• Matheus Lopes Quirino

Toda luz que não podemos ver

\\ ENTREVERES

Os sapatos já estão engraxados, abotoaduras, cetim, lenço no bolso, perfume vindo de Paris, pastilhas de menta guardadas no bolso da calça, dentro de uma lata metálica de drops comprada em uma conveniência de importados.

Por Matheus Lopes Quirino

Meu coração está seminu. E ele estando como ao mundo veio, arranco-o deste invólucro; as veias bombeiam sangue vermelho quase roxo. A partir de agora ele está suspenso. Vulnerável, pulsando fora do corpo, com sua lógica própria. É um lobo solitário, um transeunte curioso a flanar pelas ruas imundas do centro da cidade. É um jagunço a se embrenhar pelas selvas, campinas e chapadas de um sertão longínquo e idílico. É um barqueiro-mercador que cruza o rio dos sonhos em busca de lendas que vivem no fundo dos rios, em diálogos platônicos com botos cor-de-rosa, sereias e vitórias-régias.

A bater, frenético, ele valsa, mas meio frívolo. De repente fica frio. Abrem-se as cortinas do mundo, e, na pista, canções que lhe não agrado põem-se a desfilar. Todas com frases prontas e açucaras e a palavra “coração” escrita em inglês, português, italiano, francês, espanhol, hebraico, etrusco, iídiche; todas as línguas, línguas mortas, dos anjos, dos otomanos, línguas estranhas que, para entender, demandam dicionários, listas bilíngues, livros de magia, enciclopédias e escritos datados das bibliotecas das cúrias apostólicas-romana.

No entanto, a bater só num mundo repleto de vaguidão, como um farol sozinho a iluminar o céu escuro na região costeira, o coração desentende o bê-á-bá de que se diz; e o que se não diz. Sim, o que se não diz escuta-se como o Cântico dos Cânticos, como Clair de Lune, como um bolero aconchegado recém-saído de um quarteto de bigodudos de um daqueles bares antigos de Buenos Ayres.

E do bolero ao jazzismo é um pulo, uma golada na melancolia, com ou sem colarinho. E da melancolia, lembra o coração: está seminu. O vento roça a espinha dorsal, os pelos arrepiam, uma gota d'água percorre o caminho de cada vicissitude do corpo, até cair no buraco deixado por aquele recém-saído escriba a pulsar e a bater pelas travessas e avenidas das capitais Sul-americanas.

E como um sopro que envolve um sonho, nesta emulsão que se liquefaz, sublima-se em nuvem, suspenso no ar, uma engraçada tristeza. Aperto a gravata azul marinho com pequenos pontos em cinza, costurados. Os sapatos já estão engraxados, abotoaduras, cetim, lenço no bolso, perfume vindo de Paris, pastilhas de menta guardadas no bolso da calça, dentro de uma lata metálica de drops comprada em uma conveniência de importados. Começa o baile, toca o coração.

Ao fundo, moças bem arrumadas adentram o grande salão empesteado por uma nuvem invisível, a dançar, com flores vermelhas nos cabelos, o bolero de Ravel.

*

Depois do baile, cansado dos agitos da cidade, das calles, das luzes, das moças espanholas, de tudo que serpenteia e trepida no frevo, depois de colecionar calor, porres, depressões, amores imaginários, prêmios em concursos de danças, itinerários carimbados por todas as capitais da América do Sul, depois de tudo isso, deito-me em meu quarto, um tanto letárgico, extremamente vivo, embora vá morrendo a cada pulsar e pulsar.

Olho para estante de livros e vejo aquela foto, cinza como um dia de outono a chorar pequenas gotículas de vinho sobre a cidade costeira. E lá está você, mesmo debaixo disso, sorrindo, como se nada mais importasse do que aquele instante, no bater da foto. Levanto da cama, ainda muito pálido. Acendo a luz do quarto, mas a fraquinha, do abajur, saio tateando os móveis em busca daquilo. Pego meu coração na mão. Prendo-o entre meus dedos, apanho-o, o encaixo com violência no buraco aberto. O retrato sorri, retribuo repleto de alegria e tristeza. Ao mesmo tempo choro as lágrimas de vinho não tomadas, que um dia caíram na cidade sem que eu soubesse.


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