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Conceituado em Portugal, Gonçalo M. Tavares mescla poesia e filosofia em 'Investigações. Novalis'

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Gonçalo M. Tavares se apropria de termos da filosofia em seu Investigações. Novalis, abusa da condensação de poemas, em diálogo não apenas com Novalis e o Romantismo, mas com a vasta tradição filosófica.

Por Giovana Proença

Gonçalo M. Tavares. ("Foto: Bel Pedrosa/Divulgação Companhia das Letras).

Novalis, pseudônimo do poeta, autor e filósofo Georg Philipp Friedrich Freiherr von Hardenberg, é nome fundamental das raízes do Romantismo alemão. Embora ofuscado por seus contemporâneos, detém ideias capitais dentro da esfera do pensamento, principalmente acerca da linguagem, que para ele, é um organismo vivo e a captação de sua essência constituiria o verdadeiro gênio poético. Em seu livro de poemas, Investigações. Novalis, Gonçalo M. Tavares desvenda o romântico alemão em um diálogo que oscila entre a proximidade e distanciamento.

Conceituado em Portugal, Gonçalo M. Tavares recebeu as maiores honrarias em literatura portuguesa, tendo sua obra traduzida em vários países. Investigações. Novalis foi um dos primeiros livros do autor, nascido em Luanda. Publicado pela primeira vez em 2002, Investigações. Novalis chega ao Brasil pela primeira vez pela Edições Chão de Feira. Com toques do misticismo de Novalis, Tavares desdobra a aproximação com a filosofia, semelhante à do alemão, transitando entre temas como o homem, Deus, a natureza e a poesia.

A fusão entre poesia e filosofia é potencializada pela liberdade poética. Tavares constrói imagens edificadas na investigação do espírito humano, abusando da liberdade da linguagem e redefinindo lugares comuns. A escolha editorial por manter a grafia lusófona não compromete a fluidez da leitura dos desconcertantes versos do escritor angolano. Gonçalo M. Tavares presenteia a literatura em língua portuguesa com uma inovação na sintaxe ao lapidar natureza e homem, atados pela força do tempo. “O Morto é contemporâneo do Futuro, parece-me a evidência”, a força da expressão fecha o primeiro poema do livro. Em outra conclusão, o escritor sintetiza Investigações. Novalis, “O FIM está sempre suspenso”.

O homem é a semente poética de Gonçalo M. Tavares. Somos todos sua matéria universal; corpo e alma pairando sobre o livro. Ele sabe os limites da investigação: “SIM, a Sabedoria/ Mas primeiro respeitar o Mistério.”, o poeta define o místico. Deus flutua pelos versos ao lado da filosofia, proeza literária do escritor que deixaria os pré-socráticos ensurdecidos em seus esforços de rompimento com o mythos em benefício da razão. Tavares é mestre em

compor contradições, lança ao leitor poemas condensados, próximos ao silogismo filosófico.


Todo futuro é perfeito

Toda a perfeição é FUTURA

(deus é FUTURO.)

Hoje não.


Gonçalo M. Tavares se apropria de termos da filosofia em seu Investigações. Novalis, abusa da condensação de poemas, em diálogo não apenas com Novalis e o Romantismo, mas com a vasta tradição filosófica. O poeta usa da liberdade da linguagem ao agregar à poética uma redefinição a partir das oposições que colidem milimetricamente no livro. Ele provoca acidentes entre o logos e o pathos, e surpreende com o resultado positivo. Pensar e sentir são desconstruídos em nova combinação, entregando uma investigação emotiva. A chegada do livro ao círculo literário brasileiro permite ao leitor do país a oportunidade de contato com a premiada literatura do autor angolano. Tavares atinge o objetivo que crava poeticamente “Da Linguagem/ Apenas o que Novalis queria da palavra: “atingir diversas ideias com um só golpe”.


Não pensar no amor porque o amor não se pensa.

Pensar no amor ou é: não pensar, ou é: não - amor.


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TÍTULO: Investigações. Novalis

AUTOR: Gonçalo M. Tavares

EDITORA: Chão da Feira

ANO: 2020


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