• Bruno Pernambuco

Da Beleza e da Consolação

\\ CINEMA

As três jóias unidas nessa mesma apresentação são filmes tão bem realizados, tão concisos e honestos com a sua própria história, que me sinto estragando-os profundamente se exagero nas descrições.

Por Bruno Pernambuco


[Aconteceu, entre os dias 30 de junho e 5 de julho, o Festival Finos Filmes, organizado pelo cineasta Felipe Poronger. Combinando mesas de discussão apresentadas no canal do MIS-SP no Youtube (o acervo desses vídeos fica disponível) e uma mostra de curtas-metragens disponibilizados no streaming SPCine Play (os curtas participantes ficam disponíveis no serviço até o dia 8 de Julho), o festival teve de reinventar seu formato para a edição 2020, devido à pandemia do vírus COVID-19.

No dia 5 de Julho ocorreu a mesa “Tempo, Luto e Reconstrução”, com Pastor Henrique Vieira e Vera Iaconelli, e mediação de Felipe Poronger, numa discussão a partir dos curtas “Aos Cuidados Dela”, “Baile” e “Guaxuma”. Abaixo, nosso colunista Bruno Pernambuco traz impressões sobre os filmes e sobre a discussão. Fica o convite ao leitor para explorar as outras discussões da mostra no canal do Museu, e o restante do catálogo de curtas no streaming]


Imagem de "Aos Cuidados Dela", de Marcos Yoshi.

A morte trabalha sutilezas, silêncios, detalhes. Ela está, sempre aos poucos, nas convivências da despedida, no amargor daquela felicidade da pessoa querida. Ela não é única, é multifacetada- são, de fato, muitas, que se sobrepõem, vem e voltam, se encontram e deixam de se encontrar. A emoção são sempre muitas emoções ao mesmo tempo, e aqueles filmes que mais valem a pena são sempre os que não se prendem a uma história única- contar uma história de alguém é contar muitas.


As três jóias unidas nessa mesma apresentação são filmes tão bem realizados, tão concisos e honestos com a sua própria história, que me sinto estragando-os profundamente se exagero nas descrições. Aqui, sentado, ao escrever, os filmes recém-vistos, me abate uma tristeza muito profunda. Parece ser um outro tempo que me invade. A passagem, talvez, desse olhar tão preciso, tão respeitoso desse fulgor da lembrança. Todos nós caminhamos pisando sobre muitas mortes, agir, é sempre agir enlutecido de alguma coisa- de um tempo, de um lugar, de uma pessoa, de uma memória ou de sua invenção; a reconstrução, tanto falada, tanto esperada, é bem possível nada mais ser que um couro desgastado dos sapatos, ou a garoa parca sobre aquilo que a primavera esqueceu. O luto pede uma ruminação mais lenta dos dias. Uma calma maior das ações, não pôr-se tanto à frente de si mesmo, e levar sempre um dia de cada vez. Nesse momento, então, ele seja talvez o reencontro possível com a própria humanidade. Talvez seja por isso que todos esses filmes de despedida falem tanto, e deixem uma lembrança tanto pesada e difícil. Aos Cuidados Dela, Baile e Guaxuma são excelentes filmes sobre a escuta- a escuta do mundo, aberta, ampla, que toma todos os sentidos e entra por todos os lados, e a escuta de si próprio, tímida, falada em vez de gritada, um fogo que queima constantemente, e numa chama contida. São obras sobre o encontro com o mundo, e a crueldade de abril. Esse olhar íntimo e tenro, que ainda enxerga a dignidade daquelas vidas a quem o mundo já abandonou, nunca se prende aos seus personagens, e mais ainda os respeita por tratá-los de forma inteira; como os seres da sua própria história, não como uma história interrompida.


Eu me perdi completamente, tanto assistindo aos filmes quanto falando sobre eles. Perder-se, e não saber por que caminho vai, nesse momento é tão faltante quanto é preciso. Conforme mais e mais distantes vão ficando aqueles encontros que lembram disso, mais a resignação cresce dentro de cada um feito uma bola de piche que vai aumentado, deprimida, irritada e exausta. Quando mais do que nunca se procura a dita reconstrução, e- depois da surpresa, do trauma, e das explosões daquelas insurgências que se avizinhavam- ela começa a ganhar novos contornos, na imposição de um esquecimento forçado, e de rehabitar aquilo cujo sentido ficou perdido, há a esperança de que, com o cinema, a tempestade não deixe pedra sobre pedra, e nada fique além das ruínas. Depois disso, talvez seja possível enxergar alguma coisa.


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