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[Crítica] The midnight gospel

\\ CINEMA

Clancy não se assusta com nenhuma das situações absurdas com as quais se depara. Tudo que importa para ele é se entorpecer de estimulações externas, colecionar mementos dos lugares onde esteve, e gravar podcasts que, basicamente, ninguém escuta.

Por Ana Priscila, Colaboração para Frente Versos


Poster de divulgação "The Midnight Gospel" (Imagem: Titmouse, Inc.).

O problema filosófico que estrutura toda existência humana é justamente o da finitude. Os seres humanos fazem de tudo para desviar da natureza abrasiva da vida, mas qual a única coisa de que podem ter certeza? Ninguém pode escapar da morte.


Essa é a premissa da série “The midnight gospel”. A isso se adicionam inteligentes intertextualidades com religiões, mitologia egípcia, realidade virtual, etc et al, num visual mega colorido de jogo de plataforma. Em cena, acontecem sete coisas diferentes ao mesmo tempo, e achar todas as referências é algo tão minucioso quanto coletar easter eggs.


O personagem principal é Clancy. Verdadeiro arquétipo do pré-adolescente/jovem/adulto que está distraído demais para verdadeiramente se autoconhecer, mas que se acha entendido e iluminado. Inclusive, os personagens com quem Clancy conversa sobre magia e religião têm vozes iguais à dos narradores de aplicativos como headspace e calm. Sacada em cima de sacada!


Toda a série é estruturada em conceitos que remetem à psicanálise. Antes de se lançar a outros universos, Clancy olha dentro de uma vagina (fase genital). O lançamento, em si, é feito por um canhão que é um seio (fase oral). Outras tantas inferências podem ser feitas. Cada episódio tem detalhes que merecem muita atenção.

Clancy não se assusta com nenhuma das situações absurdas com as quais se depara. Tudo que importa para ele é se entorpecer de estimulações externas, colecionar mementos dos lugares onde esteve, e gravar podcasts que, basicamente, ninguém escuta.


Não por acaso, Clancy só consegue fazer um verdadeiro exame de consciência no episódio em que tem que lidar com a perda de sua mãe – o melhor da temporada, por sinal, sem desmerecer os outros episódios, que são simplesmente geniais. Numa explosão de conceitos e cores dignas de “The Fountain”, de Aronofsky, o sétimo episódio é uma obra-prima.


O sujeito pós, pós alguma coisa (no Brasil, há quem ainda está a viver na segunda revolução industrial) tenta mascarar seu intrínseco destino, a precariedade de ter um corpo feito de células que irão decair e fenecer. Para tal, o dito sujeito se distrai com dezenas de janelas abertas no smartphone ou no computador. Se entope de conteúdos dentros das plataformas Netflix, Amazon Prime, Spotify, Deezer, Twitter, Instagram… vale tudo para se distrair da própria efemeridade. E quem pode dizer que não se identifica?


(Os textos de colaboração não expressam necessariamente a opinião da F&V)


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