta com os olhos brilhando feito pérolas. Faz um escarcéu, birra, puxa o avô pelo pulôver, até o velho ir à contragosto ao sótão. “Aqui está o seu ouro”, diz abrindo a arca com uma chave antiga, já corroída pelo azinhavere, bem diferente da chave mágica do menino. Dentro do baú: ovos. Dezenas de ovos de gaivotas. E no meio de tudo, talvez houvesse de pelicano, mas não uma pérola.

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