• Giovana Proença

Declaração sobre as declarações

\\ ENTRELINHAS

O amor pode fugir ao entendimento. Para alguns, é palavra desconhecida, intraduzível. Quantos autores usaram textos para declarar o abstrato que não compreendiam?

Por Giovana Proença

Os Amantes (1928), Magritte.


Aviso de antemão: sou contra declarações de amor. Confesso, não acredito nas palavras entoadas como defesa nessas horas. Entro para o time de Pessoa: “Quem quer dizer o que sente / Não sabe o que há de dizer./ Fala: parece que mente.../ Cala: parece esquecer...” O olhar que desvia em meio a multidão ou o olhar que desvia ao encontro com outros olhos – azuis, verdes, castanhos. O sorriso entre goles de bebida no fumódromo da balada, o respirar entre o desconcertante intervalo que é o som entre duas canções. Cartas trocadas entre avós em um instante perdido entre os anos sessenta, caligrafia inclinada em um doce afeto azul, porque afinal, a palavra escrita mantém seu charme, blindada do gaguejar e das frases que fogem ao esquecimento das declarações.

Ainda que o amor perpasse a história, e até mesmo os pilares da tradição literária, estamos diante de um abismo. O grande clichê universal da literatura. Textos de amor são tediosos, admito. A felicidade é entediante, a aventura é o desamor. Escrever um texto de amor é compor todo um enredamento em cima de um conceito que paira suspenso sobre nosso entendimento. Grandes declarações não faltam, nos pegam de surpresa nas páginas de romances, pretensiosamente despretensiosas.

A paixão tempestuosa de Mr. Darcy, principal herói de Jane Austen, ao confessar à Elizabeth que “a ama ardentemente” pode ilustrar a grandeza da temática amorosa na literatura, mas temos exemplos menos óbvios, que guardam a mesma potência de arrancar um suspiro. Em outro grande momento da literatura de língua inglesa, Emily Brontë coloca duas citações passionais na boca de Catherine Earnshaw, em rompante ao afeto por Heathcliff. “Ele é mais eu do que eu mesma. Seja lá do que nossas almas são feitas, a dele e a minha são iguais”, Cathy coloca o reconhecimento e o espelhamento na equação do amor. No ápice da tragicidade d'Os morros dos ventos uivantes, Brontë vai além na poeticidade: perdão e identificação escorrem nas derradeiras palavras de sua heroína.

“Beije-me uma vez mais, e não me deixe ver os seus olhos! Perdoo-lhe o que você me fez. Amo a minha assassina... mas não a sua! Como eu poderia viver sem minha vida? Como eu poderia viver sem minha alma?”

Albert Camus pode não ser o nome mais óbvio quando se fala de amor na literatura, mas em A Peste, o escritor francês tece o limiar de um aforismo “Porque o amor exige um pouco de futuro e para nós só havia instantes.” Sensação semelhante experimentamos em nossa própria pandemia, real e concreta, e paradoxalmente, paralela à vivência literária da cidade de Oran. Somos roubados de um sonho de futuro. Mas alguns se contentam com os instantes. Certo amigo, por acaso o editor dessa revista, escreveu em uma de suas crônicas que “o futuro é o futuro e você é você”. Desculpe, Camus, mas não há nada maior do que um instante eternizado. Caminhar sem olhar para frente, absorto nos doces sabores do presente que é o presente. Futuro é palavra estrangeira, folha em branco folheada com desinteresse, podemos até vislumbrar o desfecho em um parágrafo, que hoje, pelo limiar do tempo, falta sentido.

A outra face. Quando o amor não vem. Quando o olhar não causa arrepio. Quando o sorriso morre delineado como intenção. Quando as palavras morrem na valsa do silêncio.Tudo que resta é pedir “Olha-me de novo”. É o que faz Hilda Hilst, dama obscena da literatura brasileira.

Se te pareço noturna e imperfeita Olha-me de novo. Porque esta noite Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.

O poema integra o volume “Júbilo, memória, noviciado da paixão”. Contra Hilda, não há argumentos. O tão esperado júbilo, em vezes amargas, fica só na memória. Mas tudo é ensinamento, ou noviciado.

O lirismo brasileiro não cansa de render grandes declarações. Minha favorita vem de Ana Martins Marques, poeta mineira e metal precioso da poética contemporânea.


EM BRANCO

Dizem que Cézanne

quando certa vez pintou um quadro

deixando inacabada parte de uma maçã

pintou apenas a parte da maçã

que compreendia.

É por isso

meu amor

que eu dedico a você

este poema

em branco.

O amor pode fugir ao entendimento. Para alguns, é palavra desconhecida, intraduzível. Quantos autores usaram textos para declarar o abstrato que não compreendiam? Mas nem tudo está perdido, pode ter outra vez. Olhares trocados como correspondência desviada. Finalmente, a fala. Silêncio que toca na vitrola, o rodar elegante do disco tira para dançar, no lento ritmo característico. Jogo mudo. No olhar gravador de lápide, enterra-se as palavras que insistem em escoar.

Para uns, a declaração pode ser um texto. Mas não esse, nem para essa autora.

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