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El לא Uma jornada dentro de mim

\\ LIVROS

Como numa sessão de terapia, ele investiga, revive, questiona e pesquisa diversos momentos que fazem parte da história de sua vida.

Por Mathias Bildhauer*, Colaboração para Frente & Versos


"El אל – Uma jornada dentro de mim", de Mathias Bildhauer.

Dentro de Martin, um jovem de 20 e poucos anos, assim como em todos nós, há um universo infinito, onde seu dna, suas células, crenças, memórias, vivências e lembranças moldam a realidade que ele vive. Assim, o personagem se encontra numa experiência sinestésica e sensorial dentro de si. Como numa sessão de terapia, ele investiga, revive, questiona e pesquisa diversos momentos que fazem parte da história de sua vida. Martin é um buscador, como todo ser humano, quer vencer as adversidades de sua existência para aprender a fluir por ela sendo um canal (El – לא), onde o infinito mistério irá se manifestar e fazê-lo caminhar de maneira leve, equilibrada e com amor.



Cena 1

(Espaço/tempo dentro e fora do personagem Martin).

Martin: Era uma quinta-feira. O sol estava entrando em libra e já fazia um calor absurdo. Pra quem não sabe, libra começa em 23 de setembro. A bolsa da minha mãe havia estourado e eu já estava pronto para vir ao mundo. Mas, alguns meses antes, num almoço de família, discutiam sobre como eu me chamaria, meus pais chegaram então a um consenso: que minha prima mais velha decidiria:

“Eu escolhi o nome. Vai ser Ricky Martin!” (pausa).

Sim, ela era fã do cantor.

“Ah não minha querida, pelo amor de Deus, a gente te deu essa responsabilidade, mas é algo sério.”

“Mas, é sério, tia!”

Meu pai, que era o ser mais sensato da família, com toda sua serenidade ergueu o dedo e...

“Hmhãam, vamos ser justos, Marlene, passamos a decisão a ela, mas temos que chegar a um consenso. Que tal, Martin Henrique?”

Minha mãe sorriu, minha prima aplaudiu. E assim, fui batizado. (mudança de tom). Só que foi a primeira e única decisão que eles tomaram na minha vida. Naquela tarde quente, na ida ao hospital, o carro do meu pai foi atingido em cheio por um caminhão desgovernado. Dizem que o motorista estava alcoolizado. Bom, a notícia menos trágica é que conseguiram levar minha mãe a tempo pro hospital e me retirar com vida. Mas, ela não resistiu e morreu algumas horas após o parto. É curioso como falar sobre essa história nunca me doeu, acho que a saudade e o sofrimento são frutos do apego àquilo que a gente já possui.

(mudança de tom)

“Martin, onde você está?”

(Viagem no tempo/espaço).


Cena 2

Por que eu é que tô aqui? Bem, eu.. é... Eu tenho tido faltas constantes de ar. Sabe? Ataques de pânico, acho que é isso o nome... parece que eu vou enfartar, meu peito dói, minha boca fica seca, eu suo, fico enjoado. AiAi.. Minhas mãos tremem. E eu, eu não consigo controlar, é muito maior, mais forte do que eu. Eu fico tenso. Como agora? É, talvez, não sei. As vezes acontece isso quando eu tô na rua, vejo o fluxo intenso de pessoas indo e vindo, quando eu tô com meus amigos, mas acho que o pior de tudo é quando eu tô sozinho sabe, antes de dormir, minha cabeça parece que gosta de só focar nos problemas e fica naquela angústia. Parece que o mundo vai acabar e eu vou morrer, ali mesmo. E eu não tenho ninguém ao meu redor pra me amparar. E dói. Eu não tenho pra quem pedir ajuda. Eu só queria morrer nessas horas...


* É ator e escritor, com passagens pela Rede Globo e o Teatro Clara Nunes, lança o livro 'El לא Uma jornada dentro de mim' em e-book, disponível na plataforma Amazon.

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