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Lavada a louça

\\ CONTOS

É o poder da rotina, penso eu. Não teve uma manhã desde o casamento que eu passei sem lavar a nossa louça

Por Giuliana Vasco de Paula Misorelli*, Colaboração para Frente & Versos

Imagem/ Reprodução


Minhas mãos recém-lavadas tremem e tenho que respirar fundo para tomar coragem para abrir as portas do guarda-roupas. Elas rangem um pouco, mas é um som que deixou de me incomodar após anos pedindo óleo para as suas dobradiças. Quando olho para dentro, vejo minhas roupas de sair ainda alinhadas ao lado das de Alberto, cheirando como a naftalina que tinha um dia sido colocada das gavetas para que fossem espantadas as traças. Se penso bem, o veneno tinha realmente sido eficaz e capaz de nos manter longe daqueles artigos: por anos, não tínhamos visto nada de saias rodadas ou de camisas de linho e chapéu coco. Quem sabe a naftalina tinha nos mantido longe do desejo de bailar com Bee Gees e Caetano.

Pego cada uma das peças de rouparia e coloco dentro de minha mala, tirando do armário a minha metade, com um cuidado deliberado e sem muita pressa. Suspiro com cada lembrança que me vem da juventude e que aos poucos tinha sido apagada da minha memória – vejo sapatos que tinham sido usados no batido de Jorginho e as meias furadas do casamento de Marina. Eventos importantíssimos tinham voado por nós e sido esquecidos no fundo de gavetas. Agora que ele não estava mais por aqui, não tinha motivo de manter tudo aquilo escondido, as roupas deviam voltar a ser vistas pela urbe.


Fui casada com Alberto por trinta e cinco anos e, portanto, tinham-se passado três décadas e meia desde que eu fora arrancada das discotecas para passar a tomar conta da pequena família que constituímos. Foi o tempo de formar dois filhos, conhecer três netos e montar uma casinha singela perto da praia de São Vicente. Não exatamente nessa ordem, mas com tanta pressa que eu me peguei não acompanhando os eventos com atenção. Me questiono o que mais teria acontecido, não tivesse meu marido partido, mas não creio que seriam muitas as surpresas. Nada grande tinha acontecido desde as nossas bodas de cristal, quando nosso filho tinha caído de boca no chão e engolido o próprio dente. Uma baita celebração.


Enquanto fecho o zíper da mala, me questione se seu conteúdo deve ou não ir para a doação. Se, assim como eu, as peças devem ter a chance de recomeçar. Não há urgência por respostas, então apenas fecho as cortinas do quarto e por uma última vez, faço a cama. Sei que pessoas virão para cá arrumar as coisas, como se faz para um defunto, mas quero ter certeza que tudo estará em ordem para as visitas. “Alguns hábitos nunca morrem. ” Digo para mim mesma em voz alta, porque agora ele não pode reclamar do meu barulho. Rio de minha própria piada, porque agora Alberto não pode gozar da minha bobeira. Aí me calo. Agora que ele está quieto pela eternidade, me contento com seu silêncio. Algumas coisas não precisam ser ditas.

Arrasto a mala pelo corredor até a porta da entrada, e ali a abandono por alguns momentos, para que possa terminar de arrumar a casa. Faço meu caminho até a cozinha, e o cheiro de meu finado marido é ainda pungente no ar. Tento não me afetar com a cena e a ideia, e vou até a pia lavar a louça do café da manhã: xícaras, pires, facas e garfos, todos passam pela minha esponja, a água corrente é terapêutica. É o poder da rotina, penso eu. Não teve uma manhã desde o casamento que eu passei sem lavar a nossa louça, mas saber que não preciso mais fazer isso me alegra. Quem sabe se ele tivesse me ajudado um pouco mais, as coisas teriam sido diferentes.


Limpo o facão que usávamos para cortar o pão cuidadosamente e com perícia para ter certeza que nele não ficarão manchas. Se tinha algo que Beto sempre reclamava eram as manchas nos talheres, falando que dava desgosto de colocar algo “quase sujo” na boca. Eu nunca consegui entender isso, até porque eu tinha beijado seus lábios por todas aquelas décadas sem fazer uma reclamação sequer. Uma vez que tenho certeza que a faca está limpa, seco-a e guardo junto com os outros utensílios. Penso em limpar o balcão, mas não tem muito o que fazer com ele, já que os respingos vermelhos estão espalhados por toda a superfície. Lavo minhas mãos. Respiro fundo mais uma vez, e então dou um último olhar para o corpo de meu marido, estirado no chão.


Definitivamente não tem como limpar a poça de sangue no chão e há uma onda de alívio quando percebo que não sou eu quem vai ter que lavar seu pijama ensanguentado. Ele está pálido como um paulistano e tem seus olhos arregalados, e não quero os fechar porque tenho nojo. Saio da cozinha sem dar adeus, meus pezinhos agindo rapidamente para não pisar na piscina de fluidos esparramada pelos azulejos. Que bagunça! Pego o mapa, tranco a porta e sorrio para Eliete, a vizinha. Não me preocupo com ela fazendo fofoca sobre mim, porque nós duas sabemos que ela ainda está com meus potes de plástico de dois anos atrás. Entro no carro que me aguardava ligado, e lanço um último olhar para minha (agora antiga) casa. Soubesse eu que poderia acabar com tudo aquilo de forma rápida, eu não teria gastado trinta e cinco anos de minha vida.


*Publicado na edição impressa da Revista Veredas

(Os textos de colaboração não expressam necessariamente a opinião da F&V)

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