• Matheus Lopes Quirino

Discreto entre seus contemporâneos, Rafael pintou grandes obras alinhadas a Michelangelo e Da Vinci

\\ ARTE


Morto em 6 de abril de 1520, o artista italiano consagrou-se como grande nome do Renascimento.


Por Matheus Lopes Quirino

Auto-retra\to atribuído ao autor (Imagem/reprodução)


Um olhar dócil fitava pincelada por pincelada do pai, provavelmente sentado em pose de ermitão em algum caixote daquele estúdio na cidade de Urbino, Itália. Compenetrado, o jovem apreciava aquilo (arte) com que a imaginação passeava, infante, muito antes de que seus querubins esfumaçados se celebrizassem para além das províncias italianas, ganhando o mundo. Neste início de vida, pouco a pouco, ao demonstrar vocação para o ofício da pintura, o jovem Rafaello Santi (que ficou conhecido pela sua cidade Sanzio) foi levado pelo pai também pintor Giovanni Santi (discípulo de ninguém menos que Piero Della Francesca) ao ateliê de Perugino (1446 – 1523), e lá foi promissor aluno.

Aos 17 anos Rafael, como ficou conhecido, era um artista bem-sucedido no ducado de Urbino, tendo ele boa relação com seus mecenas, mesmos homens cultos da aristocracia local que faziam encomendas ao pai do pintor. Discípulo da geração de ouro que endossou os ensinamentos das escolas de Florença, aliados à observação da arte greco-romana (contemporâneos, a trinca de ases estupendos da época era composta pelos veteranos Michelangelo, Leonardo da Vinci e o prodígio Rafael), os artistas da Renascença triunfaram na Itália, desprendendo-se das frígidas pinturas dos estilos Românico e Gótico.


O triunfo de Galatea, vê-se influência mitológica na obra de Rafael (Imagem/reprodução)


Aperfeiçoando-se em técnicas de pintura e escultura, o jovem pintor dava movimento às suas imagens, aplicando o sfumato, célebre técnica inventada por Da Vinci, em seus retratos. Com Perugino, logo se destacou entre os aprendizes do mestre, indo a Florença aos 20 anos. Lá sua arte floresceu. Naquele ano, 1504, a cidade vivia a ebulição dos trabalhos dos grandes pintores que mais tarde iriam para Roma. Destino que aguardava Rafael, mas antes disso, a juventude demandava muito estudo e, como jovem afável ao conhecimento, de temperamento sereno (não como o intempestivo Michelangelo) absorveu aos poucos técnicas que marcam seu trabalho, como o claro-escuro, contrastes acentuados em suas pinturas, tornando o movimento de suas obras fluido.


A virgem e o pequeno Cristo /Museo del Prado

Suas figuras são delicadas e espontâneas, tendo Rafael conferido a suas madonas o viço que muitos buscaram e não conseguiram. Ele explorava além das cenas mais cânones das histórias bíblicas, pintando graciosos rebentos angelicais, rechonchudos. “As imagens são tranquilas e cheias de vida”, pontuou o ensaísta e professor de história da arte E.H Gombrich, defendendo também que este havia superado seu mestre Perugeno (que muitas das feições de suas obras Gombrich considerava vazias).

No ano em que Michelangelo começava a pintar o teto da Capela Sistina (1508), em seu trabalho intermitente e solitário que durou anos, Rafael chegou a Roma, e não demorou para seu nome ganhar força de expressão. E tão logo o papa Júlio II encontrou no pintor uma personalidade diferente daquela geniosa (e genial) com que havia tratado com Michelangelo anos antes. Rafael ficou incumbido de pintar alguns aposentos no Vaticano. Lá, o artista arrebanhou aprendizes e não demorou para que seu traço fosse copiado pelos meninos que viam no seu trabalho (e na oportunidade) uma inspiração tamanha.




Rafael é conhecido pelas pinturas das madonas, nelas, ele imaginava a beleza das retratadas, diferindo-se dos padrões antigos que buscavam modelos de perfeição do corpo




Madona, Rafael(imagem/reprodução)


Sociável, doce, seus relacionamentos só potencializavam a grandeza de sua arte. Logo sua oficina celebrizou-se e, com os aprendizes, a arte de Rafael ganhou status no mesmo pé de seus contemporâneos Da Vinci e Michelangelo. Enquanto o autor de Monalisa se dedicava não só à pintura mas, como um verdadeiro cientista, tornou-se um múltiplo-auto-didata, rompendo paradigmas não só das artes, mas da medicina e da mecânica, por exemplo; Michelangelo isolava-se ao passo que envelhecida, tornando-se casmurro e exigente, escolhendo a dedo o que ia pintar.

Tendo caído nas graças da alta-cúpula do Vaticano, não só Júlio II encomendava pinturas, como o papa que se seguiu, Leão X, tendo ele deixado a cargo de Rafael o projeto da Basílica de São Pedro. Morto aos 37 anos devido a um martírio febril, o talento precoce da vila de Sanzio ganhou o mundo, inspirando gerações e escolas como o Realismo e pintores flamengos. No Panteão de Roma, o cardeal Pietro Bembo imortalizou em seu epitáfio os seguintes versos poéticos: Eis o túmulo de Rafael/Enquanto viveu, a Mãe Natureza temia por ele ser derrotada;/morto, agora, Ela receia morrer junto.

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