• Lia Petrelli

Considerado grande expoente do surrealismo Espanhol, Dalí questionou o cânone

\\ ESPECIAIS


Artista distorcia imagens e as colocava em situações inusitadas; sua obra é estudada na psicanálise e nas artes

  

Por Lia Petrelli

 

Dali's Mustache - Photo by Philippe Halsman

No dia 11 de maio de 1904 nascia na Catalunha, Espanha, Salvador Domingo Felipe Jacinto Dalí i Domènech, que veio a ser o grande Salvador Dalí. Sua obra é um marco no movimento do Surrealismo, nas pinturas fundem-se imagens bizarras e oníricas, que têm excelência no quesito plástico, já que sua influência vinha do classicismo. Além da pintura, o mestre desenvolveu obras no cinema, na escultura e na fotografia, tendo até mesmo colaborado com Walt Disney no curta animado Destino, lançado postumamente em 2003.

 

Girafas em chamas (1937)

Dentre todas essas habilidades exercidas eximiamente, o artista explorou a linha da poesia surrealista, já que o movimento foi apoiado em preceitos da poesia, distanciando-se da vanguarda e dos cânones poéticos europeus.



O telefone lagosta (1936)

O surrealismo é baseado no estilo combinatório entre representatividade, abstração, irrealismo e inconsciente, por isso algumas das metodologias do movimento partem da colagem e da escrita automática. O movimento foi pautado na libertação das exigências lógicas e racionais, fluindo para além da consciência cotidiana, procurando tocar no mundo dos sonhos. A subversão das regras e o questionamento aos valores burgueses está no cerne das construções surrealistas, a pátria, a família, a religião, o trabalho e a honra davam lugar ao humor e a contra lógica, tomados como caminho para a libertação da existência utilitária do homem. 


Para além da estética, o surrealismo passa a ser uma visão de mundo, uma vanguarda artística que transcende a própria arte, chamando de volta imaginação ao buscar superar a contradição entre objetivo e subjetivo até a consagração de uma poética alucinatória. Não à toa, o nome dado ao movimento propõe justamente estes pontos: a sobre-realidade (surrealité).


"A persistência da Memória" (1931)

As imagens surrealistas não nascem da comparação e, sim, da

aproximação entre realidades afastadas, captadas pelos sentidos – coisa que a poesia consegue fazer muito bem. A linguagem surrealista faz uso das descontextualizações, larga o significante, o tornando vazio de significado para atingir novos e inusitados lugares. O desregramento das relações de significações são o caminho para a emersão de uma nova linguagem, a que busca a expressão por meio da não-instrumentalidade liberta através da ruptura discursiva.


The Temptation of St. Anthony (1946)

Dalí nunca escondera seu amor a tudo o que é excessivo, dourado, e a característica teatral de suas obras muitas vezes incomodava críticos, já que as excentricidades únicas de suas obras eram reconhecidas pelas tendências, atitudes e realizações extravagantes -- destinadas mesmo chamar atenção dos espectadores. Não à toa, sua obra é reconhecida e apreciada até os dias de hoje. Todas as escolhas simbólicas do artista impactam públicos de todas as idades já que os contrastes de objetos estáticos, equilibrados e, outrora, fantasmagóricos chamam o espectador para além do que se vê dentro das pinturas, quase como se habitar os sonhos fosse muito mais fácil: as relações científicas e intuitivas conversam em plena suspensão dentro da obra de Dalí, quando percebemos, deixamos de habitar o mundo real e a mente escoa suavemente para conexões extra-racionais, aquelas todas que já estão na racionalidade mas, vez ou outra, caem para o lado do esquecimento e voltam à tona quando a visão se depara com as imagens do mestre.


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