• Bruno Pernambuco

Do AntiTeatro ao Novo Cinema Alemão

\\ CINEMA

Toda a atuação em seus filmes é profundamente marcada por esses preceitos do AntiTeatro, também, pela mescla entre a realização das obras e o relacionamento pessoal do diretor com os atores.

Por Bruno Pernambuco


O diretor Rainer Werner Fassbinder, em retrato de Peter Gauhe.

Uma das marcas que mais torna única a autoria desse enfant terrible do cinema contemporâneo alemão, Rainer Werner Fassbinder, é a forte inspiração teatral presente em sua cinematografia e na elaboração de suas obras. Sua atuação como diretor do AntiTeatro, em Munique, já começava a trazer as marcas de sua visão artística, e a estabelecer uma estética que se vê ainda em filmes de distintas fases da sua carreira.


O experimentalismo radical promovido por esse grupo, trabalhando com novas formas, que apontavam para o caminho de transformações que ainda viriam, na amplificação do distanciamento entre os personagens e a plateia, e numa quebra ainda mais cindida com os ideais modernos, foi uma das ações mais pungentes na vida cultural alemã dos anos 60 em termos de escancarar a hipocrisia e as limitações estruturais autoritárias de uma sociedade que tentava divulgar a si mesma e ao mundo uma imagem de tranquilidade e estabilidade, em oposição à sua contraparte oriental, com o milagre econômico do pós-guerra.


Fassbinder vem de uma geração pós-brechtiana, que, em muitas formas, amplificou as experimentações do teatro épico. Se a escrita de Brecht encontrou um sentido histórico bastante específico em seu engajamento, acompanhando a ascensão do partido nazista e o estabelecimento do Terceiro Reich, com Fassbinder essa desmontagem do teatro da realidade se volta para uma sociedade aparentemente reconstituída - para aquilo que foi construído, depois de deixados os escombros da guerra de rapina. Desfazer, no caso de certas montagens do AntiTeatro a murros e pontapés, as certezas desse novo país que se mostra tão firme e sólido é mostrar agora a permanência do autoritarismo e dessas mesmas estruturas da crueldade mais pura. Ainda que uma leitura direta do período nazista venha a aparecer só na parte posterior da filmografia do diretor, a quebra posta desde seus primeiros trabalhos já indica essa permanência do passado.


A visão do diretor teatral aparece nos filmes de Fassbinder de forma muito específica, na construção dos espaços e em certos enquadramentos. No primeiro caso tem-se narrativas inteiras que são pensadas para espaços confinados (o caso mais extremo sendo o quarto onde se passa toda a ação de As Lágrima Amargas de Petra von Kant), ou ainda espaços como a casa compartilhada onde vive Von Bohm em Lola, que aparece como uma sucessão de palcos, dispositivos independentes onde, em cada cena, a ação está contida. Olhando para os enquadramentos, se pode enxergar as formas chapadas, quase bidimensionais, pressionadas contra a parede, como são apresentadas as personagens, em diálogos ou em closes. Muitas vezes, partes importantes da narrativa se desenvolvem a partir desse plano, sem profundidade, direcionado como se de fato fosse um olhar que vê um palco.


Outras formas, mais sutis, de construção dentro dessa filmografia tão ampla também decorrem de uma forte influência do teatro. Na forma como a ação é estruturada, naqueles momentos, tão frequentes em que não se busca, para esses menores detalhes das relações, um realismo preciso, naturalista, se pode ver muito da influência dos modelos de coreografia, inspirados pelos musicais e pela tradição burlesca, com quem Fassbinder tão abertamente dialogava em sua composição teatral. Toda a atuação em seus filmes é profundamente marcada por esses preceitos do Anti-Teatro, também, pela mescla entre a realização das obras e o relacionamento pessoal do diretor com os atores. Esse é um jogo, uma metanarrativa, jogada com perfeição ao longo de toda a sua filmografia e que dela abertamente faz parte, de suas intenções de sua linguagem. Os papéis são constantemente trocados.


O diretor também atua em muitas obras, assim como sua mãe está muitas vezes presente interpretando personagens. A mesma trupe de atores se reveza na grande maioria dos papeis mais icônicos deixados desses filmes, e o seu legado é, também, inseparável de suas relações pessoais com Fassbinder. A construção desse personagem autoritário, sensível, controlador, cruel, cercado por tragédias, moralmente podre e, finalmente, relegado como uma figura maldita no cinema pós-Nouvelle Vague, embora se mantenha a apreciação crítica de seus filmes, é talvez a maior invenção de Fassbinder - talvez, de fato, sua maior intenção - e seu maior sucesso. Essa criação paralela - sem a qual, talvez, seus filmes não possam ser lidos por completo - de uma figura que se entremeia como criador, ator e personagem dessas obras que são expostas é como uma consumação entre vida e arte; o personagem representa essa vida exilada daquelas leis tão organizadas, pacatas e justas que fizeram a criação de uma nova Alemanha. Assim o personagem cresce, e torna-se, também, diretor.


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