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Em ‘A Barata’, Ian McEwan mira nos detalhes de um desarranjo político

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Com voltas inspiradas no Brexit, humor e ojeriza se complementam nos bastidores do poder 


Por Laura Pilan, colaboração para Frentes Versos

Ian McEwan fotografado no Salon du Livre de Paris em 2011 (Imagem: Thesupermat).

Ítalo Calvino, célebre escritor italiano, estabelece que “um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer”. Não nos resta dúvidas de que A Metamorfose, de Kafka, é uma dessas histórias inesgotáveis. O conto alemão é o ponto de partida para que Ian McEwan crie uma sátira política afiada e extremamente atual. A Barata explora um processo inverso ao kafkiano: aqui, um grupo de baratas se torna humano para realizar um propósito obscuro de consequências desastrosas. Não se trata mais do microcosmo doméstico da família Samsa, mas de um macrocosmo onde qualquer decisão causa impactos de proporções universais.

 

A obra é interessante em sua totalidade e, acima de tudo, em suas minúcias. O título já é bastante esclarecedor: a ênfase não deve ser atribuída à transformação – como nos indica o título “A Metamorfose”. Aqui, o foco deve ser devidamente ajustado para analisar a criatura e seus objetivos. 


A epígrafe presenteia o leitor com uma ironia muito sofisticada: “qualquer semelhança com baratas reais, vivas ou mortas, é mera coincidência”. A leitura atenta da obra nos dá uma certeza bastante lúcida: não é apenas coincidência.

 

O inseto que inicialmente tomamos conhecimento é aquele metamorfoseado no corpo do primeiro-ministro – Jim Sams, um homem sem pulso e incapaz de tomar grandes decisões. A barata – agora de aspecto humano – demora muito pouco para se acostumar a andar sobre duas pernas. Subitamente, alia os instintos de sua espécie a formas de controle da população extremamente atuais – como a internet e, especialmente, o Twitter – a fim de concretizar um plano maior. A manipulação é só um dos instrumentos dos quais Sams fará uso, e sua presença no parlamento é apenas a superfície de um grande esquema político, sobre o qual uma horda de baratas infiltradas no governo conspira. 


O autor apresenta uma espécie de teoria econômica com aplicações complexas: trata-se do reversalismo – que consiste em inverter o fluxo do dinheiro. Paga-se para trabalhar e ganha-se ao consumir. As criaturas grotescas, transformadas nos ministros mais influentes de um Estado, desejam a implementação da nova política visando provocar uma miséria da qual possam se alimentar. Não lhes importa que o restante da população humana sofra – os fins justificam os meios. O desenrolar do enredo proporciona uma conclusão tão aguda quanto dolorosa: torna-se muito simples convencer um grande número de pessoas a apoiar decisões políticas insensatas.

 

A elaboração do enredo partiu do processo conhecido como Brexit – a saída do Reino Unido da União Europeia, vivenciada e criticada por Ian McEwan. O acontecimento recente é perfeitamente comparável com a conspiração das baratas neste romance, visto que o apoio popular e de outros governantes – como o presidente dos Estados Unidos, por exemplo – conduz, tanto na realidade quanto na ficção, à uma ruptura econômica sem precedentes. O comensalismo despreocupado e brutal das baratas é só mais um reflexo do populismo da direita política que se aproveita da opinião pública para lucrar com o empobrecimento da população – que resulta no enriquecimento da classe parlamentar.

 

Uma vez que o reversalismo está implantado e o caos se inicia, as baratas se encontram livres para voltar a infestar o Palácio de Westminster. O ápice do espetáculo mórbido é a cena final – que constitui, provavelmente, um dos paralelos mais impactantes com a obra de Kafka. O conto alemão tem seu desfecho com a crueldade sútil da família Samsa que, descartando o corpo morto de Gregor em um piscar de olhos, dá continuidade à própria vida. O filho de aspecto repugnante perde a importância, uma vez que não pode contribuir com seu trabalho ou seu dinheiro. Em “A Barata”, o séquito de criaturas vê um companheiro ser brutalmente atropelado. Do corpo fragmentado, verte uma substância asquerosa que serve de alimento aos demais. Extrai-se até a última gota do que pode ser parasitado e, depois, a casca vazia é despida de utilidade.

 

Ao fim, não restam grandes esperanças ou a sugestão utópica de uma solução apropriada. Ian McEwan expõe o problema – que, como o inseto, se infiltra nos cantos escuros de uma sociedade e, tão intrínseco a ela, atinge a esfera política. Cabe ao leitor descobrir como escapar dessa grande ironia – ou tragédia.


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TÍTULO: A barata

AUTOR: Ian McEwan

EDITORA: Companhia das Letras

ANO DE EDIÇÃO: 2020










(Os textos de colaboração não expressam necessariamente a opinião da FV)

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